Bernardo Trindade dá continuidade a legado de família nos livros

A fachada cinzenta do número 44 da Rua do Alecrim, em pleno Chiado, em Lisboa, não revela o que lá dentro se encontra. A Livraria Campos Trindade esconde um “mundo infinito” de livros antigos, comprados e vendidos por Bernardo Trindade, um orgulhoso alcobacense que está ligado ao mundo dos livros há quase quatro décadas.

O alfarrabista “nasceu” entre os livros e não mais abandonou o “negócio”. Curiosamente, Bernardo Trindade conta ao REGIÃO DE CISTER que se não fossem os livros, ou um livro em particular, nunca teria nascido. “O meu pai [Tarcísio Trindade, presidente da Câmara de Alcobaça entre 1969 e 1974] encontrou um exemplar do primeiro livro impresso em Portugal, o “Tratado da Confissão”, datado de 1489, e ao vendê-lo conseguiu dinheiro para se casar e ter quatro filhos”, refere.

Todos os meses passam milhares de livros pela Campos Trindade. A obra mais valiosa que passou pelas mãos de Bernardo Trindade foi um exemplar da primeira edição de “D. Quixote de La Mancha”, do espanhol Miguel de Cervantes, datada de 1605, um dos livros “mais valiosos a nível mundial”, defende o alfarrabista. 
O proprietário da Livraria Campos Trindade é licenciado em História, mas é no meio dos livros que se sente melhor. 

Contudo, afirma que é um alfarrabista “diferente do costume”. Em vez de estar “sentado à espera na livraria”, prefere andar de um lado para outro a avaliar coleções e bibliotecas particulares inteiras. O alcobacense afirma ter uma vida “atarefada e ocupada”. Ainda que não goste “de falar de preços e valores”, revelou que costuma adquirir bibliotecas pessoais que chegam a atingir a impressionante marca de “30 ou 40 mil livros”.

Os livros são, depois de um “meticuloso trabalho de avaliação e, por vezes, de restauro”, postos à venda na Livraria Campos Trindade. “Há todos os preços e todo o tipo de clientes”, esclarece. Alguns vêm à procura de livros usados a “preço bem mais apetecíveis” do que os que são vendidos noutras livrarias. Outros são “fanáticos” por colecionar primeiras edições e a Campos Trindade tem fama de vender muitas destas obras. Tanta fama que há até clientes que viajam meio mundo (nomeadamente do Japão, imagine-se...) de propósito para se “perderem” e descobrirem as maravilhas que o número 44 da Rua do Alecrim esconde.

Bernardo Trindade consegue conjugar a vida profissional com uma paixão que foi desenvolvendo desde muito cedo. E são os livros antigos, alguns com mais de 300 anos, com os quais mais gosta de trabalhar. Além de ler muito e diariamente, e ainda que não tanto “como quando era mais novo”, o alfarrabista está atualmente a organizar a biblioteca do pai, aquela que é “de longe, a maior biblioteca privada sobre Alcobaça e a Ordem de Cister”. Um trabalho “que ocupa muito tempo” a Bernardo Trindade mas que pode vir a dar frutos num futuro próximo. Por enquanto, o alfarrabista vai continuar a comprar e a vender verdadeiros artefactos históricos e prolongar o legado da família Trindade.