A educação como um modo de vida

Aos 30 anos, Maria Coutinho concluiu, recentemente, uma licenciatura em Sociologia. Para trás ficaram um curso em Gestão e um mestrado em Marketing. Não o fez pela acumulação de “canudos”, mas sim pela “paixão” no ensino e na formação.

O percurso académico começou algo atribulado. Depois de várias dificuldades de adaptação à capital e a viver longe dos pais, Maria Coutinho ponderou abandonar o curso. O Tratado de Bolonha e a indecisão em escolher outro curso acabaram por ditar a conclusão da primeira licenciatura. Era tempo de “seguir o percurso natural” e procurar emprego. “Com a crise, houve alguma dificuldade em encontrar trabalho, e pensei que seria melhor continuar a estudar do que ficar parada”, relata a jovem. Seguiu-se um mestrado, um estágio profissional, alguns trabalhos temporários e um estágio não remunerado. A indecisão e a incerteza fizeram com que Maria Coutinho, habitualmente “muito ponderada”, fez “clique” e ressurgiu um interesse antigo: a sociologia.

Com o reingresso no ensino superior, a jovem redescobriu a “paixão” pela formação e, finalmente, estava a fazer algo que gostava. “Não me identificava com o ‘título’ de gestora. E neste último curso estava definitivamente mais motivada”, adianta Maria Coutinho. 
Com o despertar do gosto pela sociologia surgiu, também, a vontade de querer prosseguir os estudos. Quer seja no doutoramento em Sociologia ou num mestrado em Ensino para poder transmitir aos outros aquilo que tem aprendido ao longo dos anos, Maria Coutinho não espera deixar de “visitar” as salas de aula por muito tempo.

O facto de a longa “carreira” académica significar, possivelmente, uma entrada tardia no mercado de trabalho não a assusta. “É verdade que posso estar a perder algumas oportunidades mas sinto que ganho mais do que perco”, confessa Maria Coutinho. No entanto, a estudante tem a “preocupação” de nunca vir a ter “retorno” que tem feito na sua formação ao longo de mais de uma década.

Considera-se “sociável e extrovertida”, ainda que se identifique mais com o perfil “solitário” do estudante. “Os trabalhadores e os estudantes têm estilos de vida muito diferentes e isso acaba por criar alguns conflitos nas dinâmicas das relações interpessoais”, admite. O percurso de vida de Óscar Santos difere, em praticamente tudo, do de Maria Coutinho. Em tudo exceto na “paixão” pela educação. Já com uma carreira na área dos moldes, em Pataias, o antigo presidente da Junta de Montes aproveitou o antigo programa Novas Oportunidades para concluir o ensino secundário. “Sempre considerei que a formação é muitíssimo importante e foi por isso que decidi continuar a aprender”, começa por contar o antigo autarca, que inclusivamente instalou um gabinete do Novas Oportunidades na entretanto extinta freguesia dos Montes.

Gostou tanto da experiência de voltar aos bancos de escola que voltou a apostar na formação: desta vez no ensino superior, com a licenciatura em Gestão de Recursos Humanos. Óscar Santos frequentou o curso no horário pós-laboral e, passados três anos, surpreendeu a mulher... que não tinha conhecimento da aventura do antigo autarca. “Estudei por mim, não por nenhuma obrigação, fi-lo porque gosto de estar constantemente a aprender e de manter-me atualizado”, confessa o “jovem de espírito”. Não satisfeito com o “canudo”, o account de uma empresa de moldes frequenta uma pós-graduação em Gestão de Projetos. “Não sei se consigo acabar, a disponibilidade já não é a mesma”, conta, bem-humorado, ao REGIÃO DE CISTER.

Os eternos estudantes têm, ainda, em comum o gosto pela leitura. Mas diferem nos géneros literários: a jovem prefere livros teóricos da área das ciências sociais, o antigo autarca aposta na literatura e lê vários livros ao mesmo tempo. Mas ambos aproveitam o tempo com os livros para continuar a aprender. Seja o que for.

Acabam-se as semelhanças. Maria assume-se infoexcluída, enquanto Óscar gosta de estar a par das novas tecnologias, ainda que tenha uma posição bastante crítica à “massificação do conhecimento” nas redes sociais: “há muita informação mas isso não se traduz em conhecimento”. “Tenho perfil no Facebook mas é bastante restrito, uso-o para acompanhar um grupo de amigos chegados”, revela o montense.

A idade ou a experiência pouco, ou nada, importam quando o objetivo é continuar a desafiar os próprios limites e continuar a aprender. E que belo desígnio de vida: aprender todos os dias.