Entrevista a José Milhazes

Acabou a “relação” com o comunismo, mas nem por isso deixou de amar a Rússia. Depois de quase quatro décadas a viver no “país dos sovietes”, onde trabalhou como tradutor e jornalista, o homem natural da Póvoa do Varvim regressou a Portugal e, há cerca de uma década, estabeleceu uma segunda residência em Casais de Santa Teresa, na freguesia de Aljubarrota. Esta segunda casa tem passado, cada vez mais, a tomar o lugar de “eleição” do especialista em História da Rússia, que aproveita a “calmaria” da chamada região de Cister para continuar, aos 59 anos, a dedicar tempo à literatura e a escrever, enquanto mantém atividade de comentador político para a SIC Notícias, Antena 1 e Observador

Nos últimos anos passa a maior parte do tempo no concelho de Alcobaça, a mais de 4 mil quilómetros de Moscovo, onde durante 38 anos acompanhou muitos dos acontecimentos que marcaram o século passado. Depois de regressar a Portugal, o jornalista não deixa de se manter atento, e crítico, ao caminho encetado pelo país de maior dimensão do mundo.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Acompanhou vários momentos que marcaram a História, como a queda do muro de Berlim ou o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Enquanto vivia esses momentos, sentiu que estava a testemunhar a História a desenrolar-se?
JOSÉ MILHAZES (JM) > Sim. Mas não só tinha a noção que estava a testemunhar a História a acontecer à frente dos olhos como também estava a participar. São acontecimentos tão importantes e tão marcantes que não podemos, digamos, estar apenas a olhar para eles como testemunhas imparciais. Também sentimos e vivemos esses acontecimentos, porque são de uma força e importância muito grande e muito marcante. Daí dizer que tive sorte, como jornalista, porque tive a possibilidade de acompanhar tantos acontecimentos que às vezes um grupo de 20 ou 30 jornalistas e todos juntos não conseguiram viver aquilo que eu tive a sorte de viver profissionalmente.

RC > Como comenta a sua participação nestes acontecimentos?
JM > Não votava, porque não tinha direito a isso, mas estudei na URSS, fui tradutor e quando começam as mudanças no bloco de Leste vivia lá e participava em discussões vivas e acesas com soviéticos, sobre o passado e o futuro do País. Claro que quando se é jornalista tem de se ter uma determinada distância mas, por vezes, isso é muito difícil porque os acontecimentos nos envolvem e deixamo-nos ir um pouco. Penso que aquela história de que o jornalista tem de ser uma testemunha neutra não existe, isto não acontece. Os jornalistas são feitos de carne e osso e têm sentimentos. Por isso, é normal os jornalistas deixarem-se envolver e não me parece que, se não houver distorção dos factos ou intenção consciente de enganar, haja problema em isso acontecer. 

RC > Passaram vários anos desde o fim da Guerra Fria e muita coisa mudou na Rússia. Como é a Rússia de hoje em dia e qual o seu papel nas dinâmicas de poder da geopolítica?
JM > Em primeiro lugar devo dizer que considero que a Guerra Fria não acabou. Esta guerra sobe ou desce de intensidade, mas é constante. Neste momento estamos a assistir a um aumento da chamada guerra indireta. E isto acontece por várias razões, uma delas é provocada, também, pela política externa agressiva da própria Rússia e pelo facto de os Estados Unidos da América e a União Europeia não tomarem posições acertadas no campo internacional, como é o caso da invasão do Iraque ou a atitude do Ocidente face à Primavera Árabe. Neste momento, penso que Vladimir Putin está a repetir um pouco a história soviética do ponto de vista de se estar a envolver numa corrida ao armamento. Receio que os custos desta corrida ao armamento possam ser demasiado altos para que a economia russa resista. E pode repetir-se uma situação que aconteceu com a URSS. A União Soviética caiu, em grande parte, devido à política expansionista e à corrida ao armamento: não conseguiu aguentar o mesmo ritmo que os EUA impunham, daí considerar que a história possa terminar, a médio ou longo prazo, no pior cenário que é a desintegração da Rússia ou em problemas graves dentro do país.

RC > Como vê a intervenção russa na Guerra da Síria ao lado do regime de Bashar al-Assad?
JM > Nesta questão volto sempre à pergunta: até que ponto é que esta guerra corresponde aos interesses da Rússia? A Rússia tem graves problemas internos: a questão da modernização e diversificação da economia, que estão a correr muito lentamente, e graves problemas sociais. E, em vez de os resolver, Putin começa a tentar imiscuir-se em conflitos internacionais. E o problema na Síria pode acabar muito mal, porque a guerra não está para acabar, aliás, poderá demorar muitos anos, veja-se o caso do Afeganistão que está há 40 anos em guerra. A Rússia está a envolver-se de tal forma que vai ter de “pagar a fatura”. E é preciso ter meios para se realizar esse tipo de política externa intervencionista. Porque uma coisa é ter a maior economia do mundo, como é o caso dos EUA e ter a política externa que tem; outra coisa é ter a economia da Rússia, que é uma décima parte da economia norte-americana, e tentar fazer a mesma política externa. Repare que a posição da Rússia contrasta com a chinesa. A China, que é muito forte economicamente, não se mete em conflitos fora das suas fronteiras e resolve os problemas que considera ser mais prementes dentro do País e utiliza outros métodos fora de portas, como a expansão económica, que parece ser muito mais rentável que a expansão militar. 

“Os jornalistas são feitos de carne e osso e têm sentimentos”

RC > O comunismo é, no século XXI, uma forma sustentável de governo?
JM > O comunismo poderia ser uma forma legítima de governo se o partido comunista que chegar ao poder mantiver a democracia pluripartidária. Até hoje não há nenhum exemplo disto. Todos os países onde um partido comunista tenha chegado ao poder perderam as eleições pluralistas e a democracia. Nesse sentido, os partidos comunistas não são uma solução para os problemas da humanidade. Porque transformando os países em regimes autoritários criam dentro desses países grandes problemas e acabam por cair. A única exceção neste momento é a China, mas chamar comunista à China implica muitos problemas. Principalmente por causa do seu sistema económico, que é tudo menos socialista, podemos até dizer que é em tudo semelhante ao capitalismo.

RC > Considerou-se, em tempos, um “fanático” do PCP. O que o fez mudar de posição?
JM > Vivi muitos anos num regime comunista e tirei as minhas conclusões. Penso que implementar regimes autoritários não faz sentido, tanto mais que são fracassos. E cheguei à conclusão que por muito má que seja a democracia, não inventámos nada melhor para o desenvolvimento da humanidade. Claro que não vivemos em sociedades perfeitas. Mas temos possibilidade e capacidade de melhorar esta sociedade. Por isso, neste momento assumo que sou um contrarrevolucionário e defendo muito mais a via das reformas, que é muito mais produtivo. Para mim, é muito mais importante que se tente travar a corrupção, porque não há corrupção de direita ou de esquerda, há corrupção. Esta é uma das reformas que apoio, assim como tornar a Justiça mais célere. 

RC > O PCP é hoje um partido parado no tempo? Ou tem possibilidade de influenciar o rumo das políticas sociais, por exemplo?
JM > O PCP e o BE existem porque ainda existem muitas desigualdades sociais e muitos problemas para resolver. Além disso, em Portugal temos uma situação que não existe noutro país europeu: a ausência de extrema-direita. Digamos, aquele eleitorado mais impaciente está na extrema-esquerda. Se a sociedade continuar a melhorar, se a Justiça funcionar, se os políticos fizerem o bem público e não se servirem do povo, se for travado o carreirismo, se a sociedade civil se tornar mais ativa, estou convencido que o PCP e Bloco vão desaparecer, como desapareceram em muitos países da Europa.

“O PCP e o Bloco de Esquerda existem porque ainda há muitas desigualdades sociais e muitos problemas para resolver, como a pobreza, a saúde ou a educação”

 

RC > Foi para a Rússia para estudar. Traduziu obras literárias e políticas, mas acabou como jornalista. Como foi a aventura no “País dos Sovietes”?
JM > Fui para estudar História da Rússia e acabei como jornalista, algo que aconteceu como uma “aventura”. Nunca estudei jornalismo, nem nunca tinha trabalhado enquanto repórter mas o facto de estar envolvido nos acontecimentos motivaram-se a fazer esse trabalho. A “aventura” influenciou muito da minha vida. Não levei muitas coisas para a Rússia porque, com 17 anos, pensava que ia para o paraíso e nos paraísos não costuma faltar nada. Mas faltava muita coisa e muitos produtos básicos. Foi uma descoberta constante, estamos sempre a descobrir algo novo, porque estamos a ir para uma sociedade que é completamente diferente da nossa. E quando nos dedicamos a uma profissão como o jornalismo temos de aprender, não só a fazer jornalismo, mas a estudar aquela sociedade em particular. Tive sempre mais facilidade porque a minha formação é em história da Rússia. Episódios como o desastre na central nuclear de Chernobyl, em 1986, a Revolução na Ucrânia, em 2004, marcaram-me muito e foram importantes na minha carreira. Foram muitas as aventuras...

RC > Sentiu que o trabalho enquanto jornalista era vigiado pelo regime russo?
JM > Na Rússia, os reporteres internacionais não têm muitos problemas. Mesmo quando comecei no jornalismo, não tínhamos os problemas que o jornalistas russos continuam a ter hoje em dia. Lembro-me de um ou dois casos de jornalistas estrangeiros assassinados na Rússia, enquanto foram bastantes os jornalistas russos a serem mortos resultado do trabalho que desenvolviam lá. Diria que há um ambiente pouco respirável ou confortável para se ser jornalista na Rússia.

“A Guerra Fria não acabou. Esta guerra sobe ou desce de intensidade, mas é constante”

 

RC > Reflexo do facto de, como disse, se estarem a cometer os mesmos erros do passado?
JM > Exatamente. A concentração de poder, a limitação das liberdades democráticas aconteceu no passado, e temos verificado que está a voltar a acontecer, e todos sabemos no que isso resultou.

RC > Foi isso, a par do desencanto com o comunismo, que ditou o seu regresso a Portugal?
JM > Não me desencantei com a Rússia, apenas com o regime russo. Estive lá 38 anos. É muito tempo e há muita gente que me vê na televisão ou me ouve na rádio e pensa que sou russo. Mas sou português e tinha que regressar a Portugal e passar cá alguns anos. Estava na hora de regressar. O meu regresso também é fruto da falta de interesse da imprensa portuguesa nos problemas do mundo. 

RC > O que o levou a fixar-se na região, mais concretamente em Aljubarrota?
JM > Isso foi por mero acaso [risos]. Quero dizer, foi e não foi. Porque os Casais de Santa Teresa cumpriam todos os nossos requisitos mas não houve motivo especial para ser aqui, foi aleatório. Procurámos um lugar perto de Lisboa, mas que nos permita levar uma vida mais calma e fixámo-nos numa casa antiga que entretanto foi restaurada.