Hóquei: Entrevista a Horácio Honório

Horácio Honório já passou por todos os clubes da região como jogador e treinador, tendo jogado ainda no Benfica e no Sp. Tomar. De volta ao comando da equipa sénior da Biblioteca, o experiente técnico falou ao REGIÃO DE CISTER sobre as expectativas para a nova temporada e explicou a sua perspetiva sobre a “decadência” do hóquei de formação.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Esteve alguns anos ausente dos bancos, por que decidiu voltar a treinar?
Horácio Honorio (HH) > O que me levou a voltar a treinar foi, primeiro que tudo, ter recebido o convite da Direção da Biblioteca e depois saber que a maioria dos jogadores fizeram força para que isso acontecesse. E é uma coisa que me agrada, saber que há jogadores que gostam de mim e que me reconhecem, e acho que isso é o mais importante.

RC > Qual é o objetivo a que o clube se propõe para esta época?
HH > Nas conversas que fui tendo com a Direção percebi que o que queriam é que ficássemos do meio da tabela para cima. Mas também os fiz ver que, não sendo uma utopia, é muito difícil, porque temos várias equipas do meio da tabela para cima com bastante qualidade e que investiram muito. E isso, para uma equipa que vem da 3.ª Divisão nacional sem um investimento por aí além é uma tarefa dura. A zona sul da 2.ª Divisão deste ano é, talvez, a mais competitiva dos últimos oito anos.  

RC > Em termos de plantel, o núcleo duro vai transitar da época passada ou vão chegar muitos reforços?
HH > A maioria vai transitar, cerca de 90% do plantel. Depois, a meu pedido, veio o Orlando Fernandes, que estava no Sp. Marinhense, e o David Santos, que veio do HC Turquel. Para se ter uma noção, para contratarmos um jogador a outro clube nunca pagamos menos de 1.000 euros e isso para um clube com pouca capacidade financeira é insustentável. Por isso, qualquer jogador que venha agora ou será por empréstimo ou alguém que estivesse sem clube.

RC > Quem considera os grandes favoritos a vencer o campeonato?
HH > Há uns quatro clubes que, se calhar, terão mais argumentos. “Os Tigres”, que é a equipa que mais investiu. Depois o Alenquer, a Física de Torres Vedras e o Grândola. Depois temos outras equipas com processos já consolidados na 2.ª Divisão, a Juventude Salesiana, o Parede FC, o Sporting B e o Benfica B.

RC > Quais são as príncipais diferenças que nota no mundo do hóquei, quando jogava e agora? 
HH > O hóquei está muito diferente, para pior. Os clubes têm muitas dificuldades financeiras e isso não permite que façam um trabalho sustentado. O trabalho desenvolvido nas camadas jovens dos clubes é medíocre, temos o exemplo do HC Turquel, que nesta última época não conseguiu pôr ninguém nos seniores, apesar de haver agora dois regressos. Por aí se pode ver que o trabalho realizado nas camadas jovens não foi bem dirigido. Nem todos os jogadores têm de ser “super“, mas exige-se o mínimo de requisitos para estarem em competição na 1.ª Divisão.

RC > Como vê esse assunto tratado na BIR?
HH > Na BIR, à exceção dos dois novos reforços, todos os jogadores são da formação e isso é uma situação que me motiva e que de alguma forma me “intriga”. Como é que um clube com tão fracos recursos consegue ter jogadores acima da média nos seniores e outros não? Na minha opinião, alguns teriam lugar numa equipa de 1.ª Divisão.

RC > A que jogadores se refere?
HH > O David Esteves, que jogou no Sp. Tomar, é um jogador realmente muito bom. O André Ramos e o Rafael Monteiro também. Sobretudo estes três tinham lugar em qualquer equipa. Mas se calhar passaram ao lado porque nunca tiveram um treinador que lhes acrescentasse algo mais. E é aí que pecam alguns clubes. Há jogadores na 1.ª Divisão com qualidade muito inferior à deles, não tenho duvidas. 

RC > No seu entender, a situação em que se encontra o hóquei é culpa dos treinadores das camadas jovens?
HH > Esse penso que será o grande problema. A realidade que conheço dos clubes é realmente essa. Os treinadores das camadas jovens são os mais mal pagos e consequentemente os menos qualificados. E isso vai-se notando ao longo do tempo. E depois estes treinadores não conseguem dar ao hóquei aquilo que ele precisa. Hoje, cada vez mais, esses treinadores insistem num jogador executante e menos pensante. Essa maneira de ensinar está completamente falida. E isso é transversal a todos os clubes.

RC > Como ex-jogador e treinador do Alcobacense como vê a extinção da equipa sénior?
HH > Penso que essa extinção é precisamente o reflexo desta falência de ideias que há no hóquei de formação. A Alcobacense nunca foi forte na formação e isso foi uma sequência natural das coisas. Os jogadores que vinham de fora conseguiam equilibrar mais ou menos as coisas, mas à medida que o campeonato da 2.ª Divisão se tornou mais competitivo isso revelou-se insuficiente.

RC > A BIR reúne condições para não cair no mesmo erro?
HH > Nós queremos ser uma equipa diferente. São ideias que quero implementar. Na época passada, da BIR fez praticamente um passeio na 3.ª Divisão. Agora vamos tentar “morder os calcanhares” aos favoritos. Estou confiante naquilo que faço e sei que os jogadores também confiam em mim e isso é meio-caminho andado para as coisas correrem bem. Não vai haver goleadas, como no ano passado, mas vamos tentar fazer uma equipa competitiva, que jogue um hóquei inteligente e não de regra e esquadro.