Maria Augusta Trindade Ferreira em entrevista

A primeira diretora do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça ficou na história por conquistar a classificação de Património Mundial para o monumento. Após a publicação de mais uma obra sobre o mosteiro da Ordem de Cister, esta “alentejana de gema” abriu a porta da sua casa ao REGIÃO DE CISTER para contar muito do que foi a vida dedicada ao “seu” Mosteiro.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Tem 91 anos e acabou de publicar mais um livro sobre o Mosteiro de Alcobaça. O que a motiva a continuar a estudar o monumento?
Maria Augusta Trindade Ferreira (MATF) > Pretendo deixar testemunho daquilo que existe no Mosteiro de Alcobaça e que muitas pessoas podem não conhecer. Faço também um registo do que se passou durante a minha passagem pelo monumento e que possa ter interesse para a história da cidade e do Mosteiro.

RC > Continua a haver assunto para escrever sobre o Mosteiro de Alcobaça?
MATF > Não sei. Pelo menos os livros vendem-se [risos]. Não sei se é por uma questão de interesse ou de amabilidade pelos meus 91 anos. Comecei a escrever muito tarde, enquanto fui diretora do Mosteiro de Alcobaça não publiquei nada. Comecei a escrever para deixar algumas notas de coisas que sabia sobre o Mosteiro e que tinha vivido e que os outros não sabiam. Gostava imenso que houvesse pessoas que seguissem a história do Mosteiro porque tem uma história muito completa. Há muitas que escrevem sobre o monumento, mas não “viveram” lá e a vivência dá um conhecimento de pequenos factos imprescindíveis para escrever a história. Se hoje há monumento que tenha artigos de grandes escritores – e eu não sou uma grande escritora, sou apenas uma escritora – é o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.

“A abadia de Alcobaça é a que melhor representa o pensamento de S. Bernardo em toda a Europa”

 

RC > É natural de Grândola mas veio viver para Alcobaça. Como “encontrou” o Mosteiro?
MATF > Vim para cá há 68 anos e, até parece mal confessar isto, mas só fui pela primeira vez ao Mosteiro depois de 25 anos de viver na cidade. Passava pelo Mosteiro mas nunca entrei. Para ser sincera, a única coisa que gostava era a pedra da fachada e ficava encantada. Até que, pela mão de algumas pessoas de Alcobaça, finalmente visitei o monumento. E foi amor à primeira vista. Fiquei absolutamente encantada e apaixonada pela igreja, pelo despojamento. E comecei a estudar. A abadia de Alcobaça é a que melhor representa o pensamento de S. Bernardo em toda a Europa.
RC > E mais tarde torna-se a primeira diretora do Mosteiro. Como chega ao cargo e que monumento encontra?
MATF > Fui estudando o Mosteiro e interessava-me pela sua história e, por isso, fui convidada para ser diretora. Mas, naquela época e com perto de 50 anos, não tinha completado a formação superior, tive de voltar à faculdade para tirar a licenciatura em História. Fiquei no Mosteiro a convite de Raposo Magalhães para fundar um museu da Ordem de Cister, que nunca se veio a concretizar. Encontrei um monumento em que as visitas eram feitas pelos guardas que diziam os maiores disparates desta vida. Tive de acabar com isso. Estudei o Mosteiro a fundo, depois as entradas começaram a ser pagas e era preciso haver essa gestão. E nos primeiros três anos tive de fazer isso sozinha. Fazia de tudo: a contabilidade, os mapas dos quadros... foi uma época muito rica. As experiências na vida são uma grande lição. O Mosteiro foi a minha “salvação” quando morreu o meu marido. O desgosto teria sido o mesmo, mas ter o Mosteiro ajudou-me muito para superar a perda.

“[a classificação de património Mundial] significou o reconhecimento internacional para o Mosteiro que é inteiramente merecido”

 

RC > 1989 foi um ano especial para o Mosteiro de Alcobaça e para si. Como decorreu o processo de candidatura à classificação de Património Mundial?
MATF > Foi um ano de facto muito especial, mas deu muito trabalho porque o Mosteiro estava todo ocupado. Na Sala das Conclusões funcionava a repartição das Finanças, no primeiro andar era o tribunal, no outro lado era a casa de pesos e medidas, a sede da Adepa e de um partido político. Havia também a biblioteca e os escuteiros na Ala Sul. E tivemos de despejar tudo, porque senão nunca teríamos conseguido a classificação. Não compreendia por que é que o Convento de Cristo e o Mosteiro da Batalha tinham sido classificados e Alcobaça não, então avançámos. Houve alguma resistência por já haver duas abadias cistercienses na Europa com o selo da Unesco, mas não aceitei isso e, uma vez que o Mosteiro de Alcobaça é o único que tem as pendências medievais originais, considerava que tínhamos de obter a classificação. E assim foi. Tive muitos apoios, como o de José Augusto Seabra. Alcobaça já tinha feito três candidaturas e foram todas recusadas.
RC > A aprovação da candidatura da Unesco é um marco também pessoal?
MATF > Pessoalmente não significa nada, significa muito para o monumento. Ponho sempre o Mosteiro acima de mim. Significa, isso sim, o reconhecimento internacional para o Mosteiro, que é inteiramente merecido. 

“Sou abertamente contra a colocação da tenda de Carnaval em frente ao Mosteiro”

 

RC > Os 25 anos da classificação foram bem assinalados ou passaram despercebidos?
MATF > A diretora do Mosteiro [Ana Pagará] comemorou bem mas a cidade não. É triste dizer isto, mas Alcobaça nunca se interessou muito pelo mosteiro. Quando cheguei ao Mosteiro, 80% das pessoas de Alcobaça não conheciam mais do que a nave central. E só conheciam a igreja por ir lá rezar. O presidente da Câmara também foi incansável. Fez-se o que foi possível, fizeram-se conferências com alguns especialistas. Mas faltou a população e a comunidade. É um assunto difícil e posso estar a ser injusta, mas criou-se uma barreira entre o Mosteiro e a população. Mas isto vem já do século XIX e é normal. Hoje a barreira é menor mas deixa consequências.

 

“Sou abertamente contra a instalação do hotel no Mosteiro”

RC > A requalificação da envolvência do Mosteiro aproximou ou afastou os alcobacenses do monumento?
MATF > Há uma lei que impede construções a menos de 50 metros do Mosteiro e isso trouxe imensos problemas. Honestamente não gosto muito do projeto do arquiteto [Gonçalo] Byrne. Francamente penso  que é feio. Sou muito amiga do arquiteto, trabalhámos juntos, mas digo-lhe que o primeiro projeto apresentado é que gostei. Este que foi executado é muito árido. Penso que é preciso uma certa cultura para entender o projeto e muito provavelmente nem toda a gente consegue lá chegar. Os veios da praça simbolizam os canais de água... mas quem é que passa por ali e vê isso? O que se percebe é que aquilo parece um deserto. É árido demais, agora com as árvores já se está a compor. Considero que um grande passeio é bom, até para ter as esplanadas e dar vida ao centro histórico. Mas há sempre um lado bom e um lado mau. Este projeto dá mais impacto e grandeza ao Mosteiro, mas é preciso ir lá acima às torres para perceber o projeto e ter esse impacto. 
RC > Tem reservas na colocação da tenda de Carnaval em frente ao Mosteiro?
MTF > Sou abertamente contra. Consegui tirar o Carnaval e os ralis de lá, o que me criou muitas inimizades. Tudo isso passou e hoje sou amiga de todas essas pessoas. Por exemplo, na Batalha isto nunca seria permitido. A poluição é uma coisa horrível para qualquer monumento. Veja-se o caso da barreira que está a ser colocada lá. É polémica mas é necessária para a proteção do património.
RC > A colocação de uma porta de vidro na capela do Senhor dos Passos causou algum mal-estar entre a paróquia e a Direção do Mosteiro. Que comentários faz?
MTF > Sou contra a colocação da porta de vidro. E posso explicar porquê. As portas da capela são manuelinas, datadas do século XVI. Portanto, está lá uma porta que é de época e tudo aquilo tem um encanto especial. Quando fui diretora, abria a porta, puxava a cortina e as pessoas iam rezar à mesma. Admito que sou conservadora neste aspeto, mas considero que a porta de vidro quebra o ambiente e retira o encanto do espaço. Sempre foram imensas pessoas lá rezar e nunca houve problemas. Além disso, com a retirada da porta manuelina para colocar a porta de vidro iria acontecer o mesmo que já aconteceu com outras portas: ia desaparecer. Ninguém sabe das portas da Sala dos Túmulos, por exemplo, porque foram retiradas.

“Sou contra a colocação da porta de vidro (...) por quebrar com o ambiente e retirar o impacto da capela do Senhor dos Passos”

RC > Como se pode resolver este impasse?
MTF > Por princípio e por educação sou uma pessoa de consensos. Também tive tensões com o padre Siopa, enquanto fui diretora do Mosteiro de Alcobaça, mas conseguimos ultrapassar isso. Hoje em dia parece haver falta de diálogo. Não conhecia a diretora Ana Pagará, mas tenho boa impressão dela. Não temos uma relação íntima, mas é cordial e penso que ela, tal como eu fui, está a ser injustiçada. A senhora tem defeitos como toda a gente tem, como eu também tenho. A Direção do Mosteiro e a Paróquia de Alcobaça ainda não chegaram a um consenso e, depois, o pior de tudo foi a formação de vários “clãs” na cidade. Uns defendem a diretora, outros atacam-na. Sem perder a dignidade, as pessoas não sabem ter um espírito modesto de consensos. A vida é tão curta que nada disso vale a pena. E é a cultura e Alcobaça que perdem com isto.
RC > O Mosteiro de Alcobaça tem vindo, nos últimos anos, a aumentar o número de visitantes. Em seu entender, a que se deve este aumento?
MTF > Sim, é normal, faz parte de um fenómeno à escala global. O Mosteiro da Batalha continua à frente de Alcobaça, mas também sempre foi assim. Penso que isto pode ser explicado pelas estradas e pelos acessos. Os portugueses têm muito o gosto pelo gótico e o Mosteiro de Alcobaça apela menos aos portugueses do que, por exemplo, o Mosteiro da Batalha ou, melhor ainda, o Mosteiro dos Jerónimos, que é o monumento mais visitado em Portugal. Alcobaça ficou um pouco prejudicada pelos acessos a Fátima. Tínhamos muitos visitantes que iam para ou vinham de Fátima, mas atualmente, os próprios guias fazem o que lhes dá mais jeito e vão a Tomar, Óbidos e Lisboa e deixam de passar por Alcobaça.
RC > A instalação de um hotel de luxo no Mosteiro de Alcobaça faz sentido?
MTF > Penso que não. Sou abertamente contra a instalação do hotel. E, agora mais que nunca, porque se encontrou recentemente um forno e moldes de sinos. E não sei a origem desses vestígios, sou sincera. Mas valeria a pena ver os vestígios que foram encontrados, são bocados de escória dos sinos que estão atualmente colocados no Mosteiro. A história que as pedras nos contam não deveria ser esquecida.