Quando o andebol é (mesmo) para todos

Tânia ri-se. Sabe que já fez asneira, mas isso não a impede de seguir o exercício com a bola de andebol nas mãos. Só se detém quando remata à baliza. A treinadora procurou corrigi-la, mas já não foi a tempo. “Quantos passos podemos dar com a bola na mão?”, questiona Isabel Carolino, técnica do Cister Sport de Alcobaça, que há pouco mais de um ano abraçou o projeto Andebol4All, proposto pelo clube ao Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça. Tânia sabe que só pode dar três, mas os problemas físicos impedem-na de correr de forma coordenada e, por isso, de quando em vez falha o gesto técnico. Ainda assim, continua a sorrir e a tentar ser melhor jogadora. As quartas-feiras são sempre dias diferentes para o grupo de 14 clientes do Ceeria que, durante cerca de uma hora, treina afincadamente no pavilhão da Escola D. Pedro I, em Alcobaça. Os atletas ouvem as instruções dos treinadores e procuram apurar a técnica individual. Mas Isabel Carolino sabe que o processo de aprendizagem não é constante. 

“Aquilo que fazemos é andebol adaptado a pessoas com algumas limitações. No treino dos miúdos também encontramos jovens com limitações. A diferença dos outros grupos é que nunca podemos traçar objetivos. Num treino parece que eles assimilaram tudo e no outro parece que começaram do zero”, salienta a técnica, que está há 27 anos no Cister Sport e sublinha que “o importante é que eles trabalhem a motricidade”. “A competição vem depois”, considera a treinadora, que já viu de tudo nos jogos: “Desde agarrarem na bola e marcarem golo na própria baliza e festejarem até celebrarem efusivamente o golo do adversário...”

Rui Clemente acompanha Isabel Carolino nos treinos e jogos. O técnico do Ceeria salienta que “é sempre motivo de satisfação eles virem aos treinos e jogos”. “Depois temos alguns que querem dar o seu melhor e outros que têm mais dificuldades. Este grupo tem deficiência intelectual profunda e, por isso, pensar o jogo é mais complicado”, explica o monitor, notando que o grupo é muito heterogéneo. “Temos dois jogadores com 17 anos e outro com 48 anos. O principal trabalho é tentar que percebam o jogo”, frisa.

A equipa do Cister/Ceeria participa em vários torneios ao longo do ano, mas os resultados são claramente um aspeto secundário.  “Para pensar este projeto em competição terá de ser com um grupo diferente”, diz Isabel Carolino. “Este grupo tem muitas limitações e não podemos pensar em competição”, nota Isabel Carolino, focada no desenvolvimento pessoal dos 14 “atletas” que tem à disposição. E cuja vontade de aprender a modalidade é inequívoca.

“Trabalhar com estas pessoas é excelente e o melhor feedback é quando perguntam se já acabou...”, salienta a treinadora, secundada pelo adjunto. “Todas as semanas é raro alguém faltar ao treino e quando faltam é por questões de saúde ou por falta de equipamento...”, sublinha Rui Clemente. Nem era preciso essa explicação para perceber o envolvimento do grupo no trabalho. O sorriso deles diz tudo.