“Quero projetar a EPADRC numa referência nacional e internacional”

A recém-empossada diretora da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Cister (Epadrc), de Alcobaça, aborda em entrevista ao REGIÃO DE CISTER os projetos de futuro para o estabelecimento de ensino.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Tomou posse há cerca de três meses. Que balanço faz destes primeiros tempos?
PAULA MALOJO (PM) > É cedo para balanços. Tomar posse em finais de julho é complicado, porque é um período em que estamos a encerrar o ano letivo e a preparar o início do próximo. Apesar de já estar nesta escola, enquanto professora, há 11 anos, exercer um cargo diretivo nada tem a ver com o desempenho enquanto docente. As preocupações e as prioridades são completamente diferentes do que estar a dar aulas. 

RC > Suceder a João Raposeira, que esteve mais de duas décadas à frente da EPADRC, é uma responsabilidade acrescida?
PM > Sem dúvida. Foi ele que esteve na criação da escola e conhece esta realidade mais que ninguém. Não é fácil, de facto, suceder a João Raposeira. Felizmente continuo e continuamos a contar com ele, sendo atualmente o coordenador do Conselho Técnico-Agrícola. Ele continua a fazer parte da escola e facilitou-nos muito a transição de direções.

RC > O que a fez concorrer ao cargo?
PM > Vários condicionalismos: o primeiro é que João Raposeira decidiu que não ia continuar. Parecia então natural para todos ser eu a avançar. Além disso, tenho formação em Administração Escolar exigida pela lei. Por outro lado, parecia imperioso que alguém de dentro se candidatasse para evitar que viesse alguém que não conhecia a realidade da escola, nem deste território. Claro que contou também a crença de que o ensino profissional faz toda a diferença na formação dos jovens e na sua qualificação, acreditando que uma estreita relação entre a escola e o tecido empresarial deve ser reforçado devendo a escola corresponder às necessidades do mercado de trabalho.

“Tem de se perceber que os alunos que procuram uma via profissionalizante procuram-na porque têm um determinado perfil e objetivo. O ensino profissional tem como objetivo qualificar técnicos de qualidade e com qualidade”

RC > A EPADRC é uma escola que tem vindo a alterar a sua forma de estar no ensino, adaptando-se às necessidades da região. Esse processo tem significado mais alunos?
PM > A aposta foi exatamente essa. Houve um momento em que os cursos profissionais agrícolas tinham pouca procura, havendo até dificuldades em constituir turmas de 1.º ano. Alargar o leque da oferta formativa para captar mais alunos foi a forma que a escola encontrou para ter mais alunos. A área da restauração foi uma escolha natural, tendo em conta a região onde nos localizamos. Foi uma aposta ganha, porque depois do aumento de alunos o número tem sido estável. Neste ano letivo temos 309 alunos matriculados, dos quais 80 nos Cursos de Educação e Formação, com equivalência ao 9.º ano, e os restantes 229 alunos divididos por oito turmas dos cursos profissionais, com equivalência ao 12.º ano. Temos 44 professores, incluindo os técnicos especializados. Tem sido um crescimento inequívoco e consolidado.

RC > O ensino profissional tem vindo a crescer de forma substancial. O País errou, no passado, quando desinvestiu neste tipo de ensino?
PM > Espero que agora se invista muito mais no ensino profissional, porque em bom rigor vai ao encontro do que alguns jovens pretendem, que é uma certificação profissional, e vai ao encontro do que o mercado de trabalho pretende, que são os técnicos intermédios. Na área agrícola temos dia sim, dia não empresários a procurar-nos, a dizer que precisam de técnicos intermédios. As empresas locais absorvem os técnicos que vamos formando, na área agrícola a empregabilidade é de 100%. Também há cada vez mais alunos que, felizmente, prosseguem os estudos superiores. Na área da restauração a taxa de empregabilidade também é alta e as empresas precisam deste tipo de qualificação. Os cursos profissionais são absolutamente fundamentais para os jovens, que não querem seguir estudos e que querem o ingresso no mercado de trabalho mais cedo, e para o tecido empresarial, que precisa muito destas qualificações.  
RC > A componente prática dos cursos de restauração também passa por “servir” a comunidade em eventos. Qual tem sido o feedback?
PM > Servir a comunidade é uma forma de mostrar o nosso trabalho e a excelente formação que aqui é feita. Mas é impossível responder positivamente a todas as solitações. O nosso critério é proporcionar diferentes experiências de formação aos alunos e, por isso, selecionamos os eventos que correspondem a esse objetivo.    

RC > Para quando o restaurante de aplicação?
PM > Estamos a tratar disso. O objetivo não pode ser nunca fazer concorrência com os restaurantes locais. É um restaurante de aplicação que tem como objetivo dar a oportunidade aos formandos de uma vez por semana, criar uma situação real de trabalho. Será uma refeição aberta ao público, no máximo de 20 pessoas. Na área agrícola, onde temos uma área total de 30 hectares, também temos tentado criar situações reais, como foi o caso do pomar plantado no ano passado. O mesmo acontece com o vinho, cuja produção é feita pelos alunos, com o acompanhamento do enólogo. Não é por acaso também que temos suiniculturas e que integramos o projeto do Porco Malhado de Alcobaça. Há sempre uma sintonia entre as necessidades de mercado e a oferta formativa da escola. A horticultura é feita em estufa e fora dela e estamos a pensar na possibilidade de ter uma experiência de hidroponia. Temos também as culturas arvenses, que passam pelas pastagens. Tentamos diversificar ao máximo, tendo em conta aquilo que do ponto de vista agrícola é a grande referência da região para ir ao encontro das necessidades de qualificações que os empresários locais precisam.

“As empresas locais absorvem os técnicos que vamos formando, na área agrícola a empregabilidade é de 100%”

 

RC > Que investimentos são necessários para ter a escola que idealiza?
PM > Infelizmente a escola tem poucas receitas próprias e mesmo essas têm de entrar no orçamento de Estado. A minha grande prioridade e preocupação ao longo do mandato tem a ver com as instalações físicas. É o nosso grande ponto fraco, temos vários edifícios num estado de degradação que me preocupam. Estamos a delinear estratégias para tentar colmatar algumas situações e espero ter a colaboração quer das entidades locais, quer do Ministério da Educação, para esse efeito. Há edifícios que estão fechados porque degradados e há aulas a decorrer em contentores, que também representam um grande encargo financeiro para a escola. Estas instalações eram de uma quinta e por essa razão não foram concebidas para instalações escolares, portanto todos os nossos edifícios são adaptados à sua real utilização.

RC > Durante a sua tomada de posse falou no desejo em projetar a escolar nacional e internacionalmente...
PM > Sim, felizmente a escola localmente já tem muito reconhecimento. A grande aposta agora é projetar a escola, muito para além do local e regional, é projetá-la como escola de referência a nível nacional e internacional. Quero que os nossos alunos tivessem experiências com o ensino agrícola e de restauração além fronteiras. Estou a pensar no ERASMUS. Conseguir proporcionar aos alunos experiências diferentes e fazer intercâmbio de alunos é muito importante, abre horizontes e oportunidades de mercado de trabalho. Há ainda sempre outro objetivo por trás de todos os outros que é acabar com o estigma do ensino profissional. A EPADRC sempre foi vista como a escola recurso, como se fosse um depósito, para “enviar“ alunos que não tinham sucesso nos cursos científico-humanísticos. Davam problemas e por isso eram direcionados para os cursos profissionais. Tem de se perceber que os alunos que procuram uma via profissionalizante procuram-na porque têm um determinado perfil e objetivo. O ensino profissional tem como objetivo qualificar técnicos de qualidade e com qualidade. O ensino profissional não é uma mera resposta para casos de insucesso. 

RC > Foi deputada do PSD, está afastada em definitivo da política?
PM > Costumo dizer que do ponto de vista da política ativa estou numa espécie de licença sabática, mas é impossível não me manter como observadora atenta do que vai acontecendo.   

RC > Foi um período marcante?
PM > Foi um período que me afastou do ensino durante nove anos. Nove anos da nossa vida têm obviamente um grande peso. A política faz, obviamente, parte de mim. Foi um período que me ajudou e continua a ajudar nos cargos de gestão. Estive três anos na Câmara Municipal de Bragança, como chefe de divisão, outros três como chefe de divisão da Divisão Distrital da Viação em Bragança e depois três no Parlamento. O Parlamento é uma boa experiência, dá-nos a dimensão nacional dos problemas. Embora o condicionalismo partidário seja grande, vemos o trabalho parlamentar do lado de dentro e percebemos a sua importância. Ainda que a imagem dos políticas hoje em dia seja muito negativa, o Parlamento é o garante da democracia. 

“Adotei Alcobaça e sinto-me francamente alcobacense. Ainda que os alcobacenses sejam os primeiros a falar mal de Alcobaça, sinto-me bem acolhida”

RC > Como veio parar a Alcobaça?
PM > Foi uma decisão familiar. Já havia uma ligação familiar com Alcobaça, era onde vinha passar férias. Mas houve alguma ingenuidade na minha vinda tão cedo para Alcobaça há já 12 anos. Quando comprei a casa em Alcobaça a ideia era ser uma casa de férias e só mudar para a cidade mais tarde. Sem experiência no concurso de professores, acabei por concorrer para testar o meu posicionamento na lista de graduação e quase acidentalmente fui parar à Nazaré. Entrei na Escola Amadeu Gaudêncio e estive lá um ano e depois pela primeira vez abriu uma vaga de quadro na EPADRC porque não havia quadro e foi assim que entrei nesta escola. Adotei Alcobaça e sinto-me francamente alcobacense. Ainda que os alcobacenses sejam os primeiros a falar mal de Alcobaça, sinto-me bem acolhida. 

RC > Integrar a equipa de professores voluntários na Usalcoa ajudou na integração?
PM > A minha ida para a Usalcoa foi logo no ano em que vim para Alcobaça. Li a notícia que ia ser criada uma universidade sénior e pensei que tinha de ir ter com eles porque antes de vir para cá, tinha criado em Bragança uma universidade sénior. Acredito muito nestes projetos. Estive muitos anos com uma turma de história da literatura, mas como tenho alunas que estão comigo desde o 1.º ano, sentiam que já tinham feito a licenciatura, o mestrado e o doutoramento naquela matéria. Daí que agora seja responsável pelo Clube da Leitura, mas na Usalcoa já lecionei Português e Francês. À sexta-feira dedico uma hora à Usalcoa. Ainda pensei em sair este ano porque seria complicado conciliar tudo, mas não consegui virar costas.