Rogério Raimundo (CDU/Alcobaça) em entrevista

Rogério Raimundo volta a protagonizar a candidatura da CDU à Câmara de Alcobaça. Aos 66 anos, garante ter vitalidade para desempenhar funções como autarca e acredita que, perante o cenário eleitoral no concelho, a coligação pode, desta vez, ambicionar a vitória nas próximas autárquicas, por se considerar a única alternativa consistente às sucessivas maiorias do PSD.

Autárquicas'17: Entrevista ao candidato da CDU... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > É mais uma vez cabeça de lista pela CDU. Considera-se um “dinossauro” da política local em Alcobaça? 
ROGÉRIO RAIMUNDO (RR) > Tenho a sensação de ser o mais velho em idade e o mais novo em projetos, ideias e energia. Ainda na última reunião notei que quer do lado do PSD e do CDS-PP se pensa pequeno, nomeadamente no que diz respeito à negociação com o Estado e o parceiro privado que vai gerir o hotel no Mosteiro. Em quase todas as situações em que é necessário decidir estrategicamente para o concelho e para a região notamos que Paulo Inácio e a alternativa Carlos Bonifácio pensam pequeno. A experiência é sempre útil e ao longo dos anos fomos capazes de conseguir estabelecer consensos com as populações sobre a pequena obra, mas também sobre a grande obra, em nome da CDU. Sinto-me com grande energia. Recentemente fui avô e sinto-me cada vez mais jovem...

RC > Mas não teme um certo cansaço do eleitorado?
RR > É normal que assim seja, mas o eleitorado tem de estar atento, se quiser tomar uma opção válida entre o projeto do passado, que é o do PSD e que o CDS-PP interpreta de uma forma estranha, e um projeto de futuro. O passado de Carlos Bonifácio fala por si. Ele esteve presente numa série de decisões danosas que vão contribuir muito para os orçamentos dos próximos anos. Seja na compra de água em alta, no saneamento, nos centros escolares ele poderia ter agido de outra forma. E a CDU alertou sempre para esses erros. Nós temos de provar que somos capazes, que temos energia e que somos, efetivamente, a alternativa. 

RC > E quais são as linhas mestras da candidatura da CDU?
RR > Elas praticamente mantêm-se em relação a 2013, porque o PSD não concretizou quase nenhuma. O plano estratégico que foi possível de consensualizar entre todos os partidos está praticamente parado, mas só realizámos três reuniões descentralizadas. A maioria dos alcobacenses não conhece esse plano. A grande medida que a CDU tem reivindicado é uma nova forma de governar. A Câmara tem de ser capaz de envolver os cidadãos. Quando dizemos que PSD e CDS-PP pensam pequeno damos como exemplo a obra do hotel de luxo no Mosteiro. Trata-se de um investimento privado e avizinha-se uma despesa do município e dos munícipes que deveria pertencer ao Estado ou ao concessionário. O Estado é o proprietário do Mosteiro e de vários espaços circundantes e a Câmara é que vai resolver acessibilidades ao hotel? Há anos que entendemos que é necessário reclamar ao mais alto nível a realização de obras no Mosteiro e nos acessos. Outro exemplo: o Jardim do Obelisco. O CDS-PP quer que esteja aberto gratuitamente ao público e o PSD reivindica que os alcobacenses paguem metade dos custos da abertura. A CDU defende o interesse municipal e não alinhamos nisso. Já como defendemos o interesse municipal no processo da parceria público-privada para os centros escolares e no contrato de aquisição da água em alta.

RC > Qual é a solução preconizada pela CDU para resolver o impasse dos centros escolares?
RR > A CDU sempre disse que a única possibilidade de resolver o problema era na Assembleia da República, com uma solução política nacional. E quando houve a proposta da CDU no Parlamento, o PSD absteve-se, o PS e o CDS-PP votaram contra. Nós estamos do lado da solução, mas o que notamos é que os partidos a nível local e nacional estão a tornar este assunto ainda mais pesado do ponto de vista financeiro para o município de Alcobaça. Sem a alteração legislativa não há solução para este problema. E depois fazer uma boa negociação com a CGD. Por um erro cometido no passado perdemos 85% de financiamento para os centros escolares. Foi das decisões mais gravosas da história do concelho de Alcobaça. 

RC > A CDU já esteve à beira de eleger dois vereadores. É possível voltar a crescer eleitoralmente?
RR > Acreditamos que temos condições para vencer a Câmara. A perspetiva é esta: PSD e CDS-PP vão dividir o eleitorado respetivo, o PS deu tiros nos pés como nunca e, portanto, o voto útil é na CDU. A CDU é aliada dos munícipes de Alcobaça. Temos a experiência, as medidas para o conjunto de freguesias do concelho, outra forma de governar e, por isso, parece-nos que a escolha na CDU é clara. Vamos concorrer para ganhar. Se o povo de Alcobaça nos der essa força, tenho a certeza que pode contar connosco.

RC > Mas nas últimas eleições, com Vanda Furtado Marques, a CDU desceu...
RR > Se analisarmos, os melhores resultados da CDU sucederam quando não houve candidaturas do BE e movimentos de independentes. Penso que a candidata Vanda fez um excelente trabalho e que tivemos um resultado razoável, mas esperávamos mais. Acreditamos que com o reforço que vamos fazer na equipa, quer para a Câmara, Assembleia Municipal e nas freguesias, as pessoas nos possam dar a confiança e daí tirarmos um bom resultado.

RC > O processo de substituição de Vanda Furtado Marques no executivo, a meio do mandato, foi bem explicado? Chegou a suscitar polémica...
RR > Preferíamos que ela tivesse terminado o mandato, mas ela optou por sair, invocando motivos pessoais. Explicámos o processo num comunicado que foi público. Gostava de ter continuado a dar-lhe o apoio para as funções de vereadora, mas já passaram dois anos. É uma situação que está ultrapassada e agora o objetivo é renovar os quadros.

RC > Como é que classifica os dois mandatos de Paulo Inácio à frente da Câmara?
RR > Não há nada de que dê marca aos mandatos de Paulo Inácio. O facto de ele, por força da lei, ser obrigado a poupar e a reduzir a dívida não é mérito dele. Foram resultado de medidas governamentais. Há até processos que foram travados por ele, como a negociação com a Raimundo e Maia por causa dos armazéns da Rua D. Pedro V. A Cova da Onça continua sem ser desenvolvida. A ALE da Benedita ainda não está feita. A Quinta da Cela, que era uma das promessas do PSD para um hospital do Oeste/Norte, está com mato. As Zonas Industriais de Pataias e Martingança também não foram concretizadas... De facto, avançou com o Parque Verde, que vai ser um cantinho bom do concelho, mas só estará pronto em 2018. Há obras no 2020 que podem ser importantes para o concelho, mas apenas daqui a três ou quatro anos. Nem os problemas dos centros escolares foram resolvidos.

RC > Viabilizou o Relatório e Contas de 2015 do município com a abstenção e imediatamente se falou de uma “geringonça” entre PSD e CDU. Como comenta essa acusação?
RR > A verdade vem sempre ao de cima. Estivemos numa posição isolada em relação aos outros partidos durante parte do mandato, votando contra propostas do PSD. Mas de forma consciente decidimos pela abstenção nesse relatório, porque havia a promessa de efetivar algumas promessas por parte do PSD. Infelizmente, não se cumpriram todas. Recordo que apenas se fizeram três reuniões descentralizadas e que o incentivo à natalidade só agora está em vigor. A criação da renda apoiada só foi criada mais tarde. Havia, por isso, um conjunto de medidas que entendíamos ser positivas e daí a opção pela abstenção. Em 2017 estamos a ver a concretização de apoios às instituições na aquisição de equipamentos e isso é um sinal positivo. Mas não votámos a favor. A CDU absteve-se porque houve ganhos para as instituições, coletividades e pessoas. Mas no último relatório e contas votámos contra. E porquê? Porque se voltou à má prática do passado e os documentos foram entregues em cima da hora da votação.

RC > A CDU defende a reversão da reforma administrativa que criou as uniões de freguesias. De que forma pretende conseguir que o concelho volte a ter 17 freguesias?
RR > Quem acompanhou o processo no Parlamento sabe que o PS rejeitou a proposta de lei que previa a reversão da agregação das freguesias. O PS diz que só na próxima legislatura aceita rever o processo. Mais uma vez, fizemos o nosso papel, que é defender que as freguesias que estejam descontentes com a agregação possa haver uma reversão do processo da reforma administrativa. Em Aljubarrota o processo foi pacífico, mas noutras freguesias há descontentamento, até porque as populações não foram ouvidas.