O Círculo Imperfeito

Chiqueda: Subsídios

“Diz-se que os bois conheciam tão bem o caminho entre o estaleiro e a pedreira de Chiqueda que só eram precisos homens para carregar e descarregar os carros”. Embora esta observação seja da centúria de setecentos ela refere claramente o contributo da região de Chiqueda como infraestrutura do mosteiro definitivo.

Das jazidas do sopé da Serra dos Candeeiros junto ao curso do rio de “Chiqueda”, o hoje denominado Alcoa veio por certo a pedra necessária para a construção do edifício monástico que a partir de 1178 os cistercienses começaram a construir na confluência dos rios que correm no vale da herdade de Alcobaça. Instalados em Chiqueda daí dominavam a ligação entre as margens do rio, exploravam a pedreira, cortavam a madeira e criaram as primeiras granjas.

A doação deste território data oficialmente de 8 de Abril de 1153 da era de Cristo, 1191 da era de Cesar. Desconhece-se o original deste documento que manifesta o desejo de D. Afonso Henriques e sua “mulher e companheira” a rainha Dona Mafalda em entregar a D. Bernardo abade perpétuo do mosteiro de Claraval na Borgonha a herdade de Alcobaça. Este documento cópia selada, os sigilógrafos não consideram haver selos pendentes senão com D. Sancho I não descreve sabe-se lá porque o mar interior neste caso a lagoa da Pederneira, mas assegura a existência de vários lugares.

Em 1135 Afonso Henriques terá iniciado a partir de Coimbra um lento avanço militar para sul do Mondego, em direção ao Tejo. Conquista Leiria e depois em 1147 Santarém a 15 de Março e 7 meses depois a 23 de Outubro Lisboa, que era território da taifa de Badajoz.

Em 1135 Afonso Henriques terá iniciado a partir de Coimbra um lento avanço militar para sul do Mondego, em direção ao Tejo. Conquista Leiria e depois em 1147 Santarém a 15 de Março e 7 meses depois a 23 de Outubro Lisboa, que era território da taifa de Badajoz. Pedro Barbosa afirma que a conquista da cidade de Lisboa “foi o único êxito palpável desse desastre que seria a segunda cruzada”. Santarém, Lisboa, Sintra, e no regresso Óbidos e Alfeizerão. D. Framondo e Alcobaça em 1148 caem em mãos cristãs. Em definitivo caberá propor aqui a ideia de que este território fosse pouco islamizado e que o edificado tardo visigótico de S. Gião pode ter a ver com este. Do lado de Castela Almeria e Tortosa deixam o Andaluz os reis cristãos souberam aproveitar a fraqueza política e militar da administração moura e ocupam novos espaços a caminho do sul. A “fronteira” do rio Tejo era agora cristã, perdendo os muçulmanos o apolo portuário das cidades conquistadas sobretudo Lisboa. Este sim era o obstáculo sério a um eventual regresso mouro. No espaço de um ano os muçulmanos perderam o controlo agrícola dos campos de santarém o rendozo comércio lisboeta e o importante porto almirante da sua frota comercial e de saque.

Afonso Henriques controlava agora a estrada Lisboa Coimbra de forma definitiva. Provavelmente quando o rei conquista para sempre Leiria em 1142 terá maduramente pensado na concretização de 1147 e a haver êxito na forma de povoar o território entre Leiria e Óbidos a ocidente da Serra de Aire e Candeeiros.

É nestas circunstâncias que a história e a lenda se cruzam sobretudo na promessa do rei ao abade de Claraval se por fim conquistasse a cidade de Santarém aos “infiéis”, e a forma como a partir da serra a lança fendeu o ar cravando-se junto ao rio em Chiqueda legitimando a marca do cumprimento da promessa política.

Cavaleiros, frades e anjos misturam-se circulando por entre os moradores que praticam a lavoura dos novos senhores ao longo das margens do rio de águas translucidas que lhes garante o cultivo da terra. Instalam-se os monges em Chiqueda naturalmente ainda antes da composição da carta de doação e muito antes da eventual confirmação de Bernardo de Claraval que morrerá cinco meses depois do seu envia pelo rei.

Tudo indica que os monges franceses, isso nos diz José Mattoso, se terão instalado em S. João de Tarouca após 1141.

Convirá sublinhar que no inicio da década de noventa do séc. XII S. João de Tarouca tem a produzir dezasseis granjas. Situação que de acordo com a documentação disponível só acontecerá com a reforma da herdade de Alcobaça, como demonstra Pedro Barbosa, em 1227.
São 26 as primeiras partilhas da herdade denominadas granjas orientadas por irmãos conversos e que naturalmente terão começado a ser agricultadas ainda com o cenóbio em Chiqueda. A partir do mosteiro provisório e, para jusante, vão sendo organizadas as explorações agrícolas com a produção mais adequada á terra disponível conquanto muita seja comum as diversas granjas. Em 1164 morre o primeiro abade vitalício de Alcobaça havendo ainda que considerar mais seis abades dirigentes até que, o oitavo, D. Pedro Gonçalves seja o primeiro do novo mosteiro, em 1223, aí eleito na nova sala capitular. Entre meados do séc. XII José Mattoso diz-nos que “os cistercienses vivem em condições de grande pureza e austeridade, indiferentes aos valores correntes do mundo senhorial, às condições de abundância ou vantagens do exercício do poder”.

A 6 de Julho, em Coz teremos a sessão de abertura do II Congresso Internacional Mosteiros Cisterciences. Entre as 18 e as 20 horas seria bom ver público interessado conjuntamente com os mais de sessenta congressistas vindos de vários pontos da Europa se aproximassem das múltiplas vertentes da cultura cisterciense.