Amar e sorrir

Degraus da vida

Apeteceu-me dizer que o teu sofá é frio. Calei-me. Frio é também o meu, por vezes. Afinal o teu sofá, João Paulo, é quente. Macio. O coração quando sente, tudo aquece. 

As palavras foram saindo. Os minutos, dos grandes, nem passaram. Ou melhor passaram, mas não quis saber. Talvez, nem tu, João Paulo, por minutos, tenhas sentido que vives ali naquele degrau de rua, de um belo edifício da baixa lisboeta. Será que estás nas fotografias do mundo? Daqueles que passam e tiram. Ao edifício, talvez, não a ti… Perdoa-me, mas não consigo ter pena. A pena é pólvora, corrói, como bem sabes. Prefiro gostar de ti, de te ouvir, de pensar que estás bem, desde o dia em que passei. A “fotografia” que tirei, com o olhar, ainda hoje a guardo.

Ali estás tu, na minha fotografia, na cama-sofá, com o livro ao peito. Quando passei não liguei nada ao belo imóvel que olha para o Tejo, de manhã até à noite. Já o admirei outras. Só não tropecei, porque já sei com quantos passos se fazem algumas das ruas de Lisboa. Por isso, olhei para trás para confirmar que tinhas luz, que chega de um poste, para conseguires ler.

Há dias tive vontade de te conhecer. Trocámos palavras, envergonhadas. Hoje estou aqui com o livro que gostas. Policiais. Interessante este teu gosto. Não é de todo o meu. Mas gosto de livros. De ler. Por isso, também gosto, de alguma maneira dos teus, João Paulo. E, talvez, de os ler. 

Quando rasgaste o embrulho, ainda com papel decorado com árvores de Natal, apercebi-me de quantas vezes passei sem estares. O frio e a chuva afastaram-te do teu sofá. Os dias quentes trouxeram-te. E a mim também com o papel de embrulho gasto pelas tentativas de te ver. Abriste o teu coração. E eu levei-te o mais bonito do meu, os meus filhos, para que sintam que o respeito e o amor vive dentro e fora de portas.

Agora, passo. Passamos.