Arco da Memória

Edifícios com história: Chalé da Fiação e Tecidos à Rua do Castelo

O Chalé foi construído em 1912 para residência do diretor da Fábrica de Fiação e Tecidos de Alcobaça, à data Fernando Alípio e Sá. Mas teremos de voltar alguns anos atrás para perceber como tudo nasceu.

É no século XIX que Araújo Guimarães (um jovem empreendedor que tinha ganho fortuna no Brasil) se “apaixona” por Alcobaça e põe em prática o projeto de aproveitar a força dos rios para mover uma indústria de fiação.

A partir de então Alcobaça e Porto ficam ligados pela Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça, que tinha como impulsionadores, entre outros, um alcobacense no Porto (A. Grilo) e um vimaranense em Alcobaça (A. Guimarães).

Desde 1874 que a Companhia esteve no centro de diversos processos de desenvolvimento que conferiram ao concelho importância a nível local e nacional. Foi o sustento de muitas famílias que direta e/ou indiretamente viveram do trabalho desenvolvido naquela unidade fabril, que chegou a empregar cerca de 2 mil pessoas. Mas deixando a fábrica e voltando ao chalé da Fiação, há que referir que em 1915 o Presidente da República Teófilo Braga esteve alojado neste palacete quando se deslocou a Alcobaça para inaugurar a Exposição Pomológica. Trata-se de um edifício de planta quadrangular, marcado por um torreão e por uma estrutura com cobertura em escamas. A decoração dos frisos azulejares e a traça das cantarias ligavam este edifício à Arte Nova.

Veio a funcionar neste edifício o Externato Alcobacense, mais conhecido por Colégio do Dr. Cabrita

Em 1949 a Companhia de Fiação e Tecidos coloca na imprensa local um anúncio para arrendar o imóvel. E tempos mais tarde veio a funcionar neste edifício o Externato Alcobacense, mais conhecido por Colégio do Dr. Cabrita. Fui dos privilegiados jovens que estudei no “Edifício” da Rua do Castelo. Havia duas maneiras de chegar ao “Colégio”. Ou subindo pela Rua do Castelo ou indo pelas “Escadinhas da Aliceira”. Fosse qual fosse o trajeto quando estávamos com o Colégio à vista não havia misturas. Os rapazes seguiam pelo lado direito e as raparigas pelo lado esquerdo. Quem se esquecia das “normas de acesso” era rapidamente chamado ao bom caminho! Andei por lá quatro anos com direito a algumas “dores de barriga” e enjoos nas viagens que se faziam a Leiria para os exames do 5.º ano no Liceu Rodrigues Lobo. Aferia-se o trabalho do “Colégio do Dr. Cabrita” fora de casa…

Em março de 1970 a imprensa local noticia a aquisição pela Câmara Municipal do Externato Alcobacense. E a Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça aluga o palacete da Rua do Castelo ao CEERIA pela renda mensal de 2.300$00 em 1977. Devido à falência da Companhia em dezembro de 1988, o CEERIA adquiriu o imóvel.

Ironias do destino. Em miúdo andei a estudar no Externato Alcobacense. Homem feito acompanhei, na qualidade de elemento da direção, o presidente do CEERIA José Ferreira Belo, também antigo aluno dos tempos do Dr. Cabrita, para a concretização em Lisboa do negócio da compra do antigo Palacete da Fiação para o CEERIA que, como é sabido, é o Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça, sem fins lucrativos, que foi constituído a 3 de dezembro de 1976. As voltas que o Mundo dá.

Um século e alguns anos depois da sua construção como casa apalaçada para residência do diretor da Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça é sede do CEERIA, lugar de inclusão. E falar de inclusão é falar de democratizar os diferentes espaços para aqueles que não possuem acesso direto a eles. As voltas que o Mundo deu.