Arco da Memória

Edifícios com história: Palacete Araújo Guimarães

Começou por ser uma residência de família, depois uma fábrica de produtos alimentares e, no passado recente, Biblioteca Municipal. A arquitetura e inspiração desta residência oitocentista, construída em 1870-1872 muito ao estilo do Brasil, tem a ver com um anterior período de emigração de seu proprietário Araújo Guimarães, que regressou de terras de Santa Cruz com disponibilidades financeiras para fazer boa vizinhança com o palacete de Bernardino Lopes de Oliveira, de quem era amigo e com quem estabelecera laços familiares após casamento com a irmã deste, D. Luísa Lopes de Oliveira.
Araújo de Guimarães desempenhou um papel importante no desenvolvimento industrial local, sendo o seu contributo máximo a Fábrica de Fiação e Tecidos de Alcobaça.

A história do edifício está também intimamente associado a Júlio Biel, um engenheiro alemão que veio para Alcobaça para proceder à instalação da eletricidade da vila e que acabaria por casar com D. Lídia Araújo Guimarães, filha do primeiro proprietário.

No final da Grande Guerra de 1914-1918, os bens dos alemães seriam expropriados e assim, o palacete que pertencia agora ao casal Biel por herança foi vendido em hasta pública à sociedade composta por José Magalhães, Elias Matos Branco e Carlos Campeão.

É durante este período que o edifício é adaptado a unidade fabril, incluindo a construção em anexos duma central hidroelétrica dotada de uma turbina hidráulica com motor diesel e chaminé. Em 1920 dá-se a constituição da sociedade Carlos Campeão e Cª, fundada por Carlos Pereira Campeão, um farmacêutico local. Em 1921, tendo por gerentes Carlos Campeão e Emílio Raposo Magalhães, a nova sociedade recebe a designação “Carlos Campeão Lda” e no ano seguinte inicia a comercialização de farinha da marca Cister, bem como a produção de licores e conservas de frutas. Em 1932, a empresa obtém nova denominação social, passando designar-se por Alimentícia, nome que lhe granjeou prestígio regional e nacional. Contudo, entre 1939 e 1945 há uma significativa diminuição de toda a produção face à quebra da procura, devido à crise mundial associada à II Guerra Mundial. Em 1950, a instalação de maquinaria mais moderna, adaptada ao incremento da produção de leite condensado e rebuçados fomenta uma nova era de sucesso industrial e comercial. A fábrica da Alimentícia produz agora como primeiro artigo a farinha láctea da marca Cister, de que fui consumidor nos meus tempos de menino e moço.

Edifício recebeu diversas utilizações fabris, nomeadamente a Alimentícia, que produziu compotas, frutas cristalizadas, licores e ginjas e fechou as portas em 1985

Posteriormente a Alimentícia produz compotas, frutas cristalizadas, licores e ginjas. Mas não há bem que sempre dure e em 1985 dá-se o encerramento da unidade fabril, permanecendo encerrada até a sua aquisição pela autarquia para mais tarde incorporar a Biblioteca Municipal.

A aquisição e reabilitação definitiva do edifício da antiga “Fábrica da Alimentícia” pela autarquia daria origem a que a 23 de novembro de 2001 fosse possível finalmente a instalação da Biblioteca Municipal de Alcobaça neste belo espaço implantado em plena zona histórica da cidade e na confluência dos rios Alcoa e Baça. Mais recentemente, entre 2008 e 2009, a sua envolvente beneficiaria igualmente de um projeto de requalificação urbanística a cargo dos Arquitetos Byrne e Falcão de Campos que compreendeu toda a área traseira da Biblioteca Municipal, recuperando uma zona degradada e criando o “Jardim do Amor” no centro da cidade. O espaço requalificado permitiu recuperar igualmente o espaço da central elétrica que mantém a maquinaria industrial mas que não se encontra em funcionamento.

Há portanto muita história acumulada neste edifício situado junto ao local de encontro dos rios Alcoa e Baça