Arco da Memória

Edifícios com história: Palacete Oriol Pena

Iniciamos mais um capítulo de “memórias” respeitantes a Alcobaça. Não faltam “edifícios com história” e é “por aí” que iremos “andar”, tendo em atenção as diversas fases da vida em que esses edifícios, de alguma maneira, nos marcaram.

A casa dos meus avós e dos meus pais era “vizinha” da “Quinta da Gafa” e vou começar pelo Palacete Oriol Pena, que desde há muitos anos é sede do município. Pensando nos leitores mais novos começo por referir que a Quinta da Gafa é uma designação que vem dos finais do século XIX e que na atualidade não é praticamente utilizada. Teve depois a designação de Parque Municipal, embora continuasse a ser conhecida pela Gafa, nome que provém da presença de uma gafaria em tempos passados. Esta tese de antiga gafaria não é partilhada por alguns historiadores.

O seu aproveitamento urbano começa no final da década de 1940 com a transferência da Câmara Municipal, do edifício do Mosteiro para a casa do antigo proprietário (Palacete da Família Oriol Pena). No entanto, essa ocupação só se afirma definitivamente a partir de 1962 com a construção de vários prédios de habitação e equipamento coletivo dos quais se destaca o mercado, o parque de campismo e o campo de futebol.

Mas é no Palacete e na sua história que nos vamos fixar. Foi mandado construir em 1890 por Francisco Oriol Pena ao gosto burguês com sabor romântico, assim como outras casas designadas por “Casas dos brasileiros”, porque os proprietários, enriquecidos no Brasil, trouxeram um gosto de lá importado. A inclinação das águas dos telhados denuncia essa influência, dado ser superior à necessária para o clima português.

O palacete da família Oriol Pena é provavelmente da traça de Gerard Wan Kricken, que foi um arquiteto holandês radicado em Portugal.

O palacete da família Oriol Pena é provavelmente da traça de Gerard Wan Kricken, que foi um arquiteto holandês radicado em Portugal. Foi nomeado para Chaves em 1889 e transferido para Leiria dois anos mais tarde. Teria sido nesta fase que esteve envolvido no projeto da família Oriol Pena.

Curiosamente tenho uma “memória”, que faz parte do meu livro da Família Reis, que refere que nos seus telhados fortemente inclinados teria trabalhado o meu bisavô Abílio Reis, que foi um hábil carpinteiro. Nasceu em 1852 e portanto na data referida como início da construção teria cerca de 40 anos.

Saltando no tempo, é a 20 de setembro de 1931 que a Câmara Municipal de Alcobaça compra a Quinta da Gafa, onde se inclui o Palacete, por 670 mil escudos aos herdeiros de Francisco Oriol Pena. Era ao tempo presidente da Câmara Manuel da Silva Carolino, que ocupou a presidência desde o movimento de 28 de Maio de 1926 até ao final da 2.ª Grande Guerra. 

Terminou os seus dias tragicamente, tendo posto fim à vida a 12 de junho de 1945. Contava 51 anos de idade.

Dos seus quase 20 anos de poder ficaram para a história não só a aquisição da Quinta da Gafa, mas também a polémica decisão do corte das árvores do Rossio no ano de 1930. 

A 22 de abril de 1932 o engenheiro Miguel Jacobetty é incumbido, pela Câmara Municipal de Alcobaça, de efetuar uma planta geral da Quinta da Gafa. E em junho desse mesmo ano  que são efetuadas as escrituras que oficializam a compra da Quinta Gafa aos herdeiros de Francisco Oriol Pena. 

Em 1948 é adaptado a Paços do Concelho e no ano seguinte, em 1949, voltaram a realizar-se obras de beneficiação no edifício. Em 1951 já se encontram instalados no Palacete, além da Câmara Municipal de Alcobaça, os Serviços Municipalizados, o Posto de Turismo e o Posto da Polícia. Em 1960 têm lugar obras de recuperação e pintura do palacete. E mais de meio século depois mantém-se historicamente “velhinho” mas em pé como sede do poder local. É, a partir desta data, o número 1 dos “nossos” edifícios com história.