Opinião

Mosteiro de Alcobaça e Comunidade: Juntos há 840 anos

No Ano Europeu do Património Cultural, interessa repensar a relação entre o Mosteiro de Alcobaça e a comunidade local. O turismo é uma das indicações mais válidas acerca da eficácia da atribuição do estatuto de Património da Humanidade, pela UNESCO, ao Mosteiro de Alcobaça; em média, ao longo do ano, afluem ao monumento largas centenas de visitantes, por dia; provenientes, maioritariamente, da esfera internacional. Não obstante esta realidade, a relação entre o Mosteiro e a comunidade local não pode nem deve ser desvalorizada; constitui um intercâmbio positivo para ambas as partes. Não tenhamos dúvidas, o Mosteiro também é património da comunidade. 

Importa saber que a forte identidade da comunidade em relação ao monumento está firmada na História. Ao longo do tempo, ainda durante o período da presença monástica, o muro da cerca do Mosteiro foi recuando. O espaço urbano, nascido em torno do edifício, aproximou-se do complexo cenobítico. Em 1538, a própria comunidade cisterciense autoriza que os fregueses ouçam missa paroquial na igreja do Mosteiro. Para o efeito, foi erguido um altar fora das grades que delimitavam o perímetro da exclusividade monástica. Esta solução mantivera-se como alternativa até que, em finais do século XVI, o cardeal infante D. Henrique mandou construir uma nova igreja paroquial. A mesma foi edificada no interior da Abadia, na área situada entre a igreja monástica e as reais hospedarias, conhecida, hoje, por sala dos reis. Após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, foram instalados nos espaços do Mosteiro alguns serviços públicos e associações culturais. Também no antigo refeitório dos monges funcionou o teatro municipal, onde permanecera até à segunda década do século XX. Em tempos mais recentes, na década de 1970, o ensino preparatório e a biblioteca municipal funcionaram na ala sul do monumento. Deste modo, uma percentagem da população do concelho que, nesse tempo, estava em idade escolar, mantém vivas as memórias da convivência com o antigo espaço monástico. Também a igreja abacial foi, desde cedo, convertida em igreja matriz. Portanto, a relação entre o monumento e a cidade é marcada pela proximidade física, e pela vivência do espaço por sucessivas gerações.

Verificamos que o processo histórico identifica a génese do vínculo afectivo da comunidade em relação ao monumento. O Mosteiro constitui o elemento identitário e congregador da comunidade local. O orgulho pelo monumento é um sentimento que aglutina as gerações. Por consequência, esquecer ou não promover a estreita relação do Mosteiro com a comunidade constitui uma acção anti-histórica que destrói a coesão entre as partes. Ora, se vivemos num tempo global em que a educação não formal e informal assume importância decisiva; o Mosteiro, enquanto Alto Lugar da Memória Cisterciense no território, deve promover uma acção dinâmica, transversal, prospectiva, inclusiva e integradora, com forte carácter educador. Uma acção pautada pela relação cordial e salutar com a comunidade. Evidentemente, a falta de capacidade de diálogo e de comunicação, a ausência da prática de bom senso, a inaptidão para estabelecer consensos no terreno e mitigar possíveis discórdias, bem como o desenvolvimento de iniciativas em circuito fechado, constituem focos geradores de conflitualidade entre o Mosteiro e a comunidade. Em bom rigor, referimos procedimentos que não são motivadores nem promotores do envolvimento activo das comunidades nos projectos em torno do património. Urge então questionar: esta realidade é benéfica à função educadora, cultural e social do monumento? É profícua à vital coesão da tríade: monumento, município e comunidades? É favorável à captação e à fidelização de novos públicos provenientes das comunidades local, regional e até nacional? É propícia à promoção de projectos e instrumentos de desenvolvimento territorial assentes numa perspectiva de sustentabilidade?

O Mosteiro de Alcobaça, enquanto pilar estruturante da identidade coletiva e da coesão territorial, não pode estar de costas voltadas para a cidade e para a comunidade local

Interessa compreender que o Mosteiro de Alcobaça, enquanto pilar estruturante da identidade coletiva e da coesão territorial, não pode estar de costas voltadas para a cidade e para a comunidade local. Por isso, em pleno Ano Europeu do Património Cultural, parece-nos urgente repensar a relação do monumento com a comunidade. Aliás, a importância desta relação está consagrada nas convenções internacionais sobre salvaguarda, conservação e valorização do Património Cultural.

Em suma, é necessário honrar o ideário de São Bernardo de Claraval promovendo-se no Mosteiro, e na sua relação com a comunidade, a “Cultura da Paz”, da equidade e da boa convivência – revogando-se a esfera de hostilidade vigente. Afinal, são valores tão proclamados pelo grande mentor da Ordem de Cister.