Apontamentos sobre saúde mental

…o que é de calígula

A maldição do inconspícuo. É neste terreno, basto de incertezas cegas, que se movem a saúde e a doença mentais. Certamente, seria mais simples discorrer sobre a necessidade de tratamento de uma perna, pendendo da sua coxa por meio de um frágil fio de carne, após um violento acidente automóvel. O óbvio magoa menos o observador, porque o surpreendente fraqueja perante as evidências. Todos concordaríamos em levaraquela pessoa ao cuidado médico e todos partilharíamos a urgência em fazê-lo. É menos notório, porém, que os acidentes violentos acontecem, como certas partículas, independemente do espaço, e que este espaço, aberto e exposto para a física do corpo, é fechado e inalcançável para as tarefas da mente. Os acidentes também acontecem na cabeça. Lá dentro. Eis, então, que acontece a doença mental, como um acidente, como um acidente íntimo. Acontece, porém, que o íntimo, fervoroso bastião da individualidade, é também uma região solitária e inóspita. Com a dose certa de acaso, pode mesmo tornar-se no mais insanável dos exílios.E é-o, particularmente, quando o que lhe pertence parece perder-se na tradução para a linguagem comum. Como se acenasse adeus a um mundo que avança, o doente mental permanece estacado numa estranheza mórbida que não consegue dizer exactamente onde está. O que em si desaparece fá-lo desaparecer da realidade partilhada de todos, porque os acidentes discretos convidam ao abandono. E tudo isto é fundamental, porque, ao contrário dos outros, os acidentes que não se vêem exigem maior cuidado ao olhar.

Pela dificuldade que ainda sobeja na sua compreensão, o editor deste jornal e eu concordámos que seria interessante motivar a atenção dos leitores para o que não se vê. Assim, mensalmente, exporei, neste espaço, aspectos relacionados com a saúde mental e com a psiquiatria

Felizmente, o reconhecimento do impacto da doença mental, em primeiro lugar, no individuo, e, depois, nas sociedades, tem vindo a aumentar. Esta noção é também,provavelmente, resultado do esforço que a psiquiatria vem envidando no sentido de ocupar o seu lugar legítimo como disciplina médica, afastando-se de conceitos sortílegos e misteriosos.Com o seu nome apenas em 1808, a psiquiatria é um ramorecente do campo médico e, como tal, tem apresentado diversas faces, quepodem ser vistas como dores de crescimento. Todavia, apesar de se manter uma área controversa pela natureza do seu objecto, a mente humana, é consensual que a psiquiatriase alicerçou em bases científicas suficientemente sólidas para estabelecer uma prática com proveitos de saúde e afastar concepções deletérias sobre a doença mental, sejam elas as excessivamente românticas sejam elas as excessivamente catastróficas. 

Não obstante, por afectar a nossa experiência enquanto seres humanos, por dizer respeito ao coração do somos e de como nos vemos, a doença mental não pode nunca ser desvalorizada. Por isso, pela dificuldade que ainda sobeja na sua compreensão, o editor deste jornal e eu concordámos que seria interessante motivar a atenção dos leitores para o que não se vê. Assim, mensalmente, exporei, neste espaço, aspectos relacionados com a saúde mental e com a psiquiatria, que podem ser efemérides, desmistificar certo imaginário ou simplesmente episódios curiosos. No fundo, pequenas crónicas que possam contribuir para melhor compreender a saúde e a doença mentais.