Arco da Memória

Os portos de mar dos Coutos de Alcobaça

São Martinho do Porto foi um dos portos de mar dos Coutos de Alcobaça, tendo sido doada à Ordem de Cister em 1153, por D. Afonso Henriques. Foi no reinado de El-Rei D. Afonso III, em junho de 1257, que Frei Estêvão Martins, 12.º abade do convento de Alcobaça, concedeu o primeiro foral a São Martinho do Porto. Ainda existe, junto ao sopé do Monte de Santa Ana, as ruínas de um arsenal onde foram construídas, com madeira do pinhal de Leiria, as caravelas que participaram nas descobertas e conquistas, nos reinados de D. Afonso V e D. João II. Provavelmente, também aqui, foram construídos os navios que levaram D. Sebastião a Alcácer-Quibir. O porto de São Martinho gozou assim de uma grande fama. Em 1495 foi atribuído a São Martinho do Porto um segundo foral, pelo abade Cardeal D. Afonso. Posteriormente, no dia 1 de outubro de 1518, o rei D. Manuel I concede novo foral à vila de São Martinho do Porto. Além das terras de São Martinho, a vila abrangia também os Casais do Bom Jesus, Venda Nova, Jagos, Vale do Paraíso e Charneca. É nesta altura que passa a ser sede de concelho. 

A zona central de São Martinho do Porto conserva características da antiga vila piscatória, nas suas casas térreas e nos arruamentos estreitos

Os séculos XVI e XVII representam o período áureo da vila, como porto comercial e centro de construção naval. Em 1741, El-Rei D. João V fomenta a divisão das terras de São Martinho do Porto. Em 1750 El-Rei D. José e o seu Marquês de Pombal proíbem as descargas de lastros dentro do porto e procuram salvá-lo da ruína. Em 1828 El-Rei D. Miguel promove o lançamento da 1.ª pedra do Cais. Em 1854 El-Rei D. Pedro V, por decreto de 24 de outubro, suprime o concelho de São Martinho do Porto, passando o território a integrar o concelho de Alcobaça. Em 1895, a freguesia passa a fazer parte do concelho de Caldas da Rainha, passando posteriormente, em 1898, a integrar novamente no concelho de Alcobaça, ao qual pertence atualmente. 

A zona central de São Martinho do Porto conserva características da antiga vila piscatória, nas suas casas térreas e nos arruamentos estreitos. Patrimonialmente, destaca-se a Capela de Santo António, um curioso exemplar de arquitetura religiosa, de cariz popular e intenção votiva, sobre um morro, sobranceiro ao mar, a norte da entrada da baía. 

A segunda metade do século XIX é uma nova fase de prosperidade económica de São Martinho. Em 1862 está concluída a linha de caminho de ferro de tração animal entre Marinha Grande e São Martinho do Porto. Os finais do século XIX e os princípios do século XX viriam, no entanto, a definir toda uma ambiência sociológica, urbanística e arquitetónica, que confere a esta terra o seu cunho muito especial — sobrevivência de uma estância de veraneio da transição do século, com toda uma exibição dos sinais exteriores de poder económico e cultural de uma classe média em ascensão, em grande medida filha do fontismo oitocentista. As infraestruturas coletivas desenvolvem-se e com elas novos edifícios públicos e privados que seguem frequentemente a regra do revivalismo, além de expressões decorativas “arte nova” e do neo-tradicionalismo da “casa portuguesa”. São Martinho do Porto é assim um interessante exemplo de urbanismo de veraneio, de inspiração fontista em escala reduzida e de um certo cosmopolitismo de estância balnear “belle-époque”.

Foi reelevada à categoria de vila por decisão da Assembleia da República, em 13 de julho de 1990.

Em 9 maio de 2009, foi inaugurada a requalificação da sua Avenida Marginal e envolvente, após a despoluição da baía. Em relação ao porto de mar dos Coutos de Alcobaça, doado à Ordem de Cister em 1153 por D. Afonso Henriques, tinham passado 856 anos! Faz tempo.