Edifícios com história

Solar da família Nascimento e Sousa

Inserido na malha urbana de Alcobaça, confrontando com a Capela de Nossa Senhora da Conceição e praticamente na margem do Rio Alcoa, este imóvel apresenta características arquitetónicas que permitem situar a sua construção pela segunda metade do século XVIII, estando classificado como “edifício de interesse municipal”. Há algumas décadas foi intervencionado, alterando-se, então, alguns espaços originais, como as cavalariças, a adega, o celeiro e um grande forno setecentista que ainda se preserva. É um dos poucos solares de raiz rural que se conservam na cidade, concebido para habitação de uma importante família local, que congregava corpo residencial e áreas de apoio às atividades agrícolas.

A fachada principal denota influências do período pombalino e é de dois andares. O portal de acesso ao interior é de arco abatido e encontra-se ladeado por pequena janela retangular e porta extrema de lintel reto. No segundo piso, esta disposição repete-se, dando os portais lugar a janelas de sacada protegidas por varandim de ferro. A fachada lateral repete a organização em dois andares.

No interior destacam-se as obras de património integrado, nomeadamente revestimentos azulejares barrocos e restos de pintura mural num dos salões. Na origem, a propriedade era fechada por cerca que limitava o espaço dedicado às atividades de apoio à lavoura. Hoje, esse conjunto está transformado em jardim, organizado a partir de um tanque e pontuado por áleas e pérgulas.

Não sou capaz de evitar uma nota pessoal, pois foi com ajuda do médico José Nascimento e Sousa que vim ao mundo numa manhã dos primeiros dias de abril de 1940 em casa dos meus pais.

Nascido em Alcobaça, o Dr. José Nascimento e Sousa dedicou grande parte da sua vida à medicina, em que se licenciara em Coimbra. A sua identificação com o Estado Novo levou-o, em 1942, a assumir a presidência da Comissão Concelhia de Alcobaça da União Nacional e, quatro anos mais tarde, à presidência da Câmara Municipal. Viria a falecer em 1960.

Recordo-o como médico que nos visitava quando estávamos doentes. Só era preciso chamá-lo a primeira vez. As visitas seguintes eram sempre por sua iniciativa. Muitos anos mais tarde convivi com o seu filho António Nascimento e Sousa, que foi médico radiologista em Alcobaça. Devido à guerra do Ultramar foi mobilizado para a Guiné, já com 30 e muitos anos, tendo prestado serviço como capitão-médico no HM-241 em Bissau no período de 1968 a 1970.

António Nascimento e Sousa, que nasceu em 1929 e faleceu em 2009, foi vítima das inúmeras radiações que sofreu ao longo da sua vida profissional. Nos últimos meses da sua longa doença, quando se perguntava pela sua saúde, dizia que tinha mais radiações dentro de si de que uma central atómica.

Despedi-me dele já muito doente na Rua Dr. Brilhante numas curtas férias que fez em Alcobaça antes de voltar ao Hospital de Lisboa para se despedir da vida. Não esqueço a coragem com que enfrentou esses tempos difíceis e a história com que remato este texto sobre o seu avô paterno, António Nascimento Borda, que nos tempos conturbados da Alcobaça revolucionária (1920) foi alvo de uma tentativa de assassinato por elementos da Carbonária. Na ocasião, foram disparados dois tiros a uma janela da casa onde vivia. Escapou ileso, mas fez questão de deixar os dois buracos de bala na portada da janela. Para memória futura, que aqui se recorda.