Letras
A biblioteca alcobacense escondida no Chiado
Diana Vicente

Enquanto gere o seu negócio, Bernardo Trindade, proprietário da Livraria Campos Trindade, alfarrabista no Chiado, vai construindo também a sua biblioteca dedicada a Alcobaça, iniciada pelo pai Tarcísio Trindade.

22 Abril, 2019

A biblioteca alcobacense escondida no Chiado

Desce-se a Rua do Alecrim, entre a Baixa-Chiado e o Cais do Sodré, e à esquerda, numa montra com livros antigos e vários pares de óculos antigos pendurados, encontramos a Livraria Campos Trindade.

A porta convida a entrar e, mal se entra, somos invadidos pelo aroma peculiar a livros antigos: uma mescla do cheiro a pó, já entranhado nos objetos de vida longa, e o cheiro particular de páginas usadas. Também o próprio espaço dá um toque requintado: o grande candelabro impõe-se e conduz o olhar para os arcos da abóbada. Ao fundo da sala uma poltrona convida a leitura e um espelho com altura e moldura de um roupeiro. Coleções de livros – muitas a parecerem enciclopédias –, gravuras, fotografias, discos de vinil, reservas de vinho, que Bernardo Trindade, o proprietário, reúne para venda variadas antiguidades.

Mais abaixo estão dois espaços destinados a livros antigos naquela rua, mas, segundo o responsável, a sua é a mais antiga: está aberta desde 1976. Embora localizada em plena capital, as suas origens remetem para Alcobaça. Bernardo herdou a livraria do pai, Tarcísio Trindade, que em 1976 deixou a terra de paixão com a família. O filho do livreiro passou a sua adolescência rodeado de livros: no final das aulas ia para a livraria e começou a tomar-lhe o gosto. Tirou um curso de História, mas continuou sempre a aprender com os livros. Ficou à frente da livraria quando a doença do pai não permitiu que este continuasse a exercer a sua função. Aliás, no site da livraria está publicada uma homenagem que Bernardo conseguiu fazer ao pai ainda em vida.

Foi o antigo presidente da Câmara de Alcobaça que lhe ensinou a profissão. De livro a livro, por casas e bibliotecas, Bernardo continua a pesquisa por livros antigos, estuda-os e recupera-os para a venda – podem faltar páginas ou pode ser preciso encadernar. Além disso, o livreiro tem especial atenção aos compradores: tenta certificar-se de que cada livro é entregue a alguém que o estime e lhe dê o seu devido valor.

O espaço esteve em risco de fechar com a subida das rendas em Lisboa, mas Trindade conseguiu negociar com o senhorio e chegar a bom porto. Embora seja uma livraria conceituada, lamenta que os tempos sejam diferentes. No tempo do seu pai faziam-se tertúlias, almoços de discussão, eventos com escritores e nomes da sociedade portuguesa. Hoje não se faz metade do que se fazia.

Mas o que os seus clientes não sabem é que, por detrás do habitual trabalho de livreiro, Bernardo Trindade vai aumentando a biblioteca privada do pai, apenas sobre Alcobaça. Desde gravuras, a fotografias e livros. A sua aquisição mais recente foi um livro que data do século XVI, acerca de S. Bernardo, oferecido a Frei Pedro de Rio Maior, abade do Mosteiro de Alcobaça. Na verdade, Alcobaça nunca lhes saiu do sangue. Ainda na sua juventude vinha à terra aos fins de semana e nunca perdeu o contacto com os seus melhores amigos, também alcobacenses. Bernardo tem o sonho de um dia voltar com a família e de abrir um Centro de Estudos Alcobacenses e Cistercienses, onde a sua pesquisa e a do pai possam continuar e crescer. Diz o ditado que “quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar”. Neste caso, pode dizer-se que quem sai de Alcobaça não passa sem lá querer voltar.

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