Onde passear
Da Nazaré para o mundo, do mundo para a Nazaré
Sara Vieira

Uma das praias mais típicas do País tornou-se, nos últimos anos, uma das mais conhecidas do mundo, por causa das ondas da Praia do Norte

06 Agosto, 2020

Da Nazaré para o mundo, do mundo para a Nazaré

Começar pelo Sítio pode ser o início de uma paixão à primeira vista pela Nazaré. É no ponto mais alto da vila que é possível contemplar toda a beleza do extenso areal, o casario multicolor e a envolvência e os sons das gaivotas. Diz a lenda que foi ali que a Senhora da Nazaré salvou D. Fuas, alcaide do castelo de Porto de Mós, de cair no precipício. Assim nasceu uma das mais importantes romarias religiosas desde a Idade Média e também por isso que ali foi mandado erigir o primeiro santuário mariano da Península Ibérica.

Espreite o Bico da Memória, o local onde – supostamente – se encontra a marca de uma das patas do cavalo de D. Fuas Roupinho. É também ali que existe um padrão que assinala a presença no local de Vasco da Gama, que antes da sua viagem rumo à Índia teria vindo à Nazaré pedir protecção a Nossa Senhora. No Sítio, é obrigatória ainda a visita à Igreja de Nossa Senhora da Nazaré e à Ermida da Memória – esta última também conhecida por Capela de Nossa Senhora da Nazaré ou Capelinha do Sítio. Para se entreter a caminho do Forte de S. Miguel de Arcanjo, conhecido localmente por Farol da Nazaré, compre uns frutos secos às chamadas "pevideiras" - já são poucas as que vestem as 7 saias - que estão na praça ou se preferir saboreie um bowl na campervan do Zulla - com sorte ainda pode ser atendido pela campeã mundial de bodyboard, Teresa Almeida. 

Quando chegar à Praia do Norte, especialmente se o tempo estiver pouco convidativo, não se espante por ver surfistas de nível mundial a arriscarem a vida a tentar surfar as ondas gigantes causadas pelo Canhão da Nazaré e que, na última década, divulgou a vila à escala global e fez renascer o turismo na vila.

Depois da visita ao Forte de S. Miguel Arcanjo, pode, se o tempo o permitir, descer as escadas e aproximar-se da Pedra do Guilhim e, depois, aproveite para conhecer o Forno da Orca, uma gruta peculiar, com uma abertura que lhe permite tirar fotografias que vão obter muitos "likes" junto dos seus seguidores...

Conhecidos os principais pontos do Sítio, dirija-se para a Praia através da Ladeira (se o quiser fazer a pé) ou pelo Ascensor (um funicular inaugurado em 1889) e aproveite para se deliciar com as ruas da vila, que têm a particularidade de (quase todas) serem perpendiculares ao mar. Em meados do século XX, esta particularidade arquitetónica chegou a ser alvo de estudos de universidades, por ser algo de pouco comum, mas estas características únicas perderam-se com o tempo, devido ao crescimento urbanístico desenfreado. Ainda assim, passeie pelas esquininhas, ouça as nazarenas a falar nas ruas e sinta os cheiros dos fogareiros dos restaurantes e dos habitantes locais, preparando verdadeiras iguarias.

No areal, não se esqueça do chamado "canto das pedras", quando o mar encontra o promontório na zona norte da praia. Se tiver tempo, alugue uma barraca e desfrute do sol. Se a viagem for mais rápida e o estômago convidar, conheça um dos muitos restaurantes da vila, com propostas, literalmente, para todos os gostos. Se a ideia for apreciar algo mais ligeiro, também pode optar por casas típicas onde se pode deliciar com pratos de berbigão e outros tesouros oriundos deste mar. E se, na verdadeira aceção do termo, gosta de petiscos, então compre uns carapaus secos no "estindarte", onde as nazarenas ainda hoje se dedicam à arte da secagem do pescado.

A marginal da Nazaré tem muitos aspetos de interesse, desde logo pela extensão, mas também pela singularidade do seu paredão, um "muro" de proteção das investidas do mar que só foi construído com recurso aos descontos da venda do pescado por parte dos pescadores. Inaugurado em 1929, já foi alvo de algumas melhorias, mas continua a garantir a segurança das pessoas. Quando foi erigido, o objetivo era, também, o de permitir o refúgio das embarcações da vila durante os meses de inverno, quando os homens do mar não podem ir à faina. O Porto de Abrigo, visível ao fundo da praia, só chegou no início da década de 1980, tendo, para tal, sido necessário mudar o curso da foz do rio Alcôa.

 

 

A não perder:

  • Subida ao monte: Se é um apreciador de espaços verdes, conheça o Parque da Pedralva, a caminho da Pederneira, onde se encontram as origens do concelho, nomeadamente junto à antiga Casa da Câmara. Ali também pode ver o pelourinho. Nesta rota, siga para o Monte de São Bartolomeu, ou o chamado São Brás. No cume, a 156 metros de altitude, com acesso por um caminho de escadas, pode vislumbar uma área que vai da serra ao mar. E também uma pequena capela, constituída por uma pequena nave central, um altar-mor e uma sacristia. A 3 de fevereiro, cumprindo uma tradição antiga, os nazarenos deslocam-se ao monte para dar o arranque oficial do Carnaval e comer enchidos. Não é feriado municipal, porque essa data está reservada para 8 de setembro, mas é quase;
  • "Estindarte" do peixe seco: Observe de perto o processo de secagem do peixe, nomeadamente carapaus, sardinhas, marmotas (que aqui se chamam batuques) ou polvos, pode ser um momento de espetáculo gratuito no chamado Museu Vivo do Peixe Seco. O "estindarte" é um ponto de paragem obrigatório. Aproveite para tirar fotografias singulares;
  • Nazaré: Apreciar a vila da Nazaré através dos vários miradouros no Sítio e na Pederneira. Visita obrigatória ao Farol e às ruas estreitas da vila. Almoce num dos restaurantes com vista para o mar 
  • Valado dos Frades: Visitar a Quinta do Campo, uma das primeiras granjas agrícolas do Mosteiro de Alcobaça, e a Lagoa de Valado dos Frades. Aprecie a estação de Caminhos de Ferro de Valado dos Frades
  • Famalicão: Faça um desvio para visitar a Igreja de São Gião e aventure-se num passeio pela Serra da Pescaria, apreciando a praia do Salgado e vários moinhos
     

Da Pederneira à Nazaré


O concelho da Nazaré é relativamente recente, mas este território tem séculos de história e está intimamente ligado à presença dos monges brancos de Cister na região, mas há monumentos, nomeadamente a igreja visigótica de São Gião, que indiciam a ocupação destas terras desde o século VII. O edifício está a ser recuperado e é só mais um dos locais de interesse que deve conhecer.A antiga Lagoa da Pederneira foi um dos portos mais importantes na época dos descobrimentos, tendo dali saído muita madeira do pinhal de Leiria que foi utilizada para a construção das naus e caravelas que deram novos mundos ao mundo. E até Vasco da Gama veio pedir a bênção a Nossa Senhora da Nazaré antes de avançar na epopeia da descoberta do caminho marítimo para a Índia...

No Sítio, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré remonta ao século XV, enquanto o Hospital da Confraria, instalado em 1878, foi uma das mais importantes maternidades do distrito até à decada de 1980. Mesmo ao lado surge, imponente, o Teatro Chaby Pinheiro, projetado por Ernesto Korrodi e datado de 1908, é uma autêntica "pérola" arquitetónica e cultural.

Mas o concelho não se resume à Nazaré e em Valado dos Frades, onde se encontra uma das mais importantes estações de caminho de ferro da Linha do Oeste, encontra-se a Quinta do Campo, criada no século... XII.

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