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Dança: do contacto à distância
Inês Monteiro

Um ano depois do início do primeiro confinamento, quais foram os desafios e as soluções na prática da dança? Falámos com alunos e professores, e também com amadores, para saber o que mudou na vida de quem dança.

13 Abril, 2021

Dança: do contacto à distância

Há um ano estávamos a experienciar o primeiro confinamento e as estruturas de dança, das profissionais às amadoras, assim como os conservatórios, tiveram que lidar com as restrições impostas pela pandemia. 

 

Fomos saber quais os desafios e quais as soluções encontradas para a prática da dança no último ano e escutámos alunos e professores da Academia de Dança de Alcobaça (ADA) e a bailarina freelancer Diana Pinto  para perceber o impacto da pandemia nos percursos académicos e profissionais, e ainda a presidente da Associação Folclórica da Região de Leiria – Alta Estremadura (AFRLAE), Ana Rita Leitão, para conhecer o impacto da pandemia na dança folclórica. 

 

 

Dançar a sós 

 

No ensino da dança, o que mudou no primeiro instante? O ensino presencial foi substituído pelo ensino à distância e as aulas passaram a ser online. 

 

Diana Pinto, que leciona dança contemporânea e ballet, estilos que necessitam do contacto físico e/ou, no caso do contemporâneo, contacto com o chão, optou por estimular o  desenvolvimento de trabalhos de exploração criativa individual, que não necessitam de contacto físico, “através de desafios lançados a nível criativo e de exploração coreográfica ou bibliográfica”, recorda. 

 

Na transição para o digital, Rita Abreu, diretora pedagógica e professora da ADA, confessa que a forma como ensinam sofreu grandes alterações, pois “a dança é uma forma de arte que além das condições muito específicas do espaço de sala de aula (estúdio com caixa de ar, linóleo, espelhos, barras...) necessita também de uma proximidade na correção.”

 

Ambas concordam que dançar com distanciamento cria limitações tanto a nível da criatividade, como do espaço e da execução dos bailarinos, o que obriga  a que as aulas sejam mais simples. 

Naturalmente, também a interação e a dinâmica foram afetadas, apontam Catarina Ribeiro e Tomás Fernandes, alunos da ADA que partilham da opinião que “a falta de toque, que é tão importante na dança, dificultou a dinâmica nas aulas de certas disciplinas como os Repertórios e a Composição”. 

 

Tomás, que é aluno do 8º grau, lembra ainda que “tudo o que é duetos, trios, grupais, tornou-se impossível.” Por sua vez, Catarina, aluna do 6.º grau, refere que o que custou mais foi o facto de não poderem fazer espetáculos com público presencial e a impossibilidade de partilhar o palco com os colegas. 

 

Quando o passo digital significa um passo atrás

 

Ensinar dança à distância, manter o interesse e atenção dos alunos, garantir uma boa ligação à internet e criar as melhores condições do espaço onde ensaiam (onde além da falta de espaço existe também a questão do chão sem caixa de ar e em alguns casos de pedra ou mosaico) são algumas das dificuldades enumeradas pelas duas professoras.

 

As soluções criadas por Diana Pinto passaram por propor trabalhos em que as alunas façam um uso do que lhes é familiar, incentivar à exploração, englobar a família, utilizar diferentes espaços da casa e manter um regular contacto e acompanhamento das alunas e encarregados de educação. Ainda assim, muitas das alunas abandonaram as aulas por falta de interesse, de espaço em casa, ou até mesmo por falta de capacidade económica para continuar a suportar este tipo de atividades.

 

Quer Diana, quer Rita, mostraram ainda especial preocupação com a adoção de determinados vícios por parte dos alunos, difíceis de detetar e corrigir. “A nível técnico é impossível manter o ritmo de aprendizagem habitual no ensino presencial”, afirma Rita Abreu. 

 

As soluções encontradas pela ADA passaram por sensibilizar os alunos para a necessidade de encontrar, dentro da sua casa, o melhor local para fazer as aulas. A nível técnico, adaptaram os exercícios que são possíveis de adaptar a todas as condicionantes.

 

Para os alunos Tomás e Catarina, as aulas online limitam a criatividade e o desempenho artístico. Apesar de todas as soluções encontradas, Rita Abreu afirma não ser possível uma virtualização da dança. Já Diana Pinto, Catarina Ribeiro e Tomás Fernandes parecem concordar que esta solução é possível, mas mais difícil. 

 

Outras danças, a mesma sede de palco 

 

Nem só de contemporaneidade vive a dança e, neste contexto de pandemia, também as danças tradicionais e o folclore sofreram com a distância. A grande maioria dos grupos folclóricos deixou mesmo de se juntar para ensaiar, sobretudo, porque a maioria dos membros fazem parte dos grupos de risco da COVID-19. 

A presidente da Associação Folclórica da Região de Alta Estremadura (AFRAE), Ana Rita Leitão, lembra à BÚSSOLA que a função social de “estar em grupo” que o rancho folclórico proporciona deixou de ser possível com as restrições impostas, mas está confiante de que a falta de motivação não é um dos problemas que a pandemia trouxe, pois “nestas coisas só anda quem gosta”. 

 

Infelizmente, “os ranchos ainda não chegaram ao nível de clareza que é necessário para conseguir fazer ensaios on-line”, o que seria uma solução válida e possível se as pessoas estivessem abertas à mudança e também uma forma de controlar “a perda da transmissão de conhecimento oral e físico ” que se verificou neste hiato. 

 

Espetáculos para o ecrã somam Likes...

 

... mas parecem não satisfazer. No último ano, apesar de todas as dificuldades encontradas, foi possível realizar espetáculos de dança, alguns com público, outros apenas com transmissão online. 

 

A Academia de Dança de Alcobaça organizou em julho de 2020 a Prova de Aptidão Artística de uma aluna finalista, com alguns convidados na plateia, limite de público e distanciamento social. 

Já em dezembro, a ADA realizou o Espetáculo de Natal através de apresentações online. “O feedback foi bom, mas não é a mesma coisa", afirmou Rita Abreu. Também os alunos mostraram estar felizes por terem conseguido uma alternativa ao espetáculo presencial, desenvolvendo um espetáculo que foi gravado no Cine-Teatro local, com todas as medidas de segurança, e transmitido através das redes sociais da Academia.

Diana Pinto (na imagem abaixo) acrescenta que “o público da dança gosta de sentir o cansaço, o suor, a respiração, o corpo dos bailarinos, e isso através de um écran chega duma forma sensitiva e sensorial completamente diferente.” 

No campo do folclore, Ana Rita Leitão considera ser muito difícil a realização de espetáculos folclóricos on-line: “Os grupos estão muito fechados a uma maneira de ser e de estar”.

Ainda assim, grupos de folclore como o de Vale do Lis, o Grupo da Barreira e o Grupo Rosas do Lena, realizaram vídeos de dança para as redes sociais. Este último grupo, no primeiro confinamento, atuou no Mosteiro da Batalha, no âmbito do festival Artes à Vila (foto acima), numa atuação (a partir do minuto 53) transmitida pelas redes sociais e pela RTP Palco.   

A AFRAE aproveitou ainda este último ano para, em conjunto com o Politécnico de Leiria e o grupo musical Aire, lançar o projeto “Baile dos Pastorinhos", que procura preservar as danças tradicionais e populares portuguesas e dar formação acreditada a professores e folcloristas.

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