Eu, guloso, me confesso

Eu, guloso, me confesso
Joaquim Paulo, Jornalista

Já arrancou a 21.ª edição da Mostra Internacional de Doces & Licores Conventuais de Alcobaça, que, até domingo, transforma o Mosteiro num verdadeiro santuário dos gulosos. Eu, guloso, me confesso e agradeço aos deuses por ter nascido à beirinha desta cidade que exibe, orgulhosamente, a leveza de um pão de ló de Alfeizerão, cornucópias de tirar a respiração, pudins (do Abade ou do recente Maçã de Alcobaça) que nos fazem suspirar por mais e uma ginja M.S.R. sem paralelo com qualquer outra bebida do género. Serei o único?

Podem até dizer-me que estes doces são bombas calóricas (que modernices) e um perigo para a saúde. Como dizem os espanhóis, dá-me "igual". Obviamente respeito, e muito, aqueles que são mais comedidos ou nem sequer tocam em doces (que esquisitice), mas eu cá não sou desses. Açúcar e ovos são um mix de felicidade e, por isso, catalogo os monges e as monjas doceiras de heróis e heroínas. Que extraordinárias capacidades inventivas na cozinha tinham aqueles homens e mulheres que, mesmo sem batedeiras ou Bimbys, compilaram receitas que se perpetuaram ao longo dos séculos e que, ainda hoje, fazem tantas pessoas felizes. Como eu, claro está.

Eu, guloso, me confesso. Dia em que não coma um bolo de pastelaria é um dia um pouco menos feliz. Sábado em que vá almoçar a casa do meu pai — de quem herdei esse dom da gulodice — e não tenha para sobremesa uma torta de ovos, um pudim caseiro ou um gelado cheio de topping de morango é porque algo está, definitivamente, errado. Para que isso suceda é necessário que os diabetes do meu progenitor tenham atingido níveis altíssimos, o que o leva a não preparar esses doces durante a semana, sob pena de... os comer, e sozinho, antes do almoço de família de sábado.

Eu, guloso, me confesso e agradeço aos deuses por trabalhar diariamente em Alcobaça, um verdadeiro paraíso dos "melómanos" dos doces (será que isto existe?), perto de pastelarias maravilhosas, cheias de coisas boas para degustar (como agora se diz), mas sobretudo para me lambuzar. E agradeço a São Bernardo, porque se ele não tivesse mandado aqui construir o Mosteiro não sei se seria tão feliz... Porque eu, guloso, me confesso. E o leitor? Também guloso se confessa?

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17 Agosto, 2018
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