Palcos
A insuportável dureza do incerto
João Neves

A propósito da reabertura da Cultura após mais um confinamento, recordamos "Um festival em tempo de pandemia” projecto fotográfico baseado na realização do Cistermúsica 2020, que agora procura escrever novos capítulos. 

19 Abril, 2021

A insuportável dureza do incerto

O ser humano prospera no conforto e na estabilidade. Há até investigadores que defendem que somos uma espécie preguiçosa e carente de gratificação instantânea. Não vou tão longe, apesar de reconhecer esses traços em mim. Não vou tão longe porque o mundo não parou. Não parou com o choque pandémico. E, previsivelmente, não vai parar.

A incerteza abala qualquer estrutura e qualquer organização. Se, por natureza, já temos dificuldades em planear o futuro, ainda mais teremos quando tudo nesse futuro é incerto. É insuportável. Como é que se mantém qualquer semelhança com o “normal”? É duro. O que é que é o “normal”? É incerto. 

Por mais confusa que esta salada russa semântica possa parecer, não se compara ao emaranhar de conceitos que se atam em nós apertados com o que sentimos diariamente em reação às adversidades que se passam à nossa volta e, por vezes, se cruzam com as nossas vidas.

E quando há este peso a ancorar, dois tipos de coisas podem acontecer: extraordinárias e péssimas. Como militante confesso da ordem dos otimistas, vou focar-me no primeiro tipo.

Edificaram-se, de um dia para o outro, redes de suporte e criaram-se projetos inovadores a que acorreu um sem-fim de pessoas bem intencionadas para se colocar do lado da solução. Não é preciso procurar muito para encontrar exemplos disso. E escrevo este artigo para abordar um desses casos: um Festival em Tempos de Pandemia.

Um dos setores mais afetados por esta insuportável dureza do incerto foi a Cultura. Sem público, este setor perde um dos maiores motores para a sua existência. Mas nem por isso deixou de ser relevante. Muito pelo contrário. Também nas artes e na cultura se elaboraram soluções criativas nunca antes sequer pensadas. Nem por um segundo. Lá está, a necessidade aguça o engenho.

E quando a necessidade tem como base sustentadora a partilha de experiências, o engenho foi apenas um conjunto de soluções simples para obstáculos enormes. Foi o que aconteceu com a 28.ª edição do Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça. Na impossibilidade de trazer artistas internacionais, trouxe-se a “prata da casa” sem perder o apurado sentido artístico. Na obrigação de reduzir as lotações, apostou-se em concertos mais intimistas. Na dificuldade de planear e organizar todas as coisas, valeu a perseverança e o esforço de um grupo de pessoas.

E foi o que aconteceu, também, com o projeto “Festival em Tempos de Pandemia”, que partiu de um trabalho fotográfico da Sara Leonardo a que empresto as minhas sensações em jeito de palavras. Esta empreitada vai resultar numa exposição fotográfica e na publicação de um livro com o trabalho que esta fotógrafa realizou no backstage do Cistermúsica e com o meu contributo enquanto narrador na ótica do espetador.

© Fotografias Sara Leonardo

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