Palcos
Mundo confinado, teatro à solta
João Sousa

Em vésperas do Dia Mundial do Teatro, fomos à Marinha Grande conhecer uma companhia de teatro, constituída por seis jovens que perderam o emprego no primeiro confinamento mas que se recusaram a deitar a toalha ao chão.

27 Março, 2021

Mundo confinado, teatro à solta

Teatros encerrados e auditórios fechados. Um cenário de filme que a pandemia tornou real. Muitos dos agentes culturais foram atirados para o desemprego. Felizmente, há quem tenha conseguido fazer ovos sem omeletes, agarrando a oportunidade com garra. É o caso do “Teatro à Solta”, companhia de teatro que passamos a apresentar.

Quem anda à solta neste teatro?

Cristóvão Carvalheiro, Jaqueline Figueiredo, Eurico Santos, Tânia Catarino, Andreia Gonçalves e Susana Rodrigues uniram forças para criar uma companhia de teatro, após terem sido despedidos do grupo de teatro onde estavam. “Mais valia juntarmo-nos e fazer aquilo que já fazíamos e sabíamos fazer. Já éramos rodas dentadas de uma engrenagem e sabíamos que estava a funcionar e foi essa a nossa maneira de combater o facto de irmos para o desemprego”, conta o ator Cristóvão Carvalheiro.

Tanto os artistas, bem como a equipa técnica, tinham experiência no mundo das artes, mesmo antes da criação deste projeto. Cristóvão e Eurico tiraram o curso profissional de Interpretação na Academia Contemporânea do Espetáculo, no Porto. Tânia Catarino licenciou-se em Animação Cultural, na Escola Superior de Educação de Viseu. Jaqueline Figueiredo formou-se em Produção Cultural, no Instituto Federal do Rio de Janeiro e em Artes Dramáticas pela Escola de Artes Dramáticas Nu Espaço, também na “Cidade Maravilhosa''. À equipa artística juntaram-se duas produtoras, Susana e Andreia Rodrigues, ambas com percurso académico feito em Leiria.  

Fazer rir em tempos de pandemia

À Bússola, os atores confessaram que a adaptação foi dos maiores constrangimentos e obstáculos desta nova realidade pandémica. Falam das “imensas saudades” dos risos, das gargalhadas e de toda a interação com o público, algo que se torna bem diferente quando é transportado para o digital. “O problema das redes sociais é que os gostos não são euros e não dá para ter noção do feedback, não dá para perceber se o público está a gostar.”, confidencia Susana Rodrigues. “Num espetáculo temos as gargalhadas, temos as reações, temos os aplausos para validar o nosso trabalho. No caso das redes sociais não dá para interpretar da mesma forma a reação das pessoas”, acrescenta uma das produtoras da companhia de teatro.

O grupo dedica-se ao registo de comédia e, por isso, "é frustrante a ausência de interação com o público”, diz Susana Rodrigues, justificando-se com a falta de “noção da reação real da audiência”.

Curiosamente, um dos últimos espetáculos, “Na língua de Camões”, já foi concebido a pensar na situação pandémica, ou seja, “está construído com uma linguagem em que é inserido o ato de colocar suportes para álcool no palco, em que as personagens já assumem aquilo em cena”, conta Cristóvão Carvalheiro. Esta medida é também importante para sensibilizar as crianças para a nova realidade, propagando também a perceção das medidas de segurança implementadas.

De pequenino… 

Um dos maiores focos da companhia é a introdução das artes performativas às crianças e adolescentes, essencial para se tornarem consumidores culturais na idade adulta. “É importante levar o teatro às gerações mais jovens para estimular o pensamento crítico”, qual?

Há muitas crianças que assistem ao primeiro espetáculo nestas atuações na escola, o que acaba por ser “muito gratificante” para o grupo. “Quando as crianças conseguem prestar atenção e percebem a mensagem é uma vitória, tendo em conta que as evoluções tecnológicas tornam o nosso grau de atenção cada vez menor”, acrescenta um dos membros. A ideia é desmistificar o falacioso estigma de que o teatro é monótono: “é importante que as crianças percebam que não se trata de algo aborrecido, que não é algo somente dito em verso e que até pode ser bastante divertido e educativo”. 

A companhia tem três espetáculos, um original, denominado de “Tinta Fresca", e os outros dois são adaptações de textos lecionados aos alunos, que visam, de forma lúdica e animada, facilitar a interpretação das obras. “Não conheço ninguém que tenha dito que gostou de Lusíadas e o que fizemos foi fazer a interpretação daquele poema e colocar uma linguagem mais contemporânea, fazendo com que os miúdos consigam perceber num português mais atual e informal, toda a linha da obra de Luís de Camões”, afirma Cristóvão Carvalheiro.

Antes da pandemia, o grupo viajava de norte a sul do País. A digressão durante o ano letivo chegava, inclusive, a comunidades portuguesas no estrangeiro, em países como Suíça, Espanha, Andorra e Liechtenstein.

A arte além das grandes cidades

Em Portugal, a centralização da Cultura continua a ser uma realidade. Todos nos lembramos de pedir aos nossos pais para assinarem a autorização da visita de estudo, fritar uns croquetes e apanhar um autocarro para ir ver uma peça de teatro a Lisboa. “O facto de estarmos sediados na região tem a ver com o facto de sermos de cá e também porque queremos descentralizar algo que não tem de ser só Lisboa, Porto ou Coimbra”, explica Susana Rodrigues. 

A descentralização é, aliás, fulcral para a sobrevivência da cultura em áreas mais rurais e dos grupos de teatro mais pequenos e com um orçamento mais curto. Para a companhia, faz todo o sentido que a Marinha Grande seja o local de novos projetos e desenvolvimentos culturais relacionados ao teatro. Se a cidade tem uma Casa da Cultura e um Museu do Vidro, por que é que não podemos desenvolver um serviço educativo na cidade em que os miúdos vão de manhã ao teatro e, de tarde, ao museu?”, questiona Susana Rodrigues. 

Os grupos mais pequenos trabalham em áreas rurais, algo com que as grandes companhias nacionais não compactuariam. “Vamos a meios rurais de escolas que têm cerca de 20 miúdos. Temos de ser nós a ir às aldeias, senão aquelas crianças não vão ver teatro e nunca serão adultos que consomem teatro, nem nunca vão fazer um esforço para consumir, porque não conhecem, porque nunca lhes deram a conhecer”, acrescenta.

Impulsionar o teatro regional

Na região existem várias companhias de teatro, amadoras e profissionais, e esta oferta faz também com que as pessoas se habituem a ir mais ao teatro, deixando de parte outro estigma prevalente de que se trata de algo muito elitista. “Há muitos grupos de teatro no concelho e temos inúmeras coletividades onde pode existir um pequeno grupo de teatro que pode dar também para essa comunidade e nós queremos esse intercâmbio entre coletividades que se perdeu”, revela Cristóvão Carvalheiro.

Por muito que seja normal em várias áreas, não deve existir concorrência entre companhias de teatro, pois “se o teatro é feito de pessoas, por pessoas e para pessoas, até que ponto é que há uma verdadeira concorrência?”. Apesar de ser possível que várias companhias trabalhem a mesma peça ou o mesmo texto, o resultado final nunca será igual, pois cada grupo tem uma abordagem diferente e a emoção de cada um é única. Trata-se exatamente da mesma história, escrita pelo mesmo autor e, consoante a companhia que a trabalhe, terá registos diferentes, com sensações distintas.

À semelhança do “Teatro à Solta”, há várias companhias de teatro que dão o melhor de si pelos outros. As motivações destes seis jovens são muito nobres. Ao descentralizar a cultura para que seja acessível a toda a gente, mesmo para quem habite em zonas mais remotas e não tenha a possibilidade de se deslocar a uma metrópole para assistir a uma peça de teatro, um concerto ou declamação de poesia.

Se quiseres saber mais sobre o grupo, visita o website. Poderás saber mais sobre cada um dos membros, assim como da companhia, e ajudar a dar mais palco ao Teatro. À semelhança desta companhia filha da pandemia, há quem esteja em contagem decrescente para regressar aos palcos.

E a boa notícia é que já não falta tudo. A 19 de abril o teatro volta a estar à solta. Já compraste bilhete? 

 

© Carolina Miguel Fotografia

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