Gula
Na rota dos Doces Conventuais
Leila Gato

Quem passa por Alcobaça não fica indiferente ao maravilhoso mundo encantado das montras recheadas com um dos nossos maiores tesouros gastronómicos: a doçaria conventual

26 Novembro, 2020

Na rota dos Doces Conventuais

Desengane-se quem acha que doçaria conventual são apenas doces de uma época extinta, sendo antes o testemunho de uma identidade regional nascida das mãos de quem presta homenagem a receitas centenárias, reinventando-as e trazendo-as até nós, comuns mortais, para que as possamos degustar como quem prova uma página de História.

Privada de uma viagem a este “paraíso” dado o lastro pandémico que nos assola, tive a oportunidade de me refastelar, qual ávida comensal, com alguns dos ex-líbris dos restaurantes e pastelarias alcobacenses sem ter de sair de casa. É esse o roteiro que quero hoje partilhar convosco. Acompanham-me nesta viagem?

 

Costuma dizer-se que as refeições devem iniciar-se pela sopa. Ora bem, eu comecei pela “sopa dourada” do Restaurante António Padeiro, um doce de uma riqueza incomensurável, repleto de diferentes texturas conferidas pela amêndoa triturada cujo travo amargo reside em contraste com a doce cremosidade do açúcar e da gema de ovo. Se já tinha vontade de ir ao Restaurante António Padeiro, agora tenho uma missão de vida a curto, médio-prazo.

 

 

Da sopa, parti para a conhecida Pastelaria Alcoa, que também já assentou raízes em Lisboa, nomeadamente no Chiado e no El Corte Inglês, tendo provado quatro maravilhas requintadas, começando pela famosa cornucópia que quase que dispensa apresentações mas à qual só posso tecer rasgados elogios.

 

Provei também o “Mimo da freira”, singelo e elegante na boca, aliás a palavra “mimo” nunca me pareceu assentar tão bem a um doce e ainda a “Delícia do convento” (em destaque na foto) com noz, amêndoa, gema e fios de ovos capaz de tornar o maior dos céticos num religioso fervoroso!

 

 

Desfilou ainda na minha mesa, a “Coroa da abadessa” (na foto acima), um doce que tem na sua composição amêndoas, avelã, gemas, gila e fios de caramelo e com um significado “divino” dado que foi servido ao Papa Francisco, aquando da sua visita a Portugal. E é caso para dizer que se o Papa Francisco ficou rendido, eu faço uma pequena vénia a este sumptuoso doce. 

 

Prossegui esta viagem e rumei até ao Atelier do Doce para provar algo que me atingiu como uma verdadeira flecha certeira no meu coração. Falo-vos do “Segredo de São Bernardo”, galardoado com menção honrosa na edição de 2019 desta Mostra, e que é a combinação perfeita entre o topo com o pudim de são bernardo, sedoso que só ele, e a sua parte inferior que esconde uma receita feita à base de castanha. Um sonho! Se não conhecem, ide provar mas cuidado que pode viciar!

  

 

Para a “pausa” do café escolhi as “grades”, um doce feito pelas mãos de fada de Georgina Mirão da Pastelaria Terraço e que fazem lembrar aquele tipo de biscoito seco perfeito para qualquer momento do dia, que nos encanta pela sua configuração tão simples e ao mesmo tempo tão habilidosa.

 

E porque não há mesa de consolada sem pudim (provérbio que acabei de inventar), tive ainda direito a um pudim dos Frades do Mosteiro de Alcobaça, pela Casa dos Doces Conventuais, de textura aveludada e que leva apenas água, gemas e açúcar. Sim, isso mesmo, parece magia e foi também mágica a velocidade com que desapareceu da minha mesa.

 

 

Do Restaurante Trindade, um restaurante com mais de um século de vida, tive direito a provar as “trouxas de ovos” (na primeira foto do artigo), aquele doce nascido da combinação mágica de ovos, açúcar e água, à qual ninguém fica indiferente. De lá, provei ainda o pastel de amêndoa de Alcobaça, mais conhecido por “barrete”, e sim, o nome vem da expressão típica portuguesa “enfiar o barrete”, mas que nada tem que ver com a experiência que temos ao saboreá-lo.

 

 

Para terminar em beleza, deliciei-me com o Pão de Ló de Alfeizerão da Casa do Pão do Ló, um clássico das minhas viagens à zona Oeste conhecido pela sua cremosidade explosiva, qual vulcão em erupção de sabor. O difícil foi conseguir parar de cortar fatias como quem não tem a certeza se o mundo irá terminar nos próximos minutos!

Agora que já vos deixei com desejos de açúcar, apoiemos todos estes negócios da zona Oeste para que estas tradições vivam e continuem a deixar a sua marca na nossa história, na história dos nossos filhos, netos e nesta malha diversa e tão rica que é a cultura gastronómica portuguesa.

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N.B: Este roteiro centra-se nas casas de doces conventuais alcobacenses que podes visitar a todo o tempo, o ano inteiro, ou até encomendar pelo serviço de entregas que algumas delas dispõem. A cada mês de novembro podes ainda visitar a Mostra de Doces e Licores Conventuais de Alcobaça que se realiza há 22 anos no Mosteiro de Alcobaça, contando com dezenas de participantes nacionais e internacionais, sendo que em 2020 o evento não decorre nos moldes habituais: "Não há mostra mas há montras".   

© Fotos Leila Gato

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