Cinema/TV
Os novos pioneiros americanos
David Mariano

Crítica a “Nomadland” de Chloé Zao: um instantâneo da horda de despojados da sociedade norte-americana que vive do imersivo tour de force da atriz Frances McDormand e redunda numa espiral contemplativa e existencial

23 Abril, 2021

Os novos pioneiros americanos

Foi um dos filmes escolhidos para assinalar esta semana o regresso presencial às salas de cinema em Portugal, após mais um longo período de confinamento, chegando agora ao grande ecrã com uma vastíssima coleção de prémios e distinções no bolso que foram construindo a sua reputação mediática. “Nomadland – Sobreviver na América” venceu não só o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza como também os Globos de Ouro de Melhor Filme Dramático e de Melhor Realização. E já depois disso o BAFTA de Melhor Filme, percurso que não deverá ficar por aqui tendo em conta a meia dúzia de nomeações que obteve da Academia de Hollywood – cerimónia que decorrerá na próxima noite de 26 de abril – nas categorias de Melhor Filme, Realizador e Atriz.

Escrito, editado e realizado pela chinesa Chloé Zao, a partir do relato autobiográfico em livro de Jessica Bruder, intitulado “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century” (2017), à primeira vista pode ser lido como um retrato da troupe de nómadas desempregados saídos da decadência de inúmeras indústrias na viragem da década passada e na sequência das vagas geradas pela crise do subprime. É essa a porta de entrada para a jovem cineasta nos levar pela “odisseia” íntima da personagem interpretada por Frances McDormand: Fern, uma operária viúva e vítima da falência de uma das inúmeras cidades industriais espalhadas pelo país (ironia: Empire, Nevada) que se vê sem trabalho, sem rendimentos e sem casa, remetida à sua carrinha (carinhosamente apelidada de “Vanguard”) e à estrada, por onde parte em busca de emprego (sempre precário).

Zao procura ir fundo com a sua protagonista – o que nunca passa de uma boa intenção – pelo modo como a segue, e sobretudo como a capta, quase como uma espécie de “sonda” lançada na desolação social da paisagem norte-americana provocada pelos efeitos obscuros do sonho americano. Mergulhando no interior deste microcosmos em processo de imersão, tomando o pulso à comunidade, e sobretudo dando voz e testemunho aos seus membros, é com ela que funde o “real” e a “ficção”, não se coibindo de registar (e partilhar) o comentário crítico subjacente. Como a dada altura ouvimos, estes são os novos “pioneiros” americanos (que podiam ser igualmente uma tribo de novos “nativos”). Gente obrigada a uma subsistência sazonal e a um périplo frágil de errância com as suas caravanas. E gente que a diretora resolve colocar em primeiro plano  – outra boa intenção –, integrados na narrativa: Linda May, Swankie e Bob Wells, por exemplo, interpretam-se a si próprios.

Entre o quadro proletário e realista que, contudo, nunca chega a tomar riscos ou a definir-se como tal, a realizadora, mais do que acompanhar a sua “sonda”, talvez por dispersão ou distensão, cai com esta numa espiral de contemplação pseudo-filosófica e existencialista sobre a transitoriedade da vida e o mistério da Natureza – como que hipnotizada pela performance afetada da intérprete (algo que os Oscars tanto apreciam premiar). Tudo muito à la Mallick e não resistindo à tentação de se sublinhar pela indulgente banda sonora de Ludovico Einaudi e por longos planos de pôr-do-sol ou planícies desérticas. Um falhanço digno, apesar de tudo, para uma obra que não deixa de ter uma respiração e um ritmo raros no panorama cinematográfico atual e um desejo franco em abraçar os despojados e os esquecidos da sociedade. Olhar que tem ainda um pouco de Steinbeck e Ford, duas das figuras que melhor refletiram, no cinema e na literatura, sobre a depressão sócio-económica nos EUA (e as suas raízes) e que colaboraram na adaptação de “Vinhas da Ira” (1940).

Ainda assim, e porque de boas intenções está o inferno cheio e porque não é possível ignorar uma evidente memória da Sétima Arte neste campo, este é um falhanço que prima por um certo grau de superficialismo na abordagem ao tema, ou mais do que isso ao teor e complexidade do mesmo – vejam-se aquelas discussões iniciais e bastante estereotipadas sobre os malefícios do capitalismo selvagem que mais se assemelham a um discurso de seita retirado das redes sociais –, e que rasura, por outro lado, a comprida linhagem e tradição dentro do género do road-movie e do western que, no fundo, são o território onde escolheu mover-se e o património pelo qual responde. Como se na verdade ficasse à tona de um passado e empreendimento ao qual nunca está à altura, optando pelo posto seguro da observação distanciada e o parasitismo do compromisso de corpo inteiro da sua atriz.

 

Pontuação: ⭐⭐½ 

 

“Nomadland – Sobreviver na América” de Chloé Zao pode ser visto nas salas CinePlace de Leiria – LeiriaShopping e Caldas da Rainha – La Vie Shopping (consultar sites oficiais respetivos)

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