António Caria (CDU/Nazaré) em entrevista

O candidato da CDU à Câmara da Nazaré desfaz-se em críticas ao executivo liderado por Walter Chicharro, considerando que o sucessor de Jorge Barroso ficou aquém do esperado neste mandato. 

Autárquicas'17: Entrevista ao candidato da CDU... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > Foi um dos mais ativos deputados municipais nos últimos oito anos. A candidatura à Câmara foi a consequência natural desse processo? 
ANTÓNIO CARIA (AC) > Não sei se foi por isso que fui escolhido pelos meus camaradas, mas poderá ter sido, pois sabem que a minha forma de estar e de trabalhar nos lugares que ocupo fazem com que o trabalho seja valorizado.

RC > A CDU não elege vereadores desde a candidatura de Fernando Soares em 1982 pela APU. Como se explica a falta de implantação desta força política no concelho?
AC > É uma questão a que a população terá de responder. Provavelmente haverá alguma culpa da CDU, que não tem conseguido fazer passar a mensagem à população e também, eventualmente, as populações mostram receio de terem novas caras nos executivos municipais. Recordo-me que muitas coisas foram feitas na Nazaré quando Fernando Soares foi vereador e não temos dúvidas de que muita coisa será feita no dia em que a CDU liderar os destinos do concelho. A minha eleição fará sempre a diferença, porque trabalho coletivamente com os meus camaradas e todas as propostas são muito discutidas antes de serem apresentadas e todas elas vão ao encontro das necessidades da população. É isso que faz com que a CDU tenha um cuidado especial com os trabalhadores, mas também com os empresários, ou seja, com o povo e tudo o que envolve a gestão autárquica e não apenas com o alcatrão e as obras de fachada. Será uma mais-valia para a população ter eleitos da CDU quando a população está obrigada a pagar impostos no máximo por causa da dívida gigantesca da Câmara.

RC > Como caracteriza o mandato de Walter Chicharro. Fez melhor ou pior do que o antecessor?
AC > É difícil avaliar este mandato na perspetiva do melhor ou pior. É evidente que fez coisas melhores, algumas razoavelmente bem feitas, ao contrário de Jorge Barroso, que embora tenha tido coisas boas, teve muitas coisas más. A pior foi ter feito, após 20 anos de mandato, uma dívida que, agora, nos estrangula a todos. É evidente que qualquer partido que ganhasse a Câmara há quatro anos teria a possibilidade de fazer algo melhor do que até então. E foi o que aconteceu. Tínhamos no nosso programa eleitoral imensas coisas que foram executadas neste mandato e não podemos dizer mal delas, tal como outras que também não podemos dizer mal. Mas o que podemos dizer também é que neste executivo não há transparência. Ao contrário do que se diz, há assuntos cujo acesso está completamente fechado. Há centenas de pedidos de documentos e perguntas às quais não nos dão resposta. Se não nos dão essas respostas é porque nos escondem alguma coisa. E isso causa desconfiança, o que fez com que tivéssemos enviado dezenas de queixas para o Ministério Público. Sabemos que algumas estão a ser investigadas.

RC > Em seu entender por que razão não há essas respostas?
AC > Porque não há democracia. Eles dizem ser do PS, mas claramente não são. São um grupo de pessoas que se juntaram e que conseguiram iludir uma grande parte do eleitorado, prometendo coisas que já sabiam que não podiam cumprir. Vamos olhar para a dívida: para a CDU, a dívida aumentou em 2,1 milhões de euros! O PS não baixou a dívida em 24,5%, como diz. O PS aproveitou a alteração da lei para diminuir a dívida, porque agora o valor dos empréstimos não entra na dívida total. O executivo está a aproveitar os empréstimos que fez para parecer que está a baixar a dívida. Neste momento ninguém sabe qual é a dívida. Aliás, desafio o PS a dizer qual é o valor real da dívida. 

RC > A CDU não sabe qual é o valor real da dívida, mas como pretende reduzi-la?
AC > A CDU não sabe, como ninguém sabe. Nem o PS. A CDU sabe a dívida que está no papel. O que faremos? A primeira coisa é fazer uma auditoria, tal como o PS fez e ainda não sabemos se já pagou os 68 mil euros que custou. E depois defendemos que o aumento de receitas nos impostos seja canalizado exclusivamente para o abatimento da dívida e não para as obras de fachada e alcatroamentos a que assistimos e que seriam necessários se por baixo estivesse tudo arranjado, o que não está. Temos de baixar a dívida olhando para quem está a pagá-la, que são as populações. O aumento de mais de 6 milhões de euros no IMI tem de ser canalizado exclusivamente para a dívida, caso contrário são 6 milhões que estão a ser desbaratados.

RC > Há possibilidade de baixar os impostos no concelho?
AC > Sempre fomos contra o PAEL, dissemos que ele nunca viria para a Nazaré nos termos em que foi apresentado e o tempo deu-nos razão. Agora vem outro programa e não há possibilidade de baixar impostos enquanto não chegarmos ao equilíbrio estrutural financeiro. A única coisa que podemos fazer é baixar o valor de transportes urbanos e água para as pessoas de baixo rendimento e reformas baixas. Essa é uma promessa. Vamos querer dar mais rendimento às pessoas porque elas não vão gastar tanto nos serviços essenciais. Também criaremos descontos para os jovens.

RC > Durante anos falou-se de uma coligação de esquerda para as autárquicas. Ainda faz sentido uma alternativa desse género?
AC > As coligações só são benéficas quando vão ao encontro das preocupações das populações, não podem servir para manter determinados elementos no poder. Se tivermos de fazer alguma coligação teremos de ponderar sempre o que é mais benéfico para a população: se é ter a CDU na oposição ou no governo local. Não daremos nunca esse passo sem ser a população a decidir. Estaremos lá para decidir, em união de esforços e com todos, em benefício do concelho. Uma oposição credível, que apresente propostas e moções, também é preciso.

RC > Passou mais um mandato e o Centro de Saúde ainda não é uma realidade. Essa obra é o porta-estandarte da atuação política da CDU no concelho?
AC > Será essa obra e outras, como a de São Gião. Em 2009 pedi aos meus camaradas que o Centro de Saúde fosse a nossa bandeira e a verdade é que apresentámos 19 moções em Assembleia Municipal e todas elas foram aprovadas. Essas moções fizeram com que existisse uma pressão tremenda sobre o Governo e esta obra já entrou no Orçamento de Estado em 2012, o que faz com que esta obra não possa ser atribuída a este executivo. O que o PS fez foi gerir um processo que já estava em andamento, aproveitando o facto de o Governo ser do PS. Nesse sentido, custa-me dizê-lo, mas a obra do Centro de Saúde ainda é um oásis que está para ser implementado no concelho. Como se sabe, não somos favoráveis a que a obra seja construída onde está o edifício, mas sim que fosse aproveitado todo o espaço da antiga Escola N.º 2, com um parque de estacionamento subterrâneo que ajudaria a resolver um dos problemas do estacionamento na zona norte da vila e que daria um rendimento substancial ao Município. Estamos em crer que o Tribunal de Contas dificilmente dará o aval para a construção do Centro de Saúde da Nazaré, até por via dos problemas existentes entre a Câmara e o Tribunal e que resultaram em processos.

RC > Foi precisamente a CDU que denunciou alguns dos “problemas” do presidente da Câmara com a lei...
AC > O que penso é que Walter Chicharro executa o mandato do “quero, posso e mando” e pensa que a Nazaré é independente do resto do País, que é ele e os amigos que fazem as leis e que assim está tudo bem. O problema é que não está. Sempre fui muito rigoroso na minha vida e a única vez em que fui à polícia aconteceu neste mandato, porque fomos ofendidos numa Assembleia Municipal e, seguindo a lei, pedimos que a pessoa em causa fosse identificada. Quando o assunto chegou ao Ministério Público recusámos avançar com o processo. Mas isso acontece porque há uma forma de fazer política que coloca as pessoas contra as pessoas. Estou absolutamente convencido que os socialistas da Nazaré não se reveem na totalidade nos métodos deste executivo, nomeadamente pelo presidente da Câmara. A lei vai dizer se ele está acima da lei. Ou abaixo. Sabemos que já foi condenado em tribunal, que há imensos crimes de desobediência, inclusivamente um originado pelo Tribunal de Contas, por não ter cumprido determinadas obrigações. Julgo é que o presidente da Câmara não é a pessoa indicada para o próximo mandato, até porque ele pode vir a perder o mandato. As pessoas quando estão nos lugares têm que obedecer a um determinado número de obrigações e uma delas é cumprir a lei. E isso não foi feito por este executivo.