António Delgado (BE/Alcobaça) em entrevista

O professor universitário António Delgado, de 59 anos, é o candidato do Bloco de Esquerda (BE) à Câmara de Alcobaça nas próximas eleições autárquicas e abre o ciclo de entrevistas do Região de Cister aos cabeças de lista ao ato eleitoral.

Natural de Turquel, este antigo militante do PS integrou os órgãos locais do partido, mas saiu em rutura e foi um dos mentores da candidatura de José Pedrosa pelo Movimento Cívico Independente, em 2009, do qual se afastou pouco antes do ato eleitoral. Após o que chama um “período de nojo” da política, volta ao ativo, como independente, no BE.

Autárquicas'17: Entrevista ao candidato do BE à... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > Por que razão se decidiu candidatar à Câmara de Alcobaça?

ANTÓNIO DELGADO (AD) > A razão que me levou a candidatar foi considerar que tenho alguma coisa a acrescentar a este concelho. Foi um processo lento. Em anteriores momentos já me tinham convidado para listas e não aceitei, até mesmo para listas da Assembleia Municipal, para me dedicar à minha vida académica. E penso que esta mais valia pode ser importante para o concelho, dado que este território tem características muito particulares e essas valências associam-se muito com a minha área de formação. Esta é uma das minhas razões principais. E também por ser alcobacense de gema, pois nasci cá e todo o meu pensamento anda à volta de Alcobaça.

RC > O que o fez optar por este convite do Bloco de Esquerda e já ter recusado outros?

AD > O BE foi dos partidos que mais insistiu. Além disso, há uma identidade que tenho com o Bloco por razões bastante práticas. É um partido que fala muito diretamente às pessoas, é muito objetivo e claro e vai ao encontro das necessidades das pessoas têm, nomeadamente as questões sociais, que têm mais que ver com o seu dia a dia e com o que elas realmente querem. E, sobretudo, porque tenho visto que todos os políticos do BE têm tido visões sobre o aspeto de antever determinadas coisas que se podem melhorar na sociedade. E um político se não está à frente, não vale absolutamente nada. É um inútil. E nós podemos vislumbrar aquilo que pode acontecer no futuro. Um político deve sempre ter uma visão de futuro.

RC > Teme que o seu passado enquanto militante do PS o possa penalizar aos olhos dos eleitores?

AD > Penso que isso não é um problema. Quem é que não muda de partido? Em todos os partidos temos casos semelhantes ao meu. Até em Alcobaça. Há um candidato que mudou do PSD e foi para o CDS como independente. 

RC > Qual é a sua visão de futuro para Alcobaça?

AD > Não vou inventar a roda. Vou reformular determinadas coisas que deviam ter sido feitas e não foram conseguidas até agora, nomeadamente ajudas do ponto de vista social. É preciso que haja um nivelamento das freguesias para que cada uma tenha as suas valências próprias, sem perder as suas características. Quero um forte desenvolvimento das periferias da sede do concelho, seja a norte, seja a sul, e combater a desertificação que se está a alastrar na cidade.

RC > O que pode prometer para combater a desertificação de que fala?

AD > Apoiar as pessoas, nomeadamente as pessoas com carências, desempregados, pessoas de terceira idade e apoiar as potencialidades dos jovens que atualmente têm de fazer grandes caminhadas para irem para a escola... Precisamos de melhores transportes públicos e acessibilidades às localidades. Precisamos que haja possibilidade de os jovens, através de novas tecnologias, terem emprego nas próprias terras, temos de lhes dar condições para criarem o próprio emprego. A noção de criar mais empregos pode estar desgastada do ponto de vista de promessas eleitorais, porque as empresas não têm efetivamente possibilidades de estender os seus mercados.

RC > O apoio social é um dos pilares da sua candidatura. Que outras linhas orientadoras existem no seu programa?

AD > A cultura é uma dessas linhas orientadoras. A ideia é ter uma nova cultura na forma ver o concelho. Cada alcobacense deve ser os olhos do líder autárquico, isto é, denunciar em momento próprio para que se atue e não se deixe acumular situações que depois, efetivamente, não têm arranjo absolutamente nenhum. Falo nomeadamente daquilo que todos ouvimos falar nas conversas de café: “ai que não se fez isto, ou não se construiu aquilo como tinha sido prometido”. O BE vai querer ouvir os cidadãos, mas isto em sede de poder, se for poder.

RC > O que faz mais falta ao concelho?

AD > É precisamente os alcobacenses acreditarem em Alcobaça e acreditarem que têm pessoas credíveis para os ajudar a construir um concelho como eles gostam.

RC > Como é que se pode fomentar isso?

AD > Isso parte, primeiro, da credibilidade dos programas que as pessoas apresentarem. As pessoas sabem há quantos anos é que certas pessoas estão no poder. Fazer o somatório e perceber o que é que se têm vindo a dizer e o que realmente têm vindo a fazer. Há uma questão muito pragmática e está aos olhos de toda a gente, não é preciso ninguém dizer. Há pessoas que lideram os destinos do concelho há 20 anos.

RC > O BE tem pouca expressão em Alcobaça. É um problema para a candidatura ou o efeito surpresa pode ajudar?

AD > Não vejo pontos fracos nem pontos fortes. Vejo a minha candidatura como uma candidatura que tem determinadas propostas para Alcobaça. Essas propostas serão visíveis. Faço um apelo à inteligência dos eleitores e à capacidade de se perceber o que está em jogo num tempo crucial. O mundo está em modificação, as últimas eleições legislativas alteraram o panorama político. Viu-se que efetivamente os partidos chamados de “papões” não são, na verdade, “papões”. São partidos que colaboram decentemente e com voz das pessoas que votaram. E é por isso que para mim não há pontos fortes ou pontos fracos nesta candidatura. Para mim há candidaturas que têm um determinado percurso, outras que não o têm, mas têm a possibilidade de, até pelo contraste, mostrar coisas completamente novas a Alcobaça. Essencialmente, as pessoas hoje em dia não olham para a política como a viam há anos, sobretudo os jovens, que já não olham para a política com a cor clubística, como os seus pais viam antigamente. Os jovens preocupam-se com a cultura, o emprego, o lazer e a possibilidade de ter acesso a determinadas coisas.

RC > O BE pode alcançar um resultado positivo?

AD > Penso que o BE tem condições para ter um resultado positivo e esse resultado baseia-se na credibilidade, precisamente no sentido de não haver nada que possa dizer que teve a governar, no poder, e não fez nada. Eu, por exemplo, vejo que os candidatos dos outros partidos, com todas as promessas que podem fazer ao longo dos anos, estão a governar Alcobaça há mais de 20 anos.

RC > O resultado positivo passa pela eleição de um vereador?

AD > É positivo todo o número de eleitos que o BE possa ter, incluindo precisamente um vereador. O objetivo é passar uma mensagem credível para os alcobacenses, se isso se materializar na eleição de um vereador é ótimo. Se se materializar em dois vereadores, ótimo. Se resultar na eleição de deputados para a Assembleia Municipal de Alcobaça, excelente. Se se materializar em pessoas para as Juntas de freguesia, excelente. Também é excelente se se concretizar na criação de vozes críticas para Alcobaça.

RC > Como avalia o presente mandato da Câmara de Alcobaça?

AD > Este mandato esteve limitado às restrições económicas, aliás, como estiveram os outros antes deste. Mas não creio que o problema de Alcobaça seja de restrições económicas, mas de origem de orientação de prioridades. Guardarei para a campanha aquilo que tiver de dizer aos restantes candidatos. O concelho está a braços, sobretudo, com problemas de acessibilidades, destruição de património, questões relacionadas com o apoio à terceira idade e a pessoas mais carenciadas, ausência de transportes confortáveis dentro do concelho e falta de médicos de família, que obriga as pessoas a terem de estar às seis da manhã em frente aos centros de saúde das suas freguesias para conseguirem ter uma consulta. Isto é grave. E é nestas falhas que efetivamente o meu discurso, ou parte dele, irá ser centrado. E nisto o elenco camarário atual tem faltado. Se for eleito, garanto uma descentralização das reuniões de Câmara pelas várias freguesias do concelho.