Carlos Bonifácio (CDS-PP/Alcobaça) em entrevista

O candidato do CDS-PP faz duras críticas à gestão de Paulo Inácio e apresenta-se como a “única alternativa” nas eleições autárquicas do próximo dia 1 de outubro.

Autárquicas'17: Entrevista ao candidato do CDS... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > Desde 1989 que o CDS não tinha uma representação no executivo municipal, conseguiu-o há quatro anos. Considera que é possível melhorar o resultado de 2013?  
Carlos Bonifácio (CB) > De facto é uma realidade que há mais de 20 anos que o CDS não tinha uma representação. Também é verdade que as minhas origens políticas são conhecidas. Não sou filiado no CDS, protagonizo uma candidatura independente dentro do partido. Há quatro anos o CDS mais do que triplicou a sua votação. Se me perguntar o que vai acontecer a seguir não sei dizer exatamente, mas a perceção que tenho no terreno é que, de facto, vamos crescer muito. O CDS-PP é verdadeiramente a única alternativa ao poder nestas eleições e as pessoas já perceberam que estão perante uma candidatura de origem partidária e com uma cor política, mas que é composta por pessoas de várias origens e que têm como denominador comum o futuro do concelho de Alcobaça. Portanto, estou animado porque vamos melhorar e muito a nossa votação e porque nos vamos bater de igual para igual e que por certo vamos ser a grande surpresa nestas eleições, disso não tenho dúvidas. No dia 1 de outubro serão os munícipes a fazer essa opção. Mas estou plenamente convicto que eles já sabem que estas eleições se decidem entre PSD e CDS-PP, protagonizado por mim. Mas que a alternativa somos nós. Portanto, estou animado e confiante e não preciso de me esforçar no sentido de mobilizar pessoas, porque estão a aparecer de forma espontânea e perceberam que esta é uma candidatura completamente diferente das outras. Outro dado muito interessante nestas eleições: mais de 20% dos nossos candidatos têm menos de 30 anos. Isto é um sinal de rutura e de uma mudança até estrutural no concelho de Alcobaça.

RC > Em que medida os mandatos de Paulo Inácio foram distintos dos três mandatos de Gonçalves Sapinho, nos quais também esteve envolvido, nomeadamente, enquanto vice-presidente de Câmara?
CB > Quero dizer dizer que sempre tive uma grande honra em trabalhar com o Dr. Sapinho, não tenho nenhum complexo em ter servido o PSD. Foram anos de aprendizagem. Havia uma pessoa com uma liderança forte e de repente houve uma queda abrupta e uma liderança fraca e sem alternativas. Diria que a gestão do Dr. Paulo Inácio é uma mão cheia de oportunidades perdidas. Tudo passou ao lado do concelho de Alcobaça. Não houve uma política séria no turismo, na cultura e ao nível de desenvolvimento económico fomos perdendo muitas oportunidades. O problema número um da presidência de Paulo Inácio é mudar de prioridades muitas vezes. Comigo tudo será diferente. Há prioridades, há estratégia e sabemos para onde vamos. Aliás, se merecer a confiança da maioria dos munícipes, o dia a seguir às eleições será de trabalho na Câmara porque conheço muito bem aquela casa e as pessoas que lá trabalham e para mim não há períodos de aprendizagem.

RC > O candidato da CDU considerou que o PS estaria a dar tiros nos pés durante esta campanha. É também aí que se baseia para dizer que o CDS é a única alternativa ao PSD em Alcobaça?
CB > Quando digo que o CDS é a alternativa não é com demérito dos partidos da oposição, não tenho essa visão. Cada um falará sobre a sua própria casa. Agora, nos últimos quatro anos quem esteve na oposição, esteve sempre atento, esteve sempre a fazer propostas, teve uma atitude sempre muito atuante e comunicando com os munícipes foi a minha candidatura. Portanto, por razões óbvias, estamos convictos que somos a alternativa nestas eleições e que só haverá dois vencedores possíveis no dia 1 de outubro: o Dr. Paulo Inácio ou eu.

RC > O mandato de minoria de Paulo Inácio tem sido pontuado com acordos com alguns elementos da oposição. O que mudou na liderança do presidente da Câmara neste mandato em relação aos anteriores?
CB > Foi a confirmação daquilo que já suspeitava. Mudanças muito frequentes de gestão e prioridades. Paulo Inácio não pode queixar-se da oposição porque não lhe causou nenhumas dificuldades e conseguiu governar sem maioria. A começar por mim, não criei problemas nem dificuldades. O presidente da Câmara tinha o meu apoio naquilo que pensava ser positivo para o concelho, quando discordava manifestei sempre inequivocamente, mas sempre fundamentando, a minha posição. Nenhuma posição de voto contra foi feita sem uma fundamentação. Não votei contra por votar contra. Para mim, o concelho de Alcobaça está acima de divergências e questões de pormenor. Alcobaça vale muito mais do que as diferenças das pessoas e da visão momentânea das coisas. Enfim, penso que Paulo Inácio deveria ter feito muito mais. O concelho estagnou e a responsabilidade não é da oposição, é do presidente da Câmara face à obrigação que tinha de ter uma liderança forte e, efetivamente, não teve.

RC > Diz que Alcobaça será muito diferente daqui a quatro anos com CDS na Câmara. Em que dimensão será um concelho diferente?
CB > No sentido em que vamos apostar em três áreas chave: o desenvolvimento económico, o turismo e a cultura. Alcobaça é um concelho do litoral e não deixa de ser preocupante que seja o concelho do distrito que mais população perde. Isto é gravíssimo e nunca vi isto a ser discutido em reunião de Câmara. Perder 800 munícipes em quatro anos é surreal. É preciso apostar na captação de novas empresas, ajudar as que se queiram internacionalizar e a Câmara deve ter responsabilidades nessa área. É preciso ter um centro de negócios atuante e não tem, tem apenas um serviço de portas abertas a prestar algumas informações. Não é aceitável que o concelho não crie oportunidades para os jovens que abandonam Alcobaça por falta de saídas profissionais. Outra das áreas que me preocupa é o turismo. É inacreditável que nestes quatro anos em que estive na Câmara não tenhamos feito nem avançado nada. Nem sabemos sequer de onde vêm os turistas que visitam o concelho. Portanto, falhámos na área do turismo a 100% e isto não pode voltar a acontecer. O trabalho da atual Câmara está no nível zero. Por outro lado, também não temos uma visão cultural. Temos apenas alguns eventos em determinados períodos do ano e isso não pode acontecer. Tem de ser uma visão sistemática e ao longo do ano. Há alguns eventos de enorme valia e é preciso continuar a apostar neles. Mas é preciso inovar, nomeadamente, na questão dos Doces Conventuais. Este modelo não vive para sempre e é necessário começar a pensar num novo modelo. Há, no plano cultural, muito a fazer e pouco tem sido feito. Vivemos um bocado naquilo que já foi feito e pensamos que isso é suficiente, mas não é.

RC > Mas a Câmara tem condições económicas para poder investir? 
CB > A Câmara tem condições económicas, é um dos municípios na região com maior receita. Tem capacidade financeira para fazer frente a determinado género de desafios. Mas isso não tem acontecido. O grau de investimento é muito baixo e reconheço que tivemos um período de negociação do quadro comunitário, mas se olharmos para o investimento feito vemos que não temos avançado grande coisa. Por exemplo, o presidente de Câmara anunciou, no ano passado, obras no MercoAlcobaça e disse que no próximo ano o espaço estaria requalificado. Mas não existe projeto, nem candidatura. Paulo Inácio disse que ia apostar na regeneração do mercado municipal, mas não existe projeto. Essas já não são as suas prioridades. Agora a prioridade, depois de uma lavagem de cara no parque de campismo, é intervir na Avenida Joaquim Vieira Natividade. Paulo Inácio prefere investir no acessório em vez de ir ao essencial. Este é o problema mais sério que temos. O presidente da Câmara anda ao contrário e eu comprometo-me que primeiro tratarei do essencial e só depois do acessório. E o essencial é o desenvolvimento económico, das zonas industriais, e é por aí que começaria e só depois estaria preocupado com praças ou com jardins. É muito bonito, mas não é isso que traz e fixa pessoas. 

RC > A dívida dos centros escolares ainda não está refletida na dívida da Câmara. Quando a dívida estiver refletida, o município terá capacidade para poder investir?
CB > Penso que a questão da dívida dos centros escolares não é um problema propriamente em termos financeiros. O impacto que tem nas finanças do município é relativo. Tem o seu peso, como é lógico, mas não é decisivo, nem vai pôr em causa a capacidade do município poder investir nos próximos anos. No tempo em que estive com o Dr. Gonçalves Sapinho, o investimento era três ou quatro vezes maior. A Câmara tem saúde financeira suficiente para pagar os centros escolares, com prazos estabelecidos. Toda a gente conhece as receitas do município de Alcobaça e é dos concelhos que mais receita tem. Nem os centros escolares são um problema para o município, nem impedem o investimento em obras financiadas por fundos comunitários. E essa é uma oportunidade que temos na mão, temos é de saber escolher as apostas certas. E essa é a minha verdadeira preocupação.