Cláudia Vicente (PS/Alcobaça) em entrevista

A beneditense Cláudia Vicente teve, em 2013, a primeira experiência política ao ser eleita presidente da Assembleia de Freguesia da Benedita. Quatro anos volvidos, é a aposta do PS para tentar recuperar a Câmara de Alcobaça, que “foge” aos socialistas há 24 anos. E diz acreditar na vitória.

Autárquicas'17: Entrevista à candidata do PS à... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > É a candidata à Câmara de Alcobaça menos conhecidas. Considera que isso pode ser uma desvantagem ou uma vantagem perante o eleitorado? 
CLÁUDIA VICENTE (CV) > Efetivamente sou das menos conhecidas. Não tenho uma projeção idêntica à dos outros candidatos, mas creio que isso pode ser uma vantagem face ao desgaste da imagem pública dos outros. Considero, aliás, que a minha candidatura pode funcionar como um “novo começo” na política alcobacense. É isso que se pretende. Até para mudar o rosto do poder local existente no concelho. 

RC > Enquanto presidente da Assembleia de Freguesia da Benedita, como avalia a sua primeira experiência política? E como foi o relacionamento com a Câmara de Alcobaça?
CV > Enquanto presidente da Assembleia de Freguesia da Benedita posso dizer que a experiência foi positiva. O relacionamento da Assembleia de Freguesia da Benedita com a Câmara de Alcobaça é muito restrito, não há propriamente comunicação. Aliás, a única vez que tentei comunicar a Câmara de Alcobaça, ou com o presidente da Câmara, ainda estou a aguardar resposta...

RC > Não foi a primeira escolha para encabeçar a lista do PS. Sente-se “menorizada” por esse facto? O que a levou a aceitar o convite?
CV > Não. Cada situação tem as suas razões de ser. O que levou ao primeiro convite terá sido uma decisão que diz respeito ao PS e à Concelhia de Alcobaça do partido. Não me sinto menorizada por isso. Em relação ao convite, aceitei porque penso que terá chegado o tempo e que estarei na idade em que devemos fazer e contribuir com alguma coisa para a sociedade. Creio ter maturidade para isso. Estou entre a população jovem e a população menos jovem, o que me permite comunicar com os dois elos da comunidade. Depois, porque se continuar no café, como se diz, a criticar e a não fazer nada, sou igual aos outros todos. Daí que tenha chegado a hora de abandonar esse papel e fazer alguma coisa de positivo pelo concelho. E porque estou também, como talvez todos nós, cansada de ver a minha geração a abandonar constantemente o País. Uma população que tem qualificação para trabalhar e contribuir para o desenvolvimento de Portugal e que, de certa forma, está a contribuir para o desenvolvimento de países estrangeiros. E considero que todos nós devemos contribuir para que essa situação seja invertida.

RC > Há vários adversários políticos que consideram que o PS tem dado “tiros nos pés” durante a pré-campanha. Sente que o partido está unido à volta da sua candidatura?
CV > Até ao momento sinto que sim. Se tem dado tiros nos pés tem de perguntar a quem representa o PS/Alcobaça. Eu represento a candidatura à Câmara de Alcobaça, não sou filiada, não sou militante. Portanto, não posso responder pelas questões internas do partido.

RC > O PS não é poder em Alcobaça há 24 anos. Considera ser possível inverter a hegemonia do PSD?
CV > Toda as pessoas estão sempre a tempo de retificar os erros. E, como tal, acredito que a qualquer momento é possível inverter essa tendência.

RC > Mas acredita que nestas eleições o PS está preparado para assumir o poder em Alcobaça?
CV > Claro que sim. Caso contrário não me candidataria. Não estamos propriamente a brincar. Penso que as coisas são levadas de forma séria. O nosso trabalho vai nesse sentido, no sentido de conseguir alcançar esse objetivo. Obviamente que o poder de decisão está nas mãos dos eleitores. Essa situação não se consegue controlar, mas estamos a trabalhar para ganhar as eleições.

RC > O que é que o PS tem para oferecer ao concelho de Alcobaça, caso vença as eleições autárquicas de 1 de outubro?
CV > Na nossa perspetiva, o desenvolvimento do concelho passa pela qualificação, inovação, investigação e internacionalização. E vamos trabalhar estes aspetos apostando no empreendedorismo, através da formação profissional em ambiente escolar e não-escolar. Entendo que a Câmara é, atualmente, fechada e demasiado burocrática e, por isso, temos de simplificar os processos burocráticos, de forma a poder captar o investimento e que a autarquia seja simples e rápida a dar respostas aos investidores. E, depois, temos de obviamente criar condições económicas, não só para as empresas que estão sediadas, mas também para aquelas que queiram vir estabelecer-se no concelho. Temos de criar vantagens fiscais dentro daquilo que está na esfera de competências da Câmara, seja redução de IMI, isenções, etc. Tem de haver retorno de forma a que as empresas possam ser competitivas com outras empresas que estão sediadas fora do concelho e outras até fora do País. No fundo, temos de conseguir captar empresas que venham trazer valor para o concelho, inovar e trazer para Alcobaça alguns clusters: temos empresas ligadas à metalúrgica, que fornecem marcas de reconhecido nome, de instrumentos cirúrgicos, a nossa cutelaria, a pedra, o calçado… Temos, em São Martinho do Porto, o limo que os espanhóis vêm apanhar para depois levar para Espanha. Então nós não temos essa capacidade de fazer todo esse trabalho e de ter empresas e nichos que trabalhem nesse desenvolvimento para trazer mais valias para o concelho? Claro que temos, só temos é de criar as condições para isso. Por exemplo, Mangualde não sediou duas ou três empresas do ramo automóvel e não investiu na formação e, hoje em dia, não vão para lá mais empresas sediar-se por irem à procura dessa mão de obra qualificada? Penso que é um pouco isso que temos de fazer.

RC > O facto de o Governo ser PS pode facilitar o relacionamento com a Câmara de Alcobaça caso vença as autárquicas?
CV > Infelizmente, sim. Mas não deveria ser. Porque obviamente sendo as mesmas cores partidárias as vias de comunicação são sempre um pouco mais facilitadas. Mas em bom rigor não deveria ser assim.

RC > Que análise faz dos dois mandatos de Paulo Inácio à frente da autarquia?
CV > Se fizesse uma análise positiva não me candidataria... Digamos que o que Paulo Inácio fez está feito e o que não fez ficou por fazer. E acredito que ainda há muito por fazer. Creio que as prioridades terão sido mal definidas. Penso que foram criadas, e continuam-se a criar, desigualdades entre as freguesias. Ainda que tenha apoios de fundos comunitários, vamos gastar 2 ou 3 milhões no Parque Verde de Alcobaça. Se calhar a população do concelho de Alcobaça preferiria um parque infantil em cada uma das 13 freguesias em vez do parque verde na cidade. Portanto, penso que a gestão da prioridade ficou muito aquém. Falta-nos saneamento, a rede de transportes não funciona, falta-nos ciclovias… Havia muito que Paulo Inácio poderia ter feito e não fez.

RC > O turismo tem sido, ao longo dos últimos anos, um chavão do PS. Qual é a estratégia da sua candidatura para este setor?
CV > Alcobaça até é um concelho privilegiado comparativamente a outros concelhos no que diz respeito ao turismo. Não precisamos de criar praias fluviais, por exemplo, que é o que muitos concelhos tiveram de fazer para atrair visitantes e criar qualidade de vida. Temos a serra e o mar, património cultural material e imaterial, temos de conseguir articular todas essas mais valias e recursos de forma a que consigamos criar retorno para a economia local. Porque ali a praça em frente ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça está cheia, mas qual é o retorno financeiro de todos os turistas que aqui passam? Temos de potenciar e requalificar as praias do norte do concelho para que haja investimento hoteleiro, repensar as redes viárias e os problemas de estacionamento que existem no concelho, não só na cidade mas também na Benedita, em São Martinho do Porto e a norte do concelho. Temos de apostar no turismo de natureza, criar articulação entre o património e circuitos para que as pessoas que nos visitam não fiquem apenas uma noite e passem a ficar três ou quatro noites para que possam deixar as suas divisas no concelho. Não pode ser só gastar o saibro de um lado ao outro do parque de estacionamento. Temos de fazer tudo isso em articulação com os operadores turísticos, com o comércio local, associações e empresas. No fundo, toda a gente tem de estar envolvida na promoção de Alcobaça. Alcobaça tem de se globalizar, senão não saímos daqui.