Entrevista a Joaquim Romão

Presidente do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes há 18 anos, Joaquim Romão foi recentemente reeleito para mais um mandato. Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, o dirigente assegura que o Núcleo está no bom caminho e que continuará a prestar apoio aos ex-militares do concelho.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Como surgiu a possibilidade de assumir a liderança do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes?
Joaquim Romão (JR) > Em certa medida, era uma vontade antiga. Na parte final da minha vida profissional mantive uma relação muito próxima com o general Altino Pinto de Magalhães [então presidente da Liga dos Combatentes] e conversámos muitas vezes sobre o estado em que se encontrava o Núcleo de Alcobaça. Dizia sempre ao general que era minha vontade fazer deste um Núcleo efetivo, mas que isso só poderia acontecer depois de me aposentar, porque apenas quando estivesse em situação de reforma é que teria disponibilidade para assumir a gestão desta casa. Assim foi. Tinha trabalhado ao longo da minha vida com muitos ex-combatentes e isso foi fundamental para reativar o Núcleo, que estava praticamente parado. Entrei em 16 de setembro de 2000 para a presidência do Núcleo e só posso agradecer ao general Pinto de Magalhães, que acreditou que Alcobaça poderia ser um dos melhores núcleos do País. 

Quando os técnicos nos identificam algum ex-combatente em situação de maior fragilidade na nossa região, respondo sempre da mesma maneira: vamos fazer contas. Mas nunca deixamos de apoiar. Creio que estamos a fazer um bom trabalho.

RC > E o que motivou a avançar?
JR > Fui colocado na Guiné (1961-63) no início da Guerra do Ultramar e desde sempre revelei interesse pelas questões relacionadas com os ex-combatentes. Quando voltei da guerra, em 1963, mantive esse interesse e, em 1969, juntei-me a um grupo de outros maiorguenses que tinham sido militares e resolvemos criar um evento em que nos pudéssemos orgulhar do nosso passado e, ao mesmo tempo, homenagear os nossos companheiros que estavam na Guerra. Assim nasceu o Dia da Amizade, Fraternidade dos Combatentes da Freguesia da Maiorga, que se realiza há 50 anos no dia 10 de junho. É um evento marcante e que, já depois do 25 de Abril, manteve a dinâmica. Passados alguns anos convidámos a Liga dos Combatentes a marcar presença no evento e o general Pinto de Magalhães foi o escolhido para fazer esse papel institucional. O certo é que nos 14 anos seguintes ele não mais faltou ao evento na Maiorga, porque foi muito bem recebido e isso veio a beneficiar, mais tarde, o Núcleo de Alcobaça.

RC > E como está hoje o Núcleo?
JR > Temos cerca de 700 associados, alguns dos quais mulheres, umas porque eram casadas com ex-combatentes e outras porque gostaram tanto dos nossos eventos que se tornaram sócias. Temos um lote de sócios com 50 anos de filiação e em 2019 vamos organizar um evento e agradecer a esses combatentes.

A Liga dos Combatentes substitui muitas vezes o Estado.

RC > A Liga dos Combatentes tem, de algum modo, de substituir-se ao Estado no acompanhamento dos ex-militares?
JR > A Liga dos Combatentes é o Estado. E, sim, esta instituição substitui muitas vezes o Estado. Os Núcleos têm um papel importantíssimo e que vão tapando muitos buracos. O apoio que vamos dando, como subsídios provisórios, é fundamental para alguns antigos militares. Quando os técnicos nos identificam algum ex-combatente em situação de maior fragilidade, respondo sempre da mesma maneira: vamos fazer contas. Mas nunca deixamos de apoiar. A Liga está a fazer um bom trabalho, mas pode vir a sofrer nos próximos anos com a dificuldade na sucessão dos corpos dirigentes. Espero que alguém apareça. Temos feito um trabalho muito importante de acompanhamento a ex-combatentes, muitos dos quais precisam de apoio psicológico. Temos mantido subsídios mensais de forma contínua durante anos. Dou como exemplo um ex-militar tinha apenas 320 euros por mês para sustentar uma família, com um filho portador de deficiência, e demos um apoio a essa família durante anos até que ele se conseguiu reformar. Essa é a parte boa deste trabalho na Liga. 

RC > Como é que olha para o estado das Forças Armadas?
JR > Tal como tem vindo a suceder com a sociedade, o que se passa nas Forças Armadas é que se tem perdido os valores. Não vejo aquele sentido de responsabilidade e o dever de servir as Forças Armadas que senti durante décadas. É também por isso que sou daqueles que defende a reintrodução do serviço militar obrigatório. É algo que ajuda a formar o homem e, agora, também a mulher. No fundo, é uma escola de vida. Nem que fosse quatro ou cinco meses, já ficávamos a ganhar. Estamos a ver a forma como as famílias estão a ser destruídas na sociedade moderna. Está-se a perder os valores na sociedade e parece que ninguém faz nada para alterar esse estado de coisas. É lamentável que assim seja e o Serviço Militar Obrigatório pode ter um papel importante para mudar o estado de coisas.

Temos cerca de 700 associados, alguns dos quais mulheres, umas porque eram casadas com ex-combatentes e outras porque gostaram tanto dos nossos eventos que se tornaram sócias.

RC > Em que medida os militares aposentados também podem contribuir para uma mudança efetiva?
JR > Dou um pequeno exemplo de como é possível que militares na reserva ainda são muito úteis à sociedade. Há uns anos, devido ao acumular do volume de trabalho no Núcleo de Alcobaça, vi-me na necessidade de dizer à direção-central da Liga dos Combatentes que os militares na reserva podiam trabalhar nos Núcleos e, desse modo, terminar a vida ativa nos Núcleos. Foi um ganho substancial para a nossa estrutura, que hoje em dia tem dois militares na reserva a trabalhar no Núcleo e que têm prestado um bom serviço aos nossos associados e não só. Temos o major Marques, que é natural da Bica, e o tenente-coronel Salgado, que é de Leiria, que nos vão dando uma ajuda preciosa. Foi uma pequena medida, mas com ganhos substanciais para o Núcleo.

RC > Que memórias guarda do seu período como combatente?
JR > Gosto muito de falar sobre as memórias que tenho da Guerra do Ultramar, porque tive a sorte de viver tempos inesquecíveis e que me fizeram crescer muito enquanto ser humano. Quando cheguei à Guiné-Bissau integrei uma companhia, que se instalou em Bafatá, que era das primeiras a tomar uma posição num terreno desconhecido e que praticamente ainda não tinha sido desbravado. Éramos os primeiros. Não tínhamos quarteis, não havia nada. Não tínhamos nada que nos abrigasse da chuva ou do sol, para além do céu e das estrelas. Dentro das nossas possibilidades fomos construindo as coisas, fazendo ao mesmo tempo um reconhecimento efetivo do terreno. 

RC > Foi um período marcante...
JR > Considero que a nossa chegada à Guiné foi algo de muito importante para as populações. Durante seis meses fizemos um grande acompanhamento das populações. Recordo-me que alguns nativos nunca tinham visto um branco... Quando chegávamos às tabancas eles fugiam com medo e era preciso o grande chefe da aldeia chamar os nativos para que eles voltassem... Tratámos dos leprosos e das crianças. Essa foi a nossa grande missão nesse período. Foi algo de muito gratificante. Depois veio a desgraça, que nunca devia ter vindo. 

Sou a favor do regresso do Serviço Militar Obrigatório.

RC > A guerra era inevitável?
JR > Sabíamos que a guerra na Guiné-Bissau ia ser muito sangrenta. Mas era desnecessária para aquele povo, porque o clima, por si só, era suficiente para fazê-los sofrer. Quando fomos substituídos, dois anos depois, os nossos companheiros tinham uma missão mais difícil. Recordo que quando entreguei a minha arma a quem me substituiu, apenas lhe pedi que não fizessem mal às populações. 

RC > Como acompanhou a guerra à distância?
JR > Fui sempre acompanhando a guerra, mesmo à distância. Penso que todos os que a combateram assim o fizeram. Quem viveu o que nós vivemos jamais esquece aqueles tempos. Mas recordo também que quando um companheiro embarcava para o Ultramar havia a preocupoação de lhe darmos os melhores conselhos. Nesses contactos ficava sempre uma dor no coração, pois sabíamos que o que iam enfrentar era um cenário muito difícil. Para onde aqueles jovens iam...

RC > E as entidades de Alcobaça têm sabido reconhecer o papel da Liga ao longo destas décadas?
JR > Sem dúvida que sim, nomeadamente a autarquia. Desde o tempo de Miguel Guerra (PS) que a Câmara de Alcobaça tem sido um apoio importante aos ex-combatentes do concelho, nomeadamente no que diz respeito ao nosso movimento na Maiorga. Mas não posso esquecer Gonçalves Sapinho (PSD), que teve um papel determinante para a reativação do Núcleo de Alcobaça. Ele não tinha sido combatente, mas sentia muito as questões dos ex-combatentes. Hoje em dia com Paulo Inácio (PSD) continuamos a receber um forte impulso e a autarquia tem dito sempre presente em todas as nossas empreitadas.