Rafael dá corda aos relógios há mais de meio século na Benedita

O apelido do homem que trabalha com relógios há mais de meio século é o nome desta “Casa com História”. Começou por ser exclusivamente uma relojoaria mas, com o tempo, Rafael passou a ser também conhecida como ourivesaria. Hoje em dia é um dos ícones do comércio tradicional da Benedita.

O beneditense João Luís Rafael começou a trabalhar no calçado com o pai, mas já casado, aos 27 anos, teve necessidade de “arranjar mais uns trocos”, vendendo porta a porta, nas redondezas da vila, os relógios do Santeiro (outra “Casa com História” da vila). Foi ali que João Luís Rafael começou “a meditar nas máquinas” e a querer aprender para ser técnico de relógios. Acabou por seguir em frente, obtendo o certificado do curso de relojoeiro por correspondência, do Instituto Técnico Suíço Brasileiro, que tem exposto numa das paredes da loja. 

Abriu o seu negócio em 1965, num espaço ao lado da sua casa, no Casal Gregório. Passados três anos, mudou-se para a Rua Joaquim Augusto Carvalho, na Benedita, de onde nunca mais saiu. Primeiro num espaço “pequenino”, onde os clientes chegavam a fazer fila, e depois num espaço maior, onde permanece. “Abri a casa num domingo antes da Páscoa e coloquei um papel na porta a dizer que se consertavam relógios. A partir daí já não fiz outra coisa”, recorda João Luís, de 84 anos.

A abertura da relojoaria Rafael não passou despercebida  a ninguém, nem mesmo ao pároco. Rafael conta que, à época, o padre acabou por partilhar a sua satisfação aos paroquianos, lembrando que já não havia razão para chegarem atrasados à missa porque já havia mais um relojoeiro na vila...

Os filhos de João Luís foram acompanhando o negócio do progenitor. Quando o filho saiu, entrou uma das filhas gémeas, que desde então passou a gerir o negócio com o pai. Entretanto, o filho de Glória também veio, tornando a Rafael numa verdadeira casa de família.

Hoje em dia, ainda é costume ouvir na Benedita que se vai “ao Rafael”, no caso de alguém precisar de comprar ou reparar relógios, mas também ouro, prata e troféus. “Há muita diversidade, o tempo vai ensinando o que precisamos de ter”, frisa o relojoeiro. Frequentou diversas feiras e exposições, mas a principal “escola” fê-la quando ia de bicicleta para Caldas da Rainha, ao longo de um ano, para aprender o ofício com um relojoeiro. “Queria ver e perceber como ele lidava com as pessoas”, conta João Luís.

A prova de que passou com distinção nessa “escola” é que os seus clientes são “amigos de longa data”: vieram os avós, agora já vêm os filhos e os netos. “A confiança, a proximidade e a assistência técnica” são palavras de ordem na casa de Rafael. Até porque, “o comércio não é para todos e nem todos são para o comércio”, argumenta o beneditense. E se dúvidas houvesse que esta é uma Casa com História, a menina que acaba de entrar na loja não deixa margens para dúvidas: “Cheira a antiguidade”, comenta, com as amigas.