Susana Santos: “Alcobaça não tem o reconhecimento que merece e que já teve”

Arregaça as mangas para trabalhar com a mesma emoção que regressa a “casa” todos os fins de semana. Eis a menina que saiu de Lagoa das Talas, em Turquel, quando tinha 9 anos, e a mulher que há 20 anos é responsável pela Comunicação e Relações Externas do El Corte Inglés em entrevista ao Região de Cister.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Qual a Susana que lhe deu mais luta: a Susana jornalista, a Susana da Câmara de Lisboa ou a Susana do El Corte Inglés? 

SUSANA SANTOS (SS) > Sou grata à vida e às muitas pessoas com as quais me cruzei pelo caminho por ter tido oportunidade de trabalhar em muitas áreas. Gostei muito da barra dos tribunais e de ter cumprido o sonho antigo de ser advogada, gostei da inesperada experiência que, logo aos 18 anos e ainda na universidade, recebi na Rádio Renascença, que me deu o meu primeiro emprego e a minha primeira formação na área da comunicação. Gostei de trabalhar na televisão, de ter podido ajudar empresas e instituições na minha própria agência de comunicação e gostei muito do trabalho na Câmara de Lisboa. E gosto do que faço agora, claro. O peso, se é que lhe posso chamar peso, é sempre o mesmo, o da responsabilidade. Seja qual for o trabalho, a responsabilidade é, ou pelo menos entendo que deve ser, sempre a mesma: a de executar com honestidade as funções que assumimos. Da mais modesta à mais visível, acredito que só se é verdadeiramente honesto se cumprirmos com rigor e com brio a nossa função. E para isso é preciso dedicação, trabalho, estudo e muita humildade para aprender, aprender sempre com quem sabe mais do que nós.

RC > Está há 20 anos a dar “voz” ao El Corte Inglés em Portugal. Esse é um grande peso? 

SS > Lá está, é o peso da responsabilidade. No caso de uma grande empresa, como esta em que me orgulho de trabalhar, é natural que se considere que o “peso” é maior porque em causa está a voz e, porventura, a reputação de uma marca muito reconhecida. Mas é como digo, o peso é, tão só, o da responsabilidade de fazer bem. Felizmente aqui é muito fácil trabalhar. Temos equipas formidáveis, temos acesso a possibilidades de formação contínua que nos permitem crescer profissionalmente e temos uma atividade estimulante que nunca se repete e nos obriga, permanentemente, a atualizar conhecimentos e procedimentos, ao mesmo tempo que nos confronta com novas formas de fazer as coisas, de comunicar, e que nos propõe novas linguagens, novos canais de comunicação e novas ferramentas. Não é possível ficar aborrecido neste trabalho…

RC > Pelo caminho ficaram uma carreira de jornalista, uma empresa própria de comunicação, a TAP, a advocacia... “arriscar” sempre fez parte do seu dicionário?

SS > Não sei o que diga. Olhando para trás fico com a sensação de que nada disto, com exceção do Direito, foi planeado. Procurei apenas perceber, em cada momento, que caminho escolher. É certo que só olhando para a frente podemos ver as encruzilhadas do percurso. E para as vislumbrarmos não podemos olhar apenas para os nossos pés, é preciso, julgo eu, estar atento às opções e atento a quem nos acompanha e a quem nos inspira. Enfim, respondendo à pergunta, creio que não arrisquei, pelo contrário, procurei tomar as decisões, que, naquela altura, me pareceram as melhores para mim e para as pessoas de quem gosto.

RC > De que forma a Lagoa das Talas [de onde é] a influenciou e influencia na forma de estar e trabalhar?

SS > De muitas formas. Foi lá que nasci e vivi uma parte da minha infância. É a minha terra e é lá que se formou uma parte de mim. E não é só aquele lugar, é aquele lugar nos anos 70 e 80. É o lugar de onde tive de sair com 9 anos para um colégio interno porque ali não poderia continuar na escola. É a memória dos emigrantes no verão, da pobreza, da dor, da falta de quase tudo e também a memória feliz das grandes amizades, dos passeios pela serra com o meu avô, do prazer de antecipar o sabor do pão quente que saía do forno pelas mãos hábeis e aparentemente imunes ao calor, da minha avó. São memórias de odores, de brincadeiras de cumplicidades, segredos, privações e gestos de generosidade sem fim. Sem esse passado, sem essas lembranças de cheiros, de rituais, de festas, dos serões à lareira a tremer de horror com as histórias de bruxas e lobisomens, não saberia nada sobre a vida do campo. Aliás, por muito que me esforce, já não conseguirei dar ao meus filhos nem um vislumbre do que era a vida antes dos telemóveis, da internet e dos automóveis que nos colocam, em minutos, no meio bulício da cidade. Com tudo isto, não sei dizer-lhe de que forma me influencia a forma de estar e de trabalhar. Mas tenho esperança que esta riqueza de experiências me tenha ajudado a relativizar a importância dos comportamentos padronizados e a valorizar a diversidade. Espero também que me tenha ajudado a estar mais atenta às pessoas e ao que nos podem ensinar. Porque, isso sim, aprendi: mesmo nas circunstâncias mais difíceis, se soubermos ver, há sempre uma luz de bondade e de sabedoria e de sonho em todo o lado.

RC >  Ser mulher numa posição de liderança trouxe-lhe mais gostos ou desgostos?

SS > A liderança é apenas mais uma responsabilidade, que como todas as demais, deve ser exercida com honestidade. Neste caso a responsabilidade é maior, porque estão em causa outras pessoas. É preciso ainda mais dedicação, mais disponibilidade para ouvir e para observar. Mais tempo para refletir e, se possível, para conhecer bem as pessoas para perceber o que podemos pedir a cada uma e como podemos ajudar, se for caso disso. E, dependendo da maturidade de cada pessoa ou de cada equipa, delegar, ensinar, apoiar. A liderança obriga-nos sempre a pensar no plural. Não há sucessos individuais quando trabalhamos em equipa.

RC > A região de Cister está muito bem representada na capital e em particular no El Corte Inglés. Devemos-lhe isso? 

SS > Não! Devemos isso ao El Corte Inglés e às pessoas incríveis que cá trabalham e que não se cansam nunca de correr o país de lés a lés à procura do que de melhor se faz por cá para vender nas nossas lojas. Felizmente para Alcobaça, na nossa terra fazem-se muitas coisas boas. O mérito é, portanto, dos nossos empreendedores e confesso que não posso estar mais orgulhosa. 

RC > Como é que Alcobaça é vista na capital? E em que áreas se destaca?

SS > Não vou dourar a pilula. Na minha opinião, Alcobaça não tem o reconhecimento que merece e que já teve no passado. Temos tudo: praias, campo, património a perder de vista, tradições, romarias, empresários cheios de mérito. Mas ainda assim vejo, com algum ciúme, outras terras fazerem melhor do que nós no que à sua relação com os grandes centros urbanos diz respeito. Creio que não passo um único dia em que não fale da minha terra e creio que não há um único dia em que não tenha de explicar que estamos a apenas uma hora de distância. Digo isto e assumo a minha parte de responsabilidade, porque acredito que o bom nome dos lugares é transportado por quem lhes tem afeto. Por outras palavras, temos de ser capazes de fazer melhor, todos: os que vivem em Alcobaça e os que, não vivendo, aí têm o seu coração. 

RC > Se lhe fosse proposto criar um plano de marketing para Alcobaça, quais eram as ameaças, as oportunidades, as forças e as fraquezas que identificava, assim de repente?  

SS > Assim, de repente, não me atreveria a fazer um plano de marketing para Alcobaça porque não seria sério da minha parte. É um trabalho de grande responsabilidade e teria de ser muito pensado. A análise que propõe é, contudo, mais simples, pelo que diria que a principal fraqueza é a ausência de uma ideia que nos defina, nos identifique. Ora somos a cidade do amor, ora da agricultura, ora do mosteiro, ora das praias. Somos tudo isto, mas tudo isto tem de ter um fio condutor, temos de ser capazes de nos caracterizar de tal forma que todas as pessoas, de qualquer que seja a freguesia, se sintam retratados e que permita aos demais identificarem-nos. A principal ameaça encontra-se, portanto, à nossa volta, em todos os lugares que estão a ser capazes de se definir e de criar um rumo, uma estratégia, uma marca perfilhada por quem os habita e pela qual são reconhecidos pelos demais. Do lado das forças, estamos muito bem. Temos quase tudo a nosso favor: o mar, o património, as pessoas, a capacidade e possibilidades imensas que nos dão a oportunidade de competir em todas as áreas com futuro: turismo, gastronomia, indústria, agricultura, inovação, saúde, qualidade de vida e belezas a perder de vista. E temos o nosso Mosteiro, o mais belo de todos, que é nosso, nosso, nosso. Seja como for, o mais difícil nesta análise não é identificar estas quatro variáveis, é, isso sim, perceber como contrariar as nossas fraquezas, ultrapassar as ameaças, explorar as oportunidades e preservar as forças. É nesta equação que devemos trabalhar, tanto individualmente, como enquanto comunidade.

RC > - Tem uma rubrica no Região de Cister que se chama “Responsabilidade Social”. Qual deve ser a nossa responsabilidade social? 

SS > Dar um contributo positivo à sociedade. Conseguir cumprir os nossos deveres de cidadania, de urbanidade, de nos tornarmos melhores, de nos esforçarmos para sermos bons amigos, bons cidadãos. Ser honesto, tentar ser boa pessoa, ser solidário se nos der para aí, ou então abraçar uma causa e lutar por ela. Seja na cultura, no ambiente, na saúde, na luta contra a pobreza ou a solidão. Apoiar uma pessoa, uma instituição, ou então um animal ou a floresta. Apanhar lixo na praia… Ou, simplesmente, cumprir os mínimos, isto é, as nossas responsabilidades. Enfim, pessoalmente acredito que o empenho cívico, a atenção aos outros é importante e é muito gratificante. Quando era jovem acreditava em grandes utopias, agora sou mais modesta nos desejos. Como diz Borges num dos meus poemas favoritos “Um homem que cultiva o seu jardim (…) o ceramista que premedita uma cor ou uma forma (…) O que prefere que os outros tenham razão. Estas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo”. Lembrei-me deste poema porque, como nenhum outro que conheço, nos expõe e ao mesmo tempo nos obriga a reconhecer a responsabilidade de cada gesto.

RC > Que memórias não esquece de “casa”?

SS > Procuro não esquecer o que aprendi. Procuro lembrar-me das imagens e das pessoas e das experiências que os lugares me proporcionaram. Também gosto de observar as mudanças. As tradições que permanecem e as que foram esquecidas. E tenho pena de me ter esquecido das cantigas, de ter perdido a Lagoa que dá o nome à minha aldeia, de ter visto desaparecer uma parte da paisagem. Gostaria de voltar a ver os cumes redondinhos da serra dos Candeeiros que agora parece um dente cariado com tantos buracos que ninguém tapa. Mas por outro lado alegro-me sempre que vou fazer uma caminhada e descubro uma nova tasca, ou um caminho arranjado. Quando vejo nascer uma vinha ou um olival ou ainda – e isso é extraordinário – quando leio neste vosso maravilhoso jornal, os feitos das pessoas da nossa terra, no desporto, no associativismo, na cultura, na academia, nas empresas, na cerâmica, enfim. Isso é que vale a pena sublinhar. São essas pessoas, tantos deles jovens, que me fazem inchar de orgulho e me fazem dizer que temos um grande futuro. E por fim, mais importante do que tudo, não esqueço nunca os meus professores que, mais do que memórias, me ensinaram a pensar.