Telma Ferreira (BE/Nazaré) em entrevista

A candidata do Bloco de Esquerda à Câmara da Nazaré lamenta algumas das opções tomadas pela maioria socialista, considerando que o concelho perdeu uma oportunidade de se transformar depois dos 20 anos de Jorge Barroso (PSD).

Autárquicas'17: Entrevista à candidata do BE à... por regiaodecister

REGIÃO DE CISTER (RC) > O que a leva a candidatar-se à Câmara da Nazaré, depois de ter sido deputada municipal e candidata à Junta?  
TELMA FERREIRA (TF) > Porque é que uma pessoa se candidata e assume esta responsabilidade? Acima de tudo sou uma cidadã da Nazaré, sou nazarena. Vivo e trabalho no concelho e apercebo-me do contexto social, económico e político em que a Nazaré tem vivido ao longo dos anos. Nos 20 anos do PSD, liderados por Jorge Barroso, apercebemo-nos de que os dinheiros públicos foram mal geridos, o que resultou numa das Câmaras mais endividadas do País. E agora temos estes quatro anos do PS, que podiam ter sido uma revelação para a credibilidade do sistema político, mas não foi isso que aconteceu. Enquanto cidadã e militante do Bloco de Esquerda desde a sua formação na Nazaré, em 2005, acredito que o Bloco de Esquerda pode ser a força a trazer mais democracia ao concelho da Nazaré. 

RC > O Bloco vem do pior resultado no concelho. Há condições para inverter essa tendência?
TF > O resultado de há quatro anos não foi mau. Já sabemos que a nível autárquico não temos grande representação. Mas em 2013 elegemos um deputado na Assembleia de Freguesia de Valado dos Frades, que não tínhamos, a juntar ao deputado que mantivemos na Assembleia Municipal. Aumentámos a representação, mas mesmo assim é uma representação muito baixa, ainda que o BE seja um partido minoritário e não um partido de poder. No entanto, o nosso ativismo e a nossa crença nos valores que vão sendo transmitidos não acabam com a sua pequena representatividade, que também se deve a vários fatores. Todos comemoramos o 25 de Abril, mas o certo é que as pessoas ainda não têm essa liberdade política. As pessoas têm medo de pertencerem, serem simpatizantes e militantes dos partidos, principalmente dos mais pequenos e dos que se opõem aos grandes partidos do poder. A nossa baixa representação também vem do facto de as pessoas ainda terem medo de assumir aquilo em que acreditam, porque depois são ameaçadas com a falta de emprego. Isso aconteceu, por exemplo, na formação de listas. É natural as pessoas não quererem participar numa lista porque têm medo que os familiares que trabalham para a Câmara percam os seus postos de trabalho. 

RC > O Bloco não tem órgãos locais. Isso é um problema acrescido para a implantação do partido?
TF > Claro que influencia. O Bloco de Esquerda é um partido muito versátil e muito plural. Aliás, surgiu de uma estagnação do PS e do PCP. O Bloco nasceu daquele mítico referendo da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, em 1998, que não se concretizou, e houve vários grupos, mais à esquerda do PS e mais à esquerda do PCP, que consideraram que a esquerda estava a estagnar e que era preciso uma esquerda mais convicta naquilo que são os valores de transparência e da própria identidade da qualidade de vida de cada pessoa. O Bloco de Esquerda é, na verdade, um partido revolucionário nesse aspeto e mesmo a nível interno é um partido muito democrático porque é na diferença que vê a força da manifestação e aceita a diferença como se fizesse parte do seu próprio crescimento. O facto de não ter ainda muita representação autárquica é um processo que tem de ser trabalhado também com a mudança de mentalidade das pessoas.

RC > O objetivo é eleger um vereador?
TF > O objetivo da minha candidatura é mostrar que o Bloco de Esquerda pode ser uma força de renovação e que esta força pode fazer a diferença na política do concelho da Nazaré, com a certeza de aumentar a sua representatividade.

RC > Que projetos tem para a Nazaré?
TF > Temos vários projetos no nosso programa, uns que considero mais importantes, porque  são a base do nosso conceito social, ou seja, apostar numa democracia direta, que não use as pessoas só para o voto popular. A democracia não se pode centrar só no direito ao voto, as pessoas têm que participar na gestão estratégica, política, social e económica da sua localidade e a nível nacional. As pessoas não podem ser postas de lado a seguir ao seu papel de votação, porque sem elas não há Governo, não há executivo, não há democracia. Aquilo que o executivo socialista liderado por Walter Chicharro fez a partir do momento que entrou em ação governativa foi exatamente trair o seu compromisso com as pessoas, e isso provoca uma descridibilidade nas pessoas em relação à política e provoca aquilo a que chamamos de abstenção. Lembro-me muito bem de uma entrevista de Walter Chicharro em que dizia: “não ao PAEL, não vamos despedir ninguém, queremos os valores sociais garantidos, não vamos aumentar impostos, esse não é o nosso caminho, não é o caminho do Partido Socialista e não é o meu caminho”. O que acontece é que fez exatamente tudo ao contrário, fez o que seria mais fácil, que foi recorrer a fundos que depois asfixiam o trabalho de investimento das autarquias. Então para reduzir uma dívida ficamos com mais dívida a juros? Não é esse o caminho do Bloco de Esquerda. Agora estamos em processo de aderir ao FAM, que é outro grande fundo económico e que terá de ser pago pela autarquia a juros. Além disso, Walter Chicharro fez uma coisa que não sei se já aconteceu nalguma autarquia assim de forma tão explícita, que foi despedir 15 trabalhadores só porque sim. Despediu 15 trabalhadores da Nazaré Qualifica porque não pertenciam à sua cor política, não houve qualquer motivo legal para esse despedimento. Quem acreditou que o executivo socialista podia ser uma espécie de ar fresco para os 20 anos da liderança do PSD acaba por se sentir traído com estas manobras de poder.

RC > O que é que o Bloco tem em termos de soluções objetivas para resolver nomeadamente o problema da dívida? 
TF > O problema da dívida pode-se resolver de várias maneiras, mas as coisas têm de ser um bocadinho mais exigentes do que propriamente recorrer sistematicamente a empréstimos. Podemos começar pela democracia direta, com auditoria e orçamentos participativos, para que as pessoas possam criar os seus próprios projetos, tenham uma parte de ação no próprio orçamento da Câmara. O espaço político é um espaço de diálogo. Outro dos processos seria a reabilitação urbana, porque cria emprego e cria uma dinâmica económica diferente. Temos uma série de edifícios de proprietários e muitos dos edifícios de património da Câmara que estão degradados e há fundos comunitários europeus que estão em curso para isso. Há espaços de arrendamento que podiam ter preços mais acessíveis para as pessoas e, portanto, é também um investimento na habitação das pessoas mais desfavorecidas. O Bloco também defende e muito bem a precariedade zero. Seria bom que a autarquia desse o exemplo de não contratar pessoas a prazo e a recibo verde. Temos de dar qualidade de vida às pessoas e isso tudo cria dinâmicas económicas, que podem não ser a curto prazo mas a longo prazo com certeza que haverá grandes benefícios sociais, culturais e económicos para o concelho.

RC > A Nazaré é uma sociedade matriarcal, mas a verdade é que é apenas a segunda candidata à Câmara da Nazaré desde 1977. Isso é um sinal dos tempos ou é um sinal de que a Nazaré não está assim tão dependente das mulheres?
TF > O sinal de que muito ainda falta fazer é eu ser a segunda candidata à Câmara em toda a história política do concelho da Nazaré [Isabel Vigia, pelo PS, em 2001, foi a primeira]. Isso só mostra que ainda há muito trabalho a fazer. Vivemos numa sociedade com valores democráticos, com certeza, mas ainda há uma grande discriminação entre homens e mulheres e essa desigualdade tem que ser trabalhada com a coragem das mulheres em assumir este género de compromissos.

RC > Há uma desilusão do Bloco com o executivo do PS?
TF > Há uma grande desilusão, porque somos partidos diferentes, mas estando o PSD no executivo do concelho gostaríamos que o PS, ao chegar ao poder, não tivesse falhado no essencial, ou seja, na transparência e na capacidade de ouvir as pessoas. Este PS é um PS que não lida bem com a oposição, nem com a diferença. Dou um exemplo: o primeiro concurso público deste executivo foi um concurso público privado, foi um concurso para candidatar as pessoas para as Atividades de Enriquecimento Curricular, não teve qualquer tipo de critérios de avaliação, resultados, não teve nada. E quando o Bloco questionou este concurso público feito à porta fechada a resposta do vereador da Educação foi de que não sabíamos o que estávamos a dizer e que este executivo podia escolher quem quisesse, até pela cor dos olhos. Isto foi dito em plena Assembleia Municipal, o que é uma coisa extraordinária para um vereador dizer. Temos um PS que pede uma maioria reforçada, que quer ainda mais poder para poder escolher as pessoas pela cor dos olhos. É um PS pouco socialista.