...o que é de calígula

Ansiedade: Uma História (I)

Num determinado momento da História, certo homem das cavernas encontra-se numa savana, diante de um leão esfomeado, vestido com pouco mais do que algumas peles de animais felpudos. A vida, naquele momento, corre-lhe mal, poder-se-ia dizer, como eufemismo. No seu corpo, com elevada probabilidade, vão tendo lugar certas reacções que irão produzir efeitos observáveis. Surge alguma palidez facial, os músculos contraem-se, as artérias dilatam, o sangue desce às pernas, a respiração acelera e, com ela, um certo desenfreamento do coração. A consciência estreita-se, de certa maneira, para dar a máxima atenção ao ambiente. Efeitos que o preparam, classicamente, para dois cenários: uma luta injusta ou uma fuga provavelmente mal-sucedida. Vamos esquecer, porém, o fatalismo desta situação em particular. Fiquemos por isto: diante de um felino indómito, é normal que nos sintamos inquietos, no mínimo. Se aquele homem das cavernas expressasse alguma ansiedade quanto ao seu futuro, ninguém lhe poderia dizer que não tinha motivos para isso. 

Podemos concordar que os tempos são outros. A probabilidade de o leitor ir passear e dar de caras com um leão é realmente bastante reduzida. No entanto, o seu corpo é essencialmente o mesmo que o do homem das cavernas e, portanto, reagirá da mesma maneira à ameaça. Acontece, porém, que as ameaças, hoje, são menos concretas e menos animalescas. Se o homem das cavernas se preocupava com predadores inapeláveis, o homem moderno tem preocupações menos imediatas, mas nem por isso menos relevantes. E da mesma maneira que é normal sentir-se ameaçado por um leão esfomeado, não é estranho que possamos ficar a pensar sobre como vamos enfrentar determinadas situações e sentirmo-nos ameaçados por elas. Se tenho uma apresentação amanhã, junto de uma plateia de desconhecidos, é normal que me sinta um pouco inquieto. Será que vou ser eficaz? Se, de um momento para o outro, me vejo forçado a ter um gasto que não esperava, é normal que me pergunte como irei chegar ao final do mês. Será que vou ficar sem dinheiro? Se o meu filho não tem um bom desempenho na escola, será que não vai ter uma vida profissional satisfatória e, em consequência disso, será incapaz de ter um rendimento que lhe permita levar uma vida digna, e eu, incapaz de o ajudar, estarei a condená-lo a uma vida de indigência, com uma saúde precária e possível redução da sua esperança de vida?

A ansiedade é, portanto, uma emoção normal e natural em nós, que, embora podendo ser desagradável, nos serve bem quando devidamente ajustada. De certo modo, aguça o nosso engenho, deixa-nos atentos e informa-nos da responsabilidade de certas tarefas e situações. Estranho seria se permanecêssemos inteiramente calmos e serenos, perante cenários que poderão ter um impacto significativo na nossa vida.

Uma pergunta natural, neste momento, seria, então: mas se isto da ansiedade é tudo normal e até pode ser útil, porque razão é um problema? Uma imagem para facilitar a resposta: pensemos num chuveiro e em como é útil. Mas pensemos agora no quão útil seria um chuveiro na sala de estar. Se considerarmos a sua magnitude, as perturbações de ansiedade não são apenas um problema, mas um problema eminente, um problema ao qual dedicarei este espaço nas próximas edições.