...o que é de calígula

Ansiedade: Uma História (II)

Concluíramos anteriormente que a ansiedade pode, na verdade, ser uma emoção ajustada. Mas, então, quando começam as coisas a correr mal? Voltemos ao nosso homem das cavernas. Esqueçamos, contudo, o nosso amigo neandertal prévio que se aterrorizava profundamente na face do felino. Imaginemos, agora, este novo homem das cavernas. Um tipo às direitas. Levanta-se de manhã, pega na sua caneca de pedra, para beber água. Despede-se da mulher e sai do seu covil para se dedicar à caça. Com os colegas, arrebata dois mamutes. Chega a casa, ao final da tarde, e só não enche uma arca porque ainda faltam alguns milénios para ela aparecer. Lança uns berros aos miúdos quando se eles se comportam pior. A vida, no geral, corre-lhe bem.

Certo dia, porém, este homem senta-se no seu sofá pétreo, bastante desconfortável, e em vez de apreciar as pinturas rupestres na parede, como sempre fez, sente-se ligeiramente inquieto com um pensamento que lhe vem à cabeça: e se deixasse de conseguir caçar como sempre tem feito?Imaginava uma doença qualquerimpedindo-o de desempenhar a sua profissão, ou os mamutes iam para outra freguesia, enfim, um sem número de possibilidades. Rapidamente se liberta desta ideia, pois nunca na vida lhe tinha sucedido tal coisa. Sempre caçara bem e com sucesso. Contudo, volta e meia, regressa-lhe esta apreensão, mas não sozinha. Pensa nos miúdos: e se eles não aprendem a fazer convenientemente os traços na parede? E se acontecesse alguma coisa à sua mulher? Os meses vão passando, e sem razão aparente, o futuro começa a pesar-lhe nas suas muitas possibilidades. E, dantes, este homem, que se sentava no seu sofá tranquilamente a descansar, sem pensar em nada, depois do seu dia de trabalho, acha-se agora incapaz de relaxar, com a sua mente errando exageradamente sobre problemas quotidianos e futuros. Se alguém lhe perguntasse se ele achava que se desassossegava demasiado com pequenas questões, ele diria que sim. Diria igualmente que tinha dificuldades em controlar a sua preocupação. Logo ele, que sempre fora uma pessoa descontraída e confiante. Mas não é só o que se pensa. O corpo é bastante fraco em distinguir ameaças. Portanto, o corpo deste homem reage da forma que sabe àquilo que pode correr mal, seja isso factual ou percebido. O seu estado de alerta eleva-se para além do saudável. Ele vai-se deitar e não consegue adormecer, os seus músculos contraem-se da tensão com que passeia as suas apreensões expectantes. Tenta olhar as pinturas rupestres, mas a sua cabeça foge, está desatento e desconcentrado. Nunca se consegue libertar de uma inquietude interior. 

Sejamos um pouco mais permissivos com a imaginação e aceitemos que, num dia farrusco, este homem entra numa máquina do tempo e aterra no nosso século, dentro do consultório de um psiquiatra. Não haveria dúvidas. Este homem tem uma perturbação de ansiedade generalizada, um nome pomposo para dizer que, neste homem, a ansiedade excede as suas funções fisiológicas e adaptativas, como um amigo que permanecesse em nossa casa mais tempo do que esperávamos ou do que estávamos dispostos a tolerar. É aqui então que a ansiedade se torna um problema, quando deixa de nos ajudar e passa ser um empecilho, por extravasar a sua função e interferir significativamente no nosso bem-estar. A ansiedade generalizada é um estado nocivo, tratando-se de um problema relevante e de identificação necessária. No entanto, esta é apenas uma face da ansiedade.