Carlos Tinta

Começo este artigo por dizer que a minha intenção não é de todo prolongar o luto que só pertence à família e aos amigos do peito. Aliás, antes de o publicar, tive permissão da sua filha.

Quero apenas deixar um testemunho honesto e respeitoso, a um amigo que não sendo próximo, foi próximo em todas as vezes que nos encontrámos. Vezes que, invariavelmente, foram ocasiões felizes: concertos, bares, esquinas de Alcobaça, restaurantes, estações de serviço, Portugal Campeão da Europa. A última vez que estivemos juntos foi na Feira Medieval de Aljubarrota, este Agosto.

O “Garrafão” era além de amigo, um grande fã da minha banda, os Moonspell. Nunca me pediu nada e, no entanto, tinha tudo. Discos, camisolas, bilhetes, o diabo. Foi também dos primeiros “Alcobacenses” que conheci e quando vim morar para aqui, era importante ter estas “costas quentes” enquanto não conquistava o meu território. Havia sempre assunto, Heavy Metal muitas vezes, e quando não havia, haviam outras coisas. 

Ele tinha cancro. Foi-lhe diagnosticado há alguns anos e todos nós fomos, ao de longe ou ao de perto, acompanhando a sua luta, o seu otimismo, sempre surpreendidos pela coragem que lhe permitia viver a sua vida de concertos e bola, com uma naturalidade que normalmente não se encontra assim muito em que está “condenado” ou pelo menos muito condicionado pela doença.

Estive um mês e meio nos EUA a tocar e muito pouco tempo depois de regressar, recebi a triste noticia da sua morte. Fui ao seu funeral em Aljubarrota e quando lá cheguei, apesar de estar mentalizado para a despedida, o que vi comoveu-me de uma maneira para a qual eu não estava preparado.

Perante o desaparecimento de um amigo e do vazio que as pessoas boas deixam, as nossas histórias e perspetivas pessoais são um pouco egoístas e irrelevantes. Daí a minha ressalva logo a abrir o artigo.

Mas, conto à mesma, porque me parece importante partilhar: na missa em sua honra vi toda a gente. Já percebi, de morar aqui em Alcobaça, que existe uma divisão invisível, que não é assim muito maldosa, mas que, não obstante, separa as castas e as tribos que aqui fazem vida. Em Aljubarrota, nessa tarde de calor, estavam lá todos: os ricos, os pobres, os proprietários, os desempregados, os velhos, os novos, os benfiquistas, os sportinguistas, os músicos, os trolhas, os bancários. Isso é tão revelador de quem era o Tinta, uma pessoa que encurtava qualquer distância ou preconceito.

Nesta cerimónia havia música a tocar, Metal claro, Rock também. Havia bandeiras dos No Name Boys e camisolas do Benfica. Acenderam-se tochas enquanto o caixão passava na sua marcha, sempre lenta e final. Houve lágrimas mas também palmas e sorrisos e abraços.

Havia também muita gente com camisolas de Moonspell. Entendi que os seus amigos e família fizeram com que as paixões da vida do Carlos ali estivessem representadas. Eu, como tantos outros músicos preocupo-me e chateio-me demasiado com pequenas cenas. Chegamos todos a ser mesquinhos na nossa vaidade e na gestão das nossas expectativas. 

Como felizmente tenho crescido muito nos últimos anos, tenho andado mais focado no que realmente interessa. E neste triste evento tive uma comprovação de que a música é muito mais que números ou feitos. É algo que pertence profundamente à vida das pessoas e que as acompanha até na sua última viagem, até aquilo que ninguém conhece.

Ver aquelas pessoas com as camisolas, fez-me acusar a responsabilidade, não por ser músico, mas por, sem saber avaliar bem isso, estar na vida das pessoas de um modo que, cegos pelas expectativas de glória e enrolados nas correntes do nosso trabalho, nem sempre nos é evidente.

Dos vários “grupos” de Alcobaça, e com todo o respeito pelos outros, a Sónia, a minha mulher nada e criada em Alcobaça, disse-me que eu se tivesse crescido aqui seria do grupo do Trindade. O Trindade é um restaurante que adoro aqui em Alcobaça. Já lá fiz muitos aniversários, amizades e até negócios. Para além de se comer como reis, há aquele ambiente familiar e antigo que me agrada tanto. Ainda por cima faz, à noite, ocasionalmente, noites de Rock, com DJ’s que passam música pesada e que trazem um refúgio às muitas almas perdidas daqui de Alcobaça que tal como eu gostam de emoções fortes na música.

O Carlos estava tantas vezes com este grupo. Membro por pleno direito: ele, o meu amigo Lourenço, o Viriato, a Carla, o Tó, a Salomé, etc.  que, tal como toda a gente em Alcobaça, me receberam de braços abertos. Ainda por cima gostamos todos das mesmas coisas! Foi ao pé do “meu grupo”, do Trindade, e entre vários outros amigos daqui, que prestámos a última homenagem ao nosso amigo Carlos Tinta.

E é com um abraço a toda a família Tinta e com um pedido de desculpas se abusei da vossa confiança com esta história; e outro igual aos amigos de anos, que termino este meu testemunho sobre uma pessoa que sempre me ensinou muita coisa, talvez mesmo sem o saber. Larga vida e dá aquele abraço ao Lemmy!

Born to Loose, Live to Win!