Portugal aqui vou eu

Deixem só passar o verão

Eu repito: bem mais de um terço dos restaurantes deste país vai, provavelmente, falir. Viajei de norte a sul do país em plena pandemia: uma rápida pesquisa revela que uma parte significativa dos hotéis ainda estão encerrados. Fico a saber que, dos 12 hotéis em Lisboa pertencentes à mesma cadeia, apenas dois já reabriram e ainda com parte significativa da equipa em lay-off porque muitos dos serviços não estão disponíveis e apenas uma das alas do hotel está a receber hóspedes, por manifesta falta de procura.

Qualquer pessoa atenta à informação sabe que os números dos divórcios dispararam, o consumo de fármacos ligados à saúde mental também, a violência doméstica aumentou, os suicídios também, assim como a criminalidade, o número de sem abrigos ou a fome. Rastreios e tratamentos médicos adiados são aos milhares. O desemprego já atingiu números históricos e isto ainda não é nada. Deixem só passar o verão... É este o retrato que eu tenho do país.

Portugal é um país de serviços, porventura até excessivamente dependente do turismo. Para muitas destas atividades, o verão será o canto do cisne e o outono trará a miséria, a falência e o desemprego. Por estes dias, lentamente abrem alguns espaços comerciais, comoveu-me ver a disciplina e sacrifício de todos aqueles profissionais que ali estão a trabalhar, dias inteiros com máscara posta, oxigénio limitado, e que não prevaricam pelo respeito ao outro e amor à sua profissão. Todos temos noção que um passo em falso poderá colocar todos em risco.

A maioria dos portugueses ainda não sentiu a crise, porque não teve rendimentos cortados, nem ameaça de desemprego. Ainda bem. Infelizmente, também serão afetados, nem que seja através dos brutais impostos que vão ser inevitáveis para fazer face aos subsídios, aos resgates, à dívida, ao abrandamento económico, à resposta social. Antes de irem comentar os negócios que lentamente abrem as portas, pensem nisso. Não imaginam como isso influi os decisores políticos, muitos deles reféns atentos das implacáveis e efervescentes redes sociais.

Esperem primeiro para verificar se as regras são cumpridas, o que até agora tem acontecido em todos os eventos, restaurantes e hotéis, ao contrário, por exemplo, de diversos transportes públicos e de algum contexto fabril. Sejamos responsáveis, mas corajosos. Cumpridores, mas audazes. O vírus é perigoso e mata. Mas a fome, a indigência, a depressão e o desemprego também.