...o que é de calígula

Diálogos do Pensamento Partido - I

Chamo-a através do corredor e ela, que veste o pijama indistinto, arrasta os pés descalços pelo chão até entrar no gabinete, momento em que percebo que não trazia nada calçado. Começo a falar com ela e, na verdade, armado no desarranjo das palavras, o seu pensamento nem se pode considerar incoerente, dado que se encontra completamente desagregado. Falei com ela cerca de uma hora e meia na segunda-feira. Raramente consegue articular duas frases encadeadas na sua substância. Apesar de um fundo comum, de uma temática única, as unidades do juízo são sucessivas epifanias desconexas. As suas ideias, vítimas de uma oscilação violenta, mas ténue, transitam, muitas vezes, por entre similitudes fonéticas de sílabas e, por sua vez, a génese de novas frases encontra-se numa palavra dita em voz anterior. Fala por paroxismos como se cuspisse as palavras, como se elas representassem o estertor de um pensamento exausto que tombasse ainda antes da realidade.

Pergunto-lhe se ouvia alguma coisa anormal, respondeu-me que escutava vozes que lhe diziam para se enervar

Apresenta descarrilamento de ideias. O seu fio condutor é um comboio que, ostensivamente, decide abandonar os carris. Não raras vezes, verbigera. Eu passo, ostensivamente, a minha perna direita por cima da minha perna esquerda e ela, em seguida, passa desarticuladamente a sua perna direita por cima da sua perna esquerda. Eu pouso, ostensivamente, os meus óculos no tampo da mesa e esfrego os olhos, e ela, em seguida, pousa artificialmente, como se não quisesse fazê-lo, os seus óculos no tampo da mesma mesa. Emula, por vezes, as minhas palavras. Levanta-se algumas vezes e inicia solilóquios sussurrados, em que parece tomar o corpo de personagens que vão lutando entre si. Num exercício de nomeação, pergunto-lhe o que é o teclado, que ela observa, algo perplexa, respondendo que é o irmão, antes de se lhe marejarem os olhos e começar a chorar. A certa altura, num momento mais alongado de silêncio, parece perscrutar surpreendida em redor. Pergunto-lhe se ouvia alguma coisa anormal, respondeu-me que escutava vozes que lhe diziam para se enervar. Depois disso, a meio de uma pergunta, levantou-se, com uma naturalidade indiferente, e meteu pelo corredor, murmurando para si própria.
Uma tristeza súbita, como se fora o meu pensamento, frágil vaso, a cair no chão.