...o que é de calígula

Dormir até a saúde bater à porta

Não é inabitual os psiquiatras, volta e meia, serem abordados acerca de uma potencial acção terapêutica sobre a qual toda a gente já ouviufalar: as curas de sono. É, na realidade, uma ideia sedutora pela sua simplicidade, como se se reiniciasse um sistema. A verdade é que esta prática não tem lugar à luz do conhecimento actual, mas houve, de facto, um tempo em que se pensou que poderia existir alguma validade nesta teoria.

Em 1897, numa noite particularmente trevosa, um médico escocês, radicado em Xangai, o Dr. Neil McLeod, encontrava-se nos seus afazeres quando foi contactado para acudir a umestranho caso. Em Tóquio, uma senhora inglesa de meia-idade ficara subitamente perturbada e altamente agitada. Pensa-se hoje que a senhora pudesse estar aatravessar um episódio maníaco. Uma questão colocava-se: com a sua actividade em Xangai, como diabos ia ele trazê-la de volta naquele estado? Demais a mais, numa viagem que iria demorar dias num barco a vapor. Pensou, então, que talvez pudesse sedá-lapara tornar a viagem menos penosa. Assim fez. Agarrou num poderoso sedativo conhecido à data, o brometo de potássio, e administrou-o. A doente aterrou numa cama confortável e a viagem fez-se, sem qualquer sobressalto.

Contudo, para surpresa do médico, quando chegaram a Xangai, a doente tinha recuperado completamente e regressara ao seu estado habitual. Dois anos depois deste episódio, a senhora apresentou um quadro semelhante. Lembrando-se da experiência passada, o Dr. McLeod decidiu experimentar, novamente, a sua terapia de sono. Em três semanas, a senhora estava, novamente, recuperada. Isto convenceu o nosso bom médico de que este sono químico poderia curar doenças mentais graves. Como bom cientista, decidiu testar a sua hipótese. Outros oito doentes foram submetidos a este sono, com algum resultado. Os sonos duravam de cinco a nove dias e os doentes eram acordados apenas para irem à casa de banho e para beberem algum leite. Não obstante ter recebido algum reconhecimento dos seus colegas, a verdade é que esta terapia acabou por perder algum terreno, por se ter descoberto que o brometo de potássio é altamente tóxico para os seres humanos. Mas, então, qual era o problema? Apesar de bem-intencionada, a ligação que o Dr. McLeod concluiu entre o sono e a cura psiquiátrica estava enviesada. Hoje, sabe-se que o brometo de potássio possui propriedades anticonvulsivas e que eram elas e não o sono em si que melhoravam os doentes. O sono era apenas um efeito secundário.

Os psiquiatras desejam que os doentes possam tratar-se, mantendo, sempre que possível, a sua funcionalidade e a actividade

Não obstante serem, muitas vezes, acusados de pretenderem intencionalmente tolher os doentes com sedativos e outra medicação, a verdade é que os psiquiatras desejam que os doentes possam tratar-se, mantendo, sempre que possível, a sua funcionalidade e a actividade. A missão do psiquiatra é encontrar um equilíbrio saudável entre a eficácia do tratamento e os seus efeitos secundários, de modo a que o resultado seja positivo. Habitualmente, conseguem. Seria, portanto, um contra-senso colocar as pessoas a dormir, quase indefinidamente, para as tratar.

Neste sentido, a cura de sono, mesmo que pudesse ter alguma validade terapêutica, estaria muito longe do que é o entendimento da prática psiquiátrica actual. Pode até ser uma imagem interessante, mas, hoje em dia, não é preciso dormir até a saúde bater à porta.
(o autor escreve sob a antiga ortografia)