Filosofia da religião - VII

A questão da relação entre Razão e a Fé é uma fonte inesgotável para as aulas de Filosofia da Religião. A reflexão sobre o lugar, que cada uma deve ocupar, é importante, já que tem consequências tanto no individual como no coletivo. Que lugar dar à Razão e que lugar dar à Fé? Os crentes fundamentam a sua crença nos textos evangélicos, onde lemos isto: “Se dois de vós, se reunirem, sobre a terra, para pedir seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus” (Mateus 18,19). E mais: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á. Todo aquele que pedir recebe” (Lucas, 11,9). 
Foi certamente levado por esta Fé evangélica que, há muito pouco tempo, o papa Francisco decidiu convocar o presidente de Israel, Shimon Peres, e o líder da Autoridade Palestiniana Makmud Abas para, no Vaticano, pedirem a Deus o dom da paz para os seus países. Depois da petição, feita a três, plantaram uma oliveira que é o símbolo bíblico da paz. Satisfeito o convite do papa, ou seja, feita a oração, pedindo a Deus a paz, cada qual foi à sua vida, ou seja: O Hamas começou a lançar mísseis sobre Israel e Israel logo respondeu com violência, que se prolongou por vários dias. Também me lembro, desde criança,  da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Portanto uma petição, que já se faz há pelo menos 70 anos, e que Deus também ainda não atendeu, pois a unidade entre as religiões cristãs não existe. Logo algo está errado. Na verdade, se depois da oração, com o papa Francisco, os beligerantes abriram as hostilidades, e se depois de 70 anos de petições, a unidade ainda não se alcançou, podemos concluir que o método utilizado (a Fé na oração) não terá sido o melhor método. 
A Razão diz-nos que se nos contentarmos com a velha e rotineira pedinchice, e nada mais fizermos pela paz, ela não cairá dos céus. A paz é uma construção que terá que ser feita pelos homens, e mais pelos argumentos da Razão do que pela Fé. Não podemos esperar que seja Deus a satisfazer os nossos pedidos. Os projetos têm que ser nossos e os esforços para os alcançar também. Nunca é demais ouvir um filósofo do século XV, Pic de la Mirandola, no seu livro: “A Dignidade Humana”. Nessa obra Deus dirige-se ao homem com estas palavras: “Não te dei rosto, nem lugar que te seja próprio, nem qualquer dom que te seja específico, a fim de que o teu rosto, o teu lugar e os teus dons, tu os queiras, tu os conquistes e os possuas por ti mesmo. Não te fiz terrestre nem celeste, a fim de que tu mesmo, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um hábil escultor, termines a tua própria forma”. 
Fé e Razão, eis a questão. Na religião houve, e há, fé a mais e Razão a menos. Como seria o cristianismo se desde o início  tivesse havido um lugar para a racionalidade? Como seria, eu não sei, mas estou convencido que seria diferente. Usando a razão, ter-se-iam evitado, por exemplo,os sangrentos combates  às heresias, às bruxas, aos judeus, as Cruzadas e a Inquisição. A Fé longe da Razão levou e leva ao fanatismo. A construção  da paz é mais obra dos homens do que de Deus. Para alcançar o fim duma caminhada é preciso caminhar, e não pedir a Outrém que o faça por nós.