Portugal aqui vou eu

Há “muitas pessoas a passar mal”

Num dos momentos mais críticos do início deste século, desafiaram-me pela segunda vez a partir numa autocaravana a descobrir Portugal. Refleti, cuidadosamente sobre este desafio e tomei uma decisão: não podia baixar os braços, aceitei. O desafio era ainda maior. Sabia que não ia encontrar sorrisos nas ruas e o medo é uma constante. 

A viagem começou e o cenário que encontrei é muito pior do que aquele que eu imaginava. Fome e um futuro incerto: não há nada pior quando estamos sem rumo. Os comerciantes temem pelo futuro: “Miguel, não sabemos como vamos aguentar o barco”, são os desabafos de alguns, de lágrimas nos olhos. O senhor Sabino, o último pastor do Cabo Espichel, não sabe o que fazer à produção de queijos e os litros de leite de ovelha que não param de chegar todos os dias. Artistas têm os espetáculos encerrados e a maioria deles foram obrigados a deixar a sua paixão e mudar de profissão. “Miguel, dói muito. Parou tudo. Sabe o que é tudo? Não há nada. Nada. E como será o nosso futuro? Vou ter de aprender tudo outra vez”. Comparo isto a um tsunami quando chega à costa e, sem avisar, destrói tudo o que encontra.

Parece “coisa de outro mundo”, mas é o nosso. A viagem ainda mal começou e aquilo que me anima é a coragem no rosto de quem não quer desistir. “Temos de ser mais unidos do que nunca”, temos que nos ajudar uns aos outros. Dar trabalho a quem precisa e dar um novo rumo a quem anda perdido. Sozinhos, não vamos a lado nenhum.

Aproveito esta minha crónica, escrita na mesa da minha caravana, para convidar a si, que lê este jornal, a ligar todos os dias de manhã na TVI e fazer parte deste ´Portugal, aqui vou Eu!´. Se tem a sua história para partilhar, tradições para dar a conhecer, escreva-me um e-mail para [email protected]. É com maior satisfação que receberei as suas palavras e quem sabe um dia destes serei eu a estacionar à porta da sua sugestão.