O Círculo Imperfeito

Memórias dos Coutos

No lugar de Ataíja de Cima, junto ao IC 2, existem as ruínas da casa do Monge Lagareiro do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, cuja fachada principal, com brasão de armas, ainda resiste à voracidade do tempo, tal como parte da sua cerca.

Sob a residência e alargando-se para o lado norte ficava o maior lagar de azeite dos Coutos que era explorado pela Confraria do Santíssimo Sacramento criada a 15 de junho de 1549.

Este magnífico equipamento agrícola monástico foi construído no séc. XVIII, provavelmente concluído em 1772 ao tempo do Abade Trienal Frei Manuel de Mendonça parente do Marquês de Pombal então no governo do Reino.

Destinava-se à produção de azeite proveniente do grande Olival do Sopé da Serra dos Candeeiros entre as duas Ataíjas, como indica António Maduro.

A casa do Monge Lagareiro do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, destinava-se à produção de azeite proveniente do grande Olival do Sopé da Serra dos Candeeiros entre as duas Ataíjas

Este autor diz-nos que o lagar possuía oito varas em laboração, quatro de cada lado (a nascente e a poente), igual número de tarefas para escoamento do azeite que neste lagar suponho terem sido em pedra e não como era frequente noutros equipamentos menores. Em barro havia ainda quatro caldeiras.

Existe um projeto de reabilitação deste edificado com risco dos arquitetos Vítor Mestre e Sofia Aleixo para utilização na vertente de turismo rural. Veremos, se as cinzas não me comerem.

Falemos agora um pouco da história documental, apenas alguma após 1883. A 21 de dezembro, consta do inventário destinado à hasta pública relativo aos bens do Mosteiro que os monges tinham um inquilino, António Dias, de quem recebiam anualmente uma renda de 23.000 reis, valendo o bem 1.2000.000 reis. Este último valor está inscrito na descrição dos bens de raiz do Mosteiro de Alcobaça. 

Mais tarde, em 1901, uma das varas está inoperante e o bem é partilhado por três herdeiros de Joaquim Coelho. Volto a usar uma informação de António Maduro.

Na sequência do que se vem escrevendo convirá agora sublinhar que existem três fotografias no N.º 5 da Série II do Boletim da Junta de Província da Estremadura - 1944, creio que da autoria de Manuel Vieira Natividade, relativas à fachada da casa do Monge Lagareiro, a Lagoa Ruiva, e aos Olivais da Serra. Estas e outras fotografias ilustram o artigo “As Granjas do Mosteiro de Alcobaça”, pág.35 a 57.

O livro de Benjamim Pereira – 1977, “A Tecnologia do Azeite em Portugal” assinala com relevo este lagar residência. E novamente Maduro, que na sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Coimbra, nos informa que no dia 17 de abril de 1920 o “imóvel é transacionado por Onze Mil Reis sendo comprador Francisco José Vigário, da Ataíja de Cima”.

Há uma tradição religiosa na Ataíja de Cima que virá de meados do séc. XIX e que está relacionada sobretudo com a produção de azeite. Todos os anos em fevereiro, logo no início, os fieis festejam Nossa Senhora da Graça, dirigindo-se em romaria para a base da serra, após haverem dado três voltas à igreja.

Acompanhados do pároco e com apoio da GNR vão e voltam ao cruzeiro, os olivais inexistentes são benzidos, como se pede também para que a Lagoa Ruiva tenha sempre água. Hoje também não existe.

Não há dúvida que é penoso ver desaparecer este testemunho da atividade económica do Mosteiro e elemento de referência para o futuro Museu dos Coutos. Creio que o Mosteiro profano seria melhor compreendido se, aonde for, preservássemos testemunhos materiais, imprescindíveis ao valor da memória.