O Círculo Imperfeito

O legado ao desbarato

Caixilharia degradada, pintura queimada, porta do “Jardim” das traseiras violado. Trata-se da rota da ruína da que deveria ter sido a Casa-Museu de Vieira Natividade.

Presume-se que o algeroz da cimalha esteja entupido, já que nas varandas se acumula lixo incluindo numa delas um vigoroso arbusto que teima em não dar flor.

Há 12 anos a tutela decidiu fazer a limpeza e manutenção do edifício e apoiou a inventariação do espólio arqueológico.

A realização de uma exposição de acervo cerâmico e a transferência da biblioteca e parte da coleção fotográfica para a Biblioteca Municipal que está em melhores condições, mas longe de cumprir as regras para este tipo de espólio em suporte de papel.

É verdade que o documento de doação dos particulares ao Estado não permitia a sua transferência para o monumento, mas a decisão tomada há cerca de quinze anos foi a melhor.

Por insistência de alguns cidadãos ligados à Família Natividade foi remontado, há 12 anos, o escritório no R/C da casa, pintada a fachada do edifício, afinadas e pintadas as janelas de todo o imóvel. Hoje a situação é escandalosa, como é o estado das alas norte e sul que não têm qualquer manutenção global vai para 40 anos.

Há um pouco mais de uma dezena de anos foi submetida a manutenção toda a fachada norte do edifício, incluindo portas e janelas, por decisão da tutela que permitiu também que a telha vã do Claustro do Palácio do Cardeal fosse devidamente forrada a madeira aparelhada.

Há pelo menos três anos, viçosos arbustos crescem na fachada da Igreja do antigo Mosteiro, situação que não era assinalada desde o séc. XIX. O Município denunciou o jardim suspenso. Estamos perante um caso de injúria e negligência. Os representantes da tutela em Alcobaça são responsáveis pela preservação da alma destes lugares. Sempre defendi que estes edifícios controlados à distância, que normalmente ignora quem os dirige, deveriam ser entregues aos municípios e administrarem as suas receitas, em condições a estudar.
Diga-se que apenas a DGPC tem NIF, daqui percebe-se quem contabiliza as receitas recolhidas pelos monumentos.

Por último refiro o pecado original da abandonada Casa-Museu. Nunca, repito, nunca, a casa e o seu recheio deveriam ter sido, quando a sua doação ao Estado, entregues à tutela dos monumentos, mas sim ao Instituto dos Museus, que nessa altura tinha os museólogos competentes para tratar do espólio geral.

Creio que Alcobaça deverá, como foi proposto no encontro no Armazém das Artes, promover uma petição dirigida a todos os órgãos de soberania já que a delicadeza não tem sido suficiente, para terminar com esta vergonha, mas para que tudo isto aconteça é necessário desenvolver o pensamento crítico.

P.S. A Assembleia Municipal não tenciona defender a memória de Alcobaça?