Portugal aqui vou eu

A pergunta é: quanto vale um café?

Até hoje não percebo o que é, mas lembro-me de ser criança e querer imitar os adultos quando chegava o momento de bebê-lo, quase como se o dia dependesse disso para valer a pena. Há qualquer coisa numa chávena de café que me cativa. Agora que penso, talvez seja esse o fascínio. Numa chávena de café cabe tudo o que quero, desde preocupações e inseguranças, a memórias que fazem com que me sinta mais aconchegado com um simples trago.

Na época só queria “ser grande”, não sabia a importância de ter aqueles minutos para fugir da realidade e viver na fantasia de uma vida que não sei se consigo ter. Mesmo antes de chegar à mesa – quando ainda estou com a chávena na mão, numa tentativa de, cuidadosamente, não entornar nada – chego à conclusão de que é isso que faço todos os dias. Vivo com o intuito de procurar equilibrar uma balança que nunca vai estar certa.

Mexo o café, com a esperança de também agitar as coisas na minha cabeça. Muitas vezes nem uso açúcar, gosto, simplesmente, do prazer de divagar enquanto faço com que não pare nunca de dar voltas.

Gostava de ter coragem para tornar a fantasia em realidade, mas tenho medo. Vivo na ansiedade de não saber o que o futuro me reserva, se as decisões que tomo enquanto estou aqui sentado, são as ideais para chegar onde desejo. Depois lembro-me que nem sei onde quero ir.
É errado perder-me?

Mexo o café, com a esperança de também agitar as coisas na minha cabeça. Muitas vezes nem uso açúcar, gosto, simplesmente, do prazer de divagar enquanto faço com que não pare nunca de dar voltas. Quem me dera ser eu ali, de um lado para o outro, sem saber que estou cada vez mais perto do fim e, mesmo assim, existir com a certeza de que tenho um propósito para cumprir antes de acabar.

Agora já posso bebê-lo, já “sou grande”. Sei que está na hora de voltar a enfrentar a realidade e torná-la minha. Nunca ninguém me disse que era tão difícil levantar-me da mesa depois de 5 minutos sentado. Tinha mais piada quando subia ao colo do meu pai para chegar à chávena, entorná-la para a minha boca e esperar que as últimas gotas caíssem. Depois pousava-a e dizia “Já está”.

Tenho tendência para achar que é no fundo da chávena que vou encontrar a solução para as minhas inquietações, mas nem sequer gosto de café.