Arco da Memória

As vilas dos Coutos de Alcobaça: Paredes da Vitória

O topónimo “Paredes” é relativamente comum e regra geral indica que os povoadores que lhes deram os nomes encontraram “paredes” ou “muros”, isto é, ruínas de povoados anteriores, de cujo nome não havia memória. Assim, Paredes da Vitória, Vale de Paredes e praia das Paredes são topónimos que designam a mesma povoação, situada no litoral norte do concelho de Alcobaça, freguesia de Pataias/Martingança.

O porto de Paredes assumiria grande importância já nos séculos XII e XIII, e mais tarde sob domínio do Couto Cisterciense do Mosteiro de Alcobaça, a partir do qual seriam exportados os produtos agrícolas da região.

D. Dinis, o Rei Lavrador, concede foral ao porto de Paredes a 17 de dezembro de 1282. Este primeiro foral era uma carta de povoação para 30 moradores, que eram obrigados a ter seis caravelas, pelo menos, preparadas para a pescaria. “Para que acomodassem casa, lhes mandou dar D. Dinis a cada um seu moio [antiga medida equivalente a sessenta alqueires] de trigo”. Com este foral, D. Dinis teve em vista, também, defender este sítio da costa, das invasões dos piratas africanos e granadinos. O mesmo D. Dinis concede um segundo foral em 29 de setembro de 1286 e D. Manuel um terceiro e último foral em 1 de outubro de 1514. A 17 de maio de 1368 a vila foi doada ao Mosteiro de Alcobaça a mando do rei D. Fernando, com o propósito de as suas rendas recaírem para a salvação da alma de seu pai, D. Pedro I, que jaz nesse mosteiro.

O porto de Paredes progrediu muito até 1500, chegando a atingir os 600 fogos. Alguns historiadores afirmam mesmo que o porto de Paredes possuiu um forte e 17 caravelas para defesa do seu porto. Há inclusivamente registos de que a armada de Vasco da Gama, antes da partida para a Índia, teria aportado aqui para abastecimento de víveres. No entanto, os ventos fortíssimos nesta região, foram arremessando com tanta força as areias sobre a povoação e o porto, que tudo ficou arrasado. A povoação foi abandonada, ficando aí por única memória uma capela (de Nossa Senhora da Vitória), a casa do eremitão e um moinho. A povoação de Paredes deslocou-se então para Pataias e para a Pederneira. Há mesmo quem afirme que a Pederneira foi fundada pelos moradores do porto de Paredes, quando no século XVI o porto deixou de ser utilizado por assoreamento pelas areias marítimas. No entanto, cronistas cistercienses são de opinião que a Pederneira já existia no ano de 1190. Seja como for, foi com a chegada dos pescadores de Paredes que a pesca tomou um grande incremento na Pederneira.

O fim do porto de Paredes esteve associado ao seu assoreamento e ao seu desmoronamento devido a uma violenta tempestade na segunda metade do quartel do século XV (1450-1500) e progressiva degradação.

Até 1536 Paredes foi freguesia de que dependia Pataias. Nesta data, já “o Capelão de Paredes dizia um domingo de missa em Paredes, outro em Pataias”. Paredes passa então por um longo período de esquecimento.

No início do século XX, em 1911, estavam identificados 9 fogos e 44 moradores. A principal atividade era a agricultura e a moagem de cereais, patente nas dezenas de moinhos (fluviais) ainda hoje existentes, mas completamente degradados.

Das 14 vilas-concelho apenas Alcobaça e Pederneira (a atual Nazaré) são hoje sede de concelho, tendo os outros sido entretanto extintos. “Feita” esta vila, ficam-nos apenas a faltar Pederneira, Salir de Matos e Santa Catarina.