Dois meses depois de tomar posse como presidente de Câmara da Nazaré, Serafim António sentou-se no Salão Nobre dos Paços do Concelho para uma primeira entrevista. Num balanço inicial do mandato, assume a reorganização interna como prioridade e aponta os principais desafios estruturais do concelho, da habitação ao saneamento e à mobilidade.
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REGIÃO DE CISTER (RC) > Completou a 1 de janeiro os primeiros dois meses do mandato e destacou, na última reunião de Câmara, a necessidade de escuta, organização interna e preparação de decisões sustentadas. Nos primeiros dois meses, quais foram as principais dificuldades que encontrou ao assumir funções?
SERAFIM ANTÓNIO (SA) > Têm sido dois meses muito intensos. Para alguém que estava fora do sistema político, há prós e contras. Os contras passam, efetivamente, por termos de nos habituar ao que é o sistema e à função pública. A maior dificuldade que encontrei, e também o meu maior foco, é a estrutura interna da câmara. Falo da organização, das pessoas e do funcionamento do dia a dia, da câmara, da empresa municipal e dos serviços municipalizados. O meu foco, nestes dois primeiros meses, tem sido compreender a estrutura e iniciar uma grande reestruturação, que passa pela criação de mais três divisões, sendo que as três que já existem irão sofrer algumas alterações. Uma será dedicada à educação e cultura, outra à coesão social e saúde e outra à sustentabilidade e desporto. O que queremos é criar uma estrutura mais expedita, mais eficiente, virada para o serviço público, promovendo também uma melhor integração das pessoas que trabalham na câmara. No primeiro dia em que entrei aqui senti uma grande desmotivação. O grande desafio é motivar as pessoas, todas, sem exceção, integrá-las no projeto e dar-lhes outro sentido sobre o que estão aqui a fazer. Sem isso, não vale a pena pensar noutros voos. O objetivo é organizar a casa para depois partir para o exterior e colocar em prática o nosso programa eleitoral e aquilo que queremos fazer pela Nazaré.
RC > Essa prioridade na reorganização interna era algo planeado antes da posse ou tornou-se necessário devido à situação que encontrou?
SA > Ouvíamos alguns rumores e qualquer munícipe sentia que existia uma grande desmotivação por parte das pessoas que aqui trabalham. Não podemos exigir resultados quando não há organização, planeamento ou quando as pessoas não sabem qual é o caminho a seguir. Já imaginava que pudesse existir esse sentimento, mas ao entrar percebi que era mesmo uma realidade. Creio que todas as pessoas que fazem parte do grupo municipal também estão à espera de dar esse passo. Dar esse passo significa fazer esta reestruturação, motivar as pessoas e colocá-las a trabalhar de forma a sentirem-se realizadas no que fazem.
RC > Afirmava, numa das primeiras intervenções após ser empossado presidente da Câmara da Nazaré, que ainda se estava a ambientar ao novo cargo. Já se habituou ao “senhor presidente”?
SA > A algumas coisas sim, a outras ainda não. O ritmo de trabalho tem sido elevado e isso não me preocupa, porque é algo a que estou habituado. Mas confesso que todos estes procedimentos, que entendo que tenham de existir – estamos a falar de dinheiros públicos – acabam por ser muitos obstáculos para se chegar a um objetivo. Sei que estas regras têm de existir, mas deveria haver uma maior simplificação de processos. É uma área na qual também estamos a trabalhar, de forma a tornar a máquina mais eficiente. Os tempos para as coisas acontecerem são muito diferentes do setor privado e essa tem sido uma dificuldade para mim. Estava habituado a outro ritmo e aqui percebi que o ritmo tem de ser diferente.
RC > Uma das críticas apontadas neste início de mandato teve a ver com a elevada quantidade de pelouros que assumiu. Como justifica essa opção? Acredita ser possível gerir todas as pastas de forma eficaz?
SA > Optei por ficar com estes pelouros já a pensar na forma como vamos organizar o município. Com a criação destas três novas divisões, vamos ter pessoas a trabalhar em áreas cujos pelouros assumi. Confesso que havia ainda mais pastas com as quais gostaria de ter ficado. Não gosto de ver as coisas de forma superficial, gosto de analisar ao detalhe. A educação e a saúde são áreas que me preocupam muito e que necessitam de uma intervenção rápida. Tenho uma equipa fantástica a trabalhar comigo e confio plenamente neles para assumirem estas áreas, mas quero acompanhar estas áreas em particular com grande proximidade.
RC > Essa opção de ter muitos pelouros é uma defesa para quem governa sem maioria?
SA > Acredito que sim, mas mais do que estar preocupado com a imagem externa da governação, estou focado em organizar a estrutura da câmara. Para organizar, tenho de estar por dentro dos assuntos, conhecer os passos e os processos. Sou muito exigente e quero perceber todos os detalhes. É a forma que encontro para pensar como é que as tarefas podem ser executadas de forma mais rápida e eficiente.
RC > Admite que poderá haver coligações ou acordos pontuais durante o mandato?
SA > Sempre admiti desde o início. Sempre disse em campanha que estava disponível para trabalhar com as forças da oposição, se assim tivessem interesse. Já implementámos duas medidas, que, creio, serem inéditas. Pela primeira vez, atribuímos um gabinete aos vereadores da oposição para poderem trabalhar no local e criámos emails institucionais para os vereadores da oposição. Temos trabalhado com uma transparência completa, com todos. Se, nos tempos mais próximos, puder dar alguns pelouros a alguns vereadores da oposição assim o farei, desde que as pessoas demonstrem interesse em trabalhar connosco. Aqui não tem a ver com uma questão política, em termos de aprovações na câmara. Estamos aqui para resolver as questões do município e estamos disponíveis para trabalhar, seja com quem for.
REGIÃO DE CISTER (RC) > Quais os temas estruturantes que pretende encerrar ou definir definitivamente nas próximas semanas?
SERAFIM ANTÓNIO (SA) > Temos um problema muito grave no concelho, sobretudo na freguesia da Nazaré, relacionado com o saneamento básico. Tenho acompanhado de perto o trabalho dos Serviços Municipalizados e não há um único dia sem problemas na rede de águas ou nos pluviais. Estamos constantemente a fazer reparações em vez de obra nova, o que é um sinal claro da degradação da infraestrutura. O que aconteceu no verão de 2025 foi um alerta sério para a iminência de problemas graves no abastecimento de água e saneamento. Costumo dizer, em tom de brincadeira, aos colegas da OesteCIM que, nos últimos anos, a Nazaré teve grande visibilidade, atraiu turistas e investimento, mas pouco foi feito no concelho. Os concelhos vizinhos beneficiaram dessa visibilidade, estruturaram-se, criaram infraestruturas e investiram. A Nazaré não. Em termos de investimento público, foi praticamente zero. Agora sou eu que lhes bato à porta para nos ajudarem a resolver os problemas básicos do concelho. Na habitação, deixámos passar oportunidades. Nada foi feito e agora vamos correr atrás do prejuízo para lançar projetos em 2026, com rendas acessíveis e habitação a custos controlados. O município não conseguiu aproveitar os fundos disponíveis nos últimos anos.
RC > Quanto à rede viária e à criação de mais parques de estacionamento, que ações estão previstas e quando prevê que tenham impacto?
SA > O grande problema é que o município não tem projetos. Sem projetos, 2026 será essencialmente um ano de execução de projetos. Temos três intervenções estruturantes: a continuidade da circular ao Sítio da Nazaré, para resolver definitivamente os constrangimentos dessa zona; uma circular na Pederneira, sobretudo tendo em conta o projeto do funicular, que não foi acompanhado por um plano de mobilidade; e uma circular alternativa ao trânsito em Famalicão, uma reivindicação antiga. No centro da vila há muitos constrangimentos e falta direcionar o trânsito de forma clara. É indispensável finalizar a Avenida do Município, negociar com proprietários para a sua libertação e, só depois, implementar um plano de mobilidade estruturado para a Nazaré. Já identificámos também novas áreas de estacionamento para responder aos picos de verão.
RC > Comprometeu-se, na última reunião de câmara, a apresentar decisões e prioridades claras nos primeiros 100 dias de mandato….
SA > O compromisso é mostrar que estamos a trabalhar em projeto. As pessoas não podem pensar que amanhã começamos a construir uma circular sem projeto. 2026 será um ano de estratégia, planeamento e lançamento de concursos. O concurso público da Escola Amadeu Gaudêncio terá obrigatoriamente de ser lançado em 2026. Identificámos muitas falhas no projeto e estamos a corrigi-las para lançar o concurso até final de janeiro e candidatar até 30 de junho. Temos recebido revisões de preços elevadas de projetos antigos, que podem chegar perto dos 500 mil euros em 2026. Por isso quero projetos rigorosos e evitar revisões futuras. Nestes primeiros 100 dias vamos focar-nos no lançamento de projetos e na reestruturação interna. No final, quero apresentar à população, com transparência, o ponto de situação financeiro e organizacional do município.
RC > Antes de ser eleito, era o presidente da Direção da AR Pederneirense. Como garante que não haverá conflitos de interesse e que todos os clubes são tratados de forma justa?
SA > Já não exerço funções na associação. O vice-presidente assumiu a liderança e a transição está praticamente concluída. Quando foram atribuídos os apoios financeiros de 2025, ausentei-me da reunião. Tudo tem sido feito com transparência.
RC > Há planos para aumentar o investimento no desporto?
SA > Já realizámos o primeiro Conselho Municipal de Desporto e fui muito claro com as associações relativamente a esta matéria. É evidente que o município quer que todas as associações consigam ir o mais longe possível, porque é uma forma de representar o município e motivo de grande orgulho. No entanto, os clubes e as associações têm de saber dar os passos de forma sustentada. Se pretendem subir de divisão, têm de estar com os pés bem assentes na terra e devidamente preparados para isso. A câmara estará sempre disponível para prestar o apoio necessário, dentro das suas limitações orçamentais, mas não iremos, de forma alguma, repetir o que foi feito nos últimos três ou quatro anos. O D. Fuas teve um apoio financeiro muito significativo do município e competiu em divisões elevadas, mas quando o município deixou de ter capacidade financeira para continuar esse apoio, o clube acabou por desistir, o que não é um modelo sustentável de crescimento. Os clubes têm de criar bases sólidas e procurar outras fontes de financiamento. O nosso foco será claramente a formação, porque é um serviço público que as associações prestam à comunidade.

