Este conteúdo é apenas para assinantes
A Cooperativa Agrícola de Alcobaça (CAA) promoveu, no sábado passado, a sessão “Cooperativa Agrícola de Alcobaça: História, Identidade e Futuro”, que visou recordar as origens do associativismo agrícola no concelho, relembrando os momentos bons, e menos bons, da Cooperativa. O relógio marcava pouco depois das 19 horas quando, na sala da debulhadora, Ricardo Santos, diretor de Serviços, deu início à abertura oficial da sessão. Seguiu-se António Maduro, com uma palestra sobre “As origens do associativismo em Alcobaça e o percurso da Cooperativa até ao final da década de 1980”, defendendo que “o movimento cooperativo contribui para sociedades mais equilibradas”.
A intervenção antecedeu Manuel Castelhano, ex-presidente da Cooperativa Agrícola de Alcobaça e atual presidente do conselho geral da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Cister (Epadrc), que recuou ao momento “mais difícil” da CAA: a crise financeira de 1990. Começou por recordar a importância que a CAA teve outrora, quando era o único local de compra e venda em Alcobaça. “A Cooperativa era até chamada de ‘Comprativa’, porque era o único local onde se comprava”, sublinhou. Mas nem sempre foi fácil: “Em 1980 já havia sinais precoces do risco financeiro”, assumiu, acrescentando que a Cooperativa “pagou um preço demasiado alto com a crise”, com a perda da confiança dos associados. Reconheceu ainda o esforço de quem tentou reerguer a Cooperativa – havendo, pelo meio, espaço para um momento simbólico de entrega de uma lembrança a José Canha.
Já em 2008, Manuel Castelhano candidatou-se à presidência com o objetivo de reerguer a CAA. “Tinha cinco vetores de recuperação, nomeadamente a melhoria das instalações, a estruturação do negócio, o reforço dos recursos humanos, o controlo de gestão e a recuperação da imagem”, afirmou. Recuperaram-se, por isso, as instalações e foi criada a Granja de Cister. Ainda que, segundo o dirigente, “a maior obra tenha sido recuperar a confiança dos associados”.
Ainda antes do jantar, o diretor de Serviços destacou a evolução das vendas nas últimas duas décadas. “Em 2005 o volume de vendas era de 2.108.880 euros, sendo que em 2025 o valor era de 4.408.707 euros, um aumento de 109%”, esclareceu Ricardo Santos, fazendo depois um balanço muito positivo do evento ao REGIÃO DE CISTER. “O evento foi um sucesso”, enalteceu, frisando que a intenção da sessão foi mostrar aos associados “o que a Cooperativa representa hoje: uma organização com atividade económica, serviços de apoio à agricultura, capacidade de formação e uma ligação próxima à comunidade”.
Classificou o percurso de recuperação como “exigente, construído com persistência, rigor de gestão e recuperação da confiança dos associados”. Assumiu que a crise teve consequências profundas, com perda de património, redução da atividade e enfraquecimento da organização. Depois da conclusão do processo, foi necessário reorganizar o funcionamento, recuperar instalações, valorizar os trabalhadores e desenvolver serviços que respondessem às necessidades dos associados, acrescentou. E para o responsável, a profissionalização da gestão foi “um elemento nuclear” para os resultados alcançados, ao reforçar a organização, o controlo financeiro e a capacidade de executar decisões.
Entre 2005 e 2025, os postos de trabalho passaram de nove para 26 e foi investido cerca de um milhão de euros no complexo arrendado, com melhorias nas instalações e criação de novas valências. Ao longo das duas décadas, a Cooperativa manteve “zero euros de endividamento bancário”. “Em 2005, a prioridade era garantir a sobrevivência da Cooperativa. Hoje, temos capacidade para criar valor económico, prestar melhores serviços e contribuir para o desenvolvimento da região”, destacou.
Os números reforçam a recuperação da confiança. Atualmente, a CAA conta com 4.613 sócios estatutários e, em 2025, 2.160 associados efetuaram compras, face a 360 em 2005, o que representa um valor seis vezes superior. Já o Centro de Formação, que desenvolve ações dirigidas a agricultores e outros profissionais em áreas como a aplicação de produtos fitofarmacêuticos e a proteção integrada, contabiliza 2.852 pessoas formadas.
O dia serviu também de pretexto para a apresentação pública de uma obra. E foi precisamente por aí que até se iniciou o evento. Às 18 horas, na Granja de Cister, decorreu o lançamento do livro “Bernardo de Claraval, o Cristianismo, a Vinha e o Vinho”, com a presença dos autores, Rui Rasquilho, António Maduro e Amílcar Coelho. A apresentação ficou a cargo de Manuel Castelhano. Durante a apresentação, que contou com a presença de Leonel Fadigas, arquiteto e escritor alcobacense, e de Carlos Fernandes, da editora Hora de Ler, Manuel Castelhano garantiu que a obra, que explora o significado do vinho e a sua dimensão espiritual, “é uma referência da história sociocultural de Alcobaça”. Está dividida em três partes: na primeira, Rui Rasquilho assina uma biografia de Bernardo de Claraval, o principal responsável pela fundação da Ordem de Cister. Na segunda, António Maduro explora o vinho, a religião, a sociedade e a cultura, sendo que na terceira, Amílcar Coelho aborda o vinho das realidades espirituais, nomeadamente o vinho de oração e o vinho medicinal.
Sobre o livro, Ricardo Santos relembrou a ligação à agricultura, à vinha e ao vinho, e à história e identidade da região, sublinhando que o apoio à cultura se enquadra na missão da CAA, através dos princípios da educação, formação e informação e do interesse pela comunidade.
Posteriormente, o jantar foi servido por alunos e professores da Epadrc, num momento que permitiu a degustação de vários produtos da região, nomeadamente de vinho dos Capuchos, Malhado de Alcobaça, queijos da Flor do Vale, enchidos da Sabores Seculares e frutas e legumes da região, com destaque para a Maçã de Alcobaça.
E o que parecia ser apenas um acaso não o era. “Esta escolha traduz uma preocupação central da Cooperativa: valorizar aquilo que se produz na região e dar visibilidade a quem produz”, disse o diretor de Serviços, rematando que “a região tem tudo o que é necessário para preparar uma mesa de elevada qualidade”.












