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Representou a Seleção Nacional feminina de hóquei em patins em cinco campeonatos do Mundo e em três Europeus, somando muitas medalhas pela equipa das quinas. No percurso enquanto guarda-redes representou, entre outros, o Sporting e o HC Turquel. Fez carreira em Espanha, no CP Manlleu, e brilhou nas mais icónicas pistas do hóquei em patins mundial. É disso um excelente exemplo as exibições protagonizadas em San Juan (emblemático recinto do hóquei em patins argentino) no Mundial de 2022, em que Portugal arrebatou a medalha de bronze, ou aquelas que fez já em 2024 e que ajudaram a equipa das quinas a ser vice-campeã mundial, em Itália.
A carreira era (e continua) sobejamente reconhecida pelos seus pares, mas terminou, talvez, muito antes do tempo porque a pressão de atingir os objetivos por si impostos tornou-se um peso que, admite, não soube gerir e que aos poucos lhe roubou a felicidade (plena) no desporto.
Aos 25 anos, Cláudia Vicente foi diagnosticada com uma depressão, uma condição que soube ainda antes da última edição do Campeonato do Mundo, em 2024, e daquela que seria a primeira e única aventura fora do país. Dois anos depois, já com 27 anos e após uma grave lesão que se prolongou durante esse período, decidiu encerrar o capítulo mais duradouro e exigente: o de jogadora. O motivo, confessou em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, acredita ter sido a forma como sempre encarou o desporto. “A minha mentalidade sempre foi a mentalidade de uma desportista de alto rendimento. Sempre coloquei as expectativas muito altas. Em todos os treinos e jogos, definia objetivos que tinha de cumprir e nos projetos em que estava foi sempre para competir e para ganhar. E quando não cumpria esse objetivo, havia um desgaste psicológico. Era a minha maior inimiga porque me pressionava a fazer sempre melhor”, confidenciou a antiga guarda-redes.
Cláudia Vicente começou a carreira ainda em tenra idade na aldeia do hóquei, de onde é natural, representou vários clubes de relevo no hóquei em patins, e em todos manteve um denominador comum: a exigência. E foi precisamente a elevada exigência, que hoje reconhece, com a qual nem sempre lidou bem com o hóquei. “Deu-me os melhores momentos da minha vida, mas também me colocou na posição mais frágil”, relatou, num testemunho intimista em que recordou o caminho que viria a contribuir para a depressão que mais tarde atravessou. “Tive dias em que não tinha vontade de me levantar da cama, houve outros em que a caminho do treino tive de parar o carro porque não me sentia bem”, confidenciou.
E foi mais longe: “fui e sou acompanhada profissionalmente por uma psiquiatra e por uma psicóloga. E acho particularmente importante que este deixe de ser um tema tabu. No desporto de alto rendimento, há muita pressão e no caso da Seleção Nacional deixou-me marcas profundas. Entreguei-me como nunca e, por vezes, deixei que se tornasse a coisa mais importante da minha vida. É absolutamente determinante desmistificar isto e perceber que há mais além do desporto que praticamos e nos apaixona. Demorei a entender, mas aos poucos já vou conseguindo fazê-lo. É difícil, confesso”, partilhou Cláudia, antiga internacional portuguesa e que se estreou pela equipa das quinas com apenas 16 anos, confidenciando que chegou a ser medicada enquanto era ainda atleta federada. “Os meus treinadores, e mais uma ou duas colegas mais próximas, sabiam da minha situação e cheguei a ter medicação no banco para o caso de ter algum bloqueio durante o jogo. Obviamente era tudo devidamente controlado, mas senti essa necessidade”, confessou.
Foi num ambiente sereno, e com o Parque D. Carlos I, em Caldas da Rainha, como pano de fundo, que a jovem turquelense, agora a viver naquela cidade, abriu o coração para falar sobre os motivos que a levaram, aos 27 anos, a tomar a decisão de pendurar os patins e a guardar o capacete que tantas vezes foi o escudo que impediu a tristeza de consentir um golo.
As medalhas, apesar de muitas, nunca foram as de vencedora e o “quase”, ao longo do tempo, foi massacrando. Talvez por isso a célebre música “We are the Champions” ainda hoje lhe custe (muito) ouvir. “Pensei muitas vezes que a culpa era minha, que estava sempre próxima de conseguir vencer, mas que ficava sempre pelo quase. E esse quase também massacrou, apesar de ter entendido, com a experiência, que nada depende apenas de nós. Há um contexto e mais jogadoras a quererem atingir os mesmos objetivos, mas foi duro”, asseverou.
Já a Seleção Nacional, o espaço onde considera ter sido mais feliz na carreira, também mexe com as emoções. “Aquele Mundial em 2024 foi absolutamente incrível para mim. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Ainda hoje sinto que gostava de estar lá (Portugal ultimava a estreia na última edição aquando da realização da entrevista) mas, se ainda jogasse, sei que já não tenho a disponibilidade física nem psicológica para dar o contributo que acredito que deve ser dado naquele patamar”. “Não deixa de ser um luto com o qual ainda estou a lidar. E continua a ser muito difícil não estar entre os postes da Seleção Nacional”, assegurou a turquelense, revelando ainda ser emotivo ouvir o hino. “São memórias muito fortes”, acentuou.
Entre a leveza e o conformismo de uma decisão bem pensada e as lágrimas de quem lembra um tempo que já não volta, recordou a entrevista de final de carreira do colega de posição Ângelo Girão, figura de proa do hóquei em patins mundial. “Ainda hoje, se pensar naquela entrevista, emociono-me porque revejo-me em muito do que ele partilhou”, sublinhou a jovem, atirando que “ser atleta de alta competição é especial e deixa muitas marcas”, considerando “muito impactante” o caso de Girão. “No meu caso, depois de muita terapia e também aprendizagens, existe uma Cláudia antes e uma Cláudia depois do hóquei”, comparou, certa de que o seu exemplo poderá inspirar as gerações vindouras. “Sinto hoje que quero ajudar para que não cometam os mesmos erros e as mesmas falhas que eu cometi ao colocar o desporto, no caso o hóquei, acima de tudo. Apesar de algumas vezes me ter esquecido disso, tão focada que estava, há família, há amigos e uma vida além do hóquei”.
Talvez seja isso que também a ajude a superar a depressão que caminha a passos largos para um final feliz e que a inspira a alertar para o tema e, assim, ajudar o colega do lado. Já cantava Jorge Palma, “enquanto houver estrada para andar, a gente não vai parar”. E Cláudia também não.
“50% é capacidade física e 50% é a parte psicológica. Valem o mesmo”
A vida de um desportista é escrita de momentos de glória, mas também de momentos de derrota, de sofrimento e de angústia. Não apenas pela felicidade das conquistas – sejam troféus ou somente vitórias –, mas também pelos obstáculos que tem de ultrapassar pelo caminho. Muito dos quais, bem distantes dos holofotes e no quarto onde por vezes a felicidade e tristeza coabitam quase lado a lado. E é isso que leva Cláudia Vicente a crer que um desportista deve aliar a capacidade física ao equilíbrio emocional. “50% é capacidade física e 50% é a parte psicológica. Valem o mesmo”, atirou, de imediato, a antiga guarda-redes.
A recuperação de uma lesão, exemplificou, é um teste de elevada exigência: “a última lesão (contraída em 2024), e que foi uma das justificações para a decisão que tomei, foi muito dura. Tive períodos em que não podia sequer ter um momento de descontração na pista”, confidenciou, revelando uma conversa que a marcou. “Um dos fisioterapeutas que consultei questionou se pensava voltar a jogar hóquei, uma vez que, se a ideia fosse essa, estaria apenas a desgastar o meu corpo. As lesões podem não te deixar voltar da mesma forma”, recordou.
E voltou a aprofundar o tema: “uma lesão é sempre o corpo a dizer-te alguma coisa e, coincidência ou não, a lesão surgiu no mesmo momento que a depressão. Houve tratamentos em que chorei muito, chorava de raiva com as dores que tinha, mas era fundamental para conseguir jogar”, explicou Cláudia Vicente, que até conseguiu disputar o Campeonato do Mundo desse ano (e que Mundial fez!), mas que meses depois voltou a sentir as mesmas dores durante a passagem pelo campeonato espanhol, do qual saiu ainda mais debilitada. “Para alguém que já estava frágil, a lesão nunca iria ajudar…”, revela a antiga internacional, que foi recentemente operada à anca (com sucesso) e que continua a trabalhar todos os dias para cuidar da saúde mental.
Mas se uma lesão é desafiante, também o será quando se disputa uma posição em que apenas uma jogadora pode estar em rinque. “É um papel ingrato. Todos queremos jogar, mas, em simultâneo, também queremos que os nossos colegas sejam bem-sucedidos, até porque, afinal de contas, fazemos parte da mesma equipa e temos os mesmos objetivos coletivos”, justifica, não escondendo que é um tema difícil de equilibrar e de gerir. “É perfeitamente legítimo que todos queiram jogar e na posição de guarda-redes só uma joga”, repisou.
O tema da saúde mental e do equilíbro de expectativas tem vindo a tornar-se cada vez mais relevante, mas os impactos advêm também do que acontece… fora do rinque. “Nunca liguei muito às críticas que ia ouvindo durante os jogos, mas questionei muitas vezes o que seria a Cláudia sem o hóquei. Perguntava-me quem seria depois do hóquei em patins. Andei perdida e achava que não seria ninguém… ”. Nascida e criada na aldeia do hóquei em patins, o cenário ganhou força pois era, e continua a ser, conhecida como a guarda-redes que (tantas vezes) defendeu as cores do HC Turquel e também do País. “Mas há uma Cláudia para além do hóquei. Há também uma vida familiar e profissional para além do desporto”, ripostou.
Um ano depois de ter deixado de jogar, e um mês após ter oficializado o fim do trajeto na Seleção Nacional, o (impactante) testemunho de Cláudia Vicente, a que se permitiu com o intuito de ajudar quem possa estar a viver situação semelhante, surge como uma lufada de ar fresco e para deixar um aviso (bastante) sério de que ninguém deve descurar a importância da saúde mental. Até porque, concretizou, é tão determinante a capacidade física quanto o bem-estar psicológico. Valem exatamente o mesmo. E ambos devem ser bem cuidados.


