Entrevista a Hélder Nunes

Foi colega de Cipriano, Arnaldo e outros na época de ouro do Ginásio. Não deu o salto dos juniores para a equipa principal que militava na 1.ª Divisão nacional, mas a “paixão” pelo emblema alcobacense nasceu na década de 1980. O sócio 497 já fez parte dos órgãos sociais do clube em vários mandatos, mas só regressou aos azuis quando o seu filho começou a vestir a camisola do Ginásio. Hélder Nunes nasceu em Luanda (Angola), mas viveu quase toda a vida em Alcobaça, é eletricista de profissão e aos 54 anos assume um dos maiores desafios ao ser o presidente da Direção do Ginásio, sonhando ver um clube sem dívidas.

O novo presidente do Ginásio assume a necessidade de o clube se reorganizar para fazer face aos desafios do futuro. Em entrevista ao REGIÃO DE CISTER, o dirigente assume erros do passado, mas demonstra grande motivação para estabilizar o emblema azul.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Por que é que decidiu avançar com a candidatura à presidência de um clube em falência técnica?
Hélder Nunes (HN) > Não fui só eu que decidi. Em conversa entre dirigentes decidimos que haveria a possibilidade de continuarmos nos órgãos sociais porque havia trabalho feito. Além disso, não vimos a situação do clube de forma tão negativa como a pintaram. Há, efetivamente, dificuldades. O Ginásio tem dificuldades, sobretudo de tesouraria. Mas há forma de corrigir. Há algumas coisas que fizemos mal e que pensamos que, corrigindo, conseguiremos levar o barco a bom porto. Foi isso que me levou, a mim e ao resto da equipa, a concorrer. Houve também alguma pressão dos pais. Estou no Ginásio quase todos os dias, como muitos dos meus colegas, e as pessoas vão falando connosco, partilhando o que está bem ou está mal. Foi por isso e porque até à última da hora andámos a tentar encontrar uma Direção que desse algumas garantias e isso não aconteceu. Assim, reunimos algumas pessoas, sobretudo mais novas, para dar outro ânimo ao clube.

RC > Foi secretário-geral no anterior mandato. Tinha conhecimento do estado financeiro do Ginásio? 
HN > Sim, claro. Como disse, tinha conhecimento, como quase toda a gente, de que o Ginásio atravessava dificuldades. Foi a vontade de corrigir alguns erros e tentar fazer melhor que nos levou a concorrer. 

RC > Que erros se propõem a corrigir neste mandato?
HN > Basicamente conseguir aproveitar mais atletas da formação para compor a equipa principal e conseguir equilibrar a equipa sénior. Não que ela estivesse perdida, porque até teve bons resultados, mas vamos ter de baixar expectativas. Basicamente é isso.

“Vamos ter de correr o risco de baixar o investimento sem perder a competitividade desportiva”

 

C > O investimento na equipa sénior era superior às capacidades do clube?
HN > O orçamento era alto. E este ano vai ter de baixar. Vamos ter de correr o risco de baixar o investimento sem perder a competitividade desportiva. Vamos colocar atletas mais novos, com menos experiência, vamos aproveitar jogadores da equipa de juniores. A ideia é, no futuro, a equipa sénior do Ginásio ser constituída por atletas da formação. Pode ser uma ideia utópica, mas é um objetivo a longo prazo. Temos de ser realistas e colocar as expectativas a um nível que possam ser atingidas e não sejam demasiado elevadas.

RC > O maior problema que o Ginásio enfrenta é no plano financeiro. Como é que a sua Direção vai enfrentar este problema? Há planos de reestruturação da dívida?
HN > Vamos ter de angariar mais patrocinadores, temos de envolver mais os pais e familiares dos atletas e organizar mais eventos para ir buscar verbas. Não há outra forma. Temos de agarrar nos nossos parceiros e tentar fazer o melhor. Porque eles é que são o clube e é com eles vamos tentar construir um Ginásio diferente. Os patrocinadores e pais sabem o que se passa no clube e têm de fazer parte da solução. E julgo que, pelo menos, a maior parte deles quer ajudar e fazer parte da solução. E, obviamente, teremos de conversar com os nossos fornecedores e ver as condições que temos para pagar as dívidas. E estudar onde vamos buscar dinheiro para isso. Ainda está tudo muito fresco, começámos a trabalhar há algumas semanas, já temos trabalho feito e já estamos a corrigir algumas situações. Mas é importante deixar claro que não é este ano que se vai ver o resultado deste esforço e deste trabalho. É preciso tempo, ao longo destes dois anos, para se conseguir ver os efeitos do que foi feito.

“Queremos aproveitar mais atletas da formação para compor a equipa principal”

 

C > O Ginásio estava a funcionar num patamar mais elevado do que, na verdade, teria “bases” para se sustentar?
HN > Não consigo responder a isso. O Ginásio tem sido fruto do desenvolvimento que teve nas últimas épocas, com a subida da equipa principal ao Campeonato de Portugal Prio, com os juniores nas divisões nacionais e as duas equipas femininas também em competições nacionais. É uma envolvência que, talvez, o Ginásio não estava preparado para ter. E isto não é uma crítica a ninguém. Quando muito é uma autocrítica, que assumo, porque também fiz parte dos anteriores corpos sociais. Mas vamos ter de repensar isso tudo. Temos de rever as nossas apostas, identificar as apostas prioritárias e o que queremos fazer. Há uma nova mentalidade que vai ter de mexer com quase toda a estrutura do clube. Para chegar a algum lado, o Ginásio vai ter de se reestruturar. Vamos ter de dar um passo atrás para dar dois à frente, como se costuma dizer.

RC > O número de atletas inscritos no futebol de formação no clube tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos. Quais são os seus objetivos para este departamento?
HN > É um facto que o Ginásio tem vindo a crescer ao nível de formação, em particular desde há cerca de três anos para cá. Temos atualmente mais de 250 atletas nos vários escalões, mas a verdade é que não temos muito por onde crescer. Neste momento estamos a atingir o limite da nossa resposta no que toca ao futebol de formação. Além disso, o Estádio Municipal está ocupado, todos os dias, desde as 18 até às 22 horas, sempre com equipas a treinar, às vezes com duas equipas a treinar simultaneamente e a dividir o campo. Não é a situação ideal mas é o que tem de ser. Poderíamos fazer parcerias e ter algumas equipas a treinar noutros locais, como já aconteceu em Alfeizerão ou no Bárrio. Mas tudo isso acarreta custos e implica uma grande organização logística. Neste momento vamos apostar nas equipas que já temos e tentar ao máximo segurar os jogadores para que possam representar a equipa sénior do Ginásio.

“Há uma nova mentalidade que vai ter de mexer com quase toda a estrutura do clube. Para chegar a algum lado, o Ginásio vai ter de se estruturar”

 

RC > Quais é que são as expectativas no plano desportivo para 2018/19?
HN > Tentar apostar na Taça de Portugal, que é uma competição que pode garantir importantes prémios para o clube e formar uma equipa para o meio da tabela da Lizsport Divisão de Honra. Obviamente que o futebol é muito mais das atitudes do treinador e dos jogadores do que da Direção. Não estamos a investir para ir buscar jogadores com prémios elevados, mas vamos tentar manter alguma competitividade com o baixar da fasquia na equipa sénior. É um equilíbrio muito difícil de ser bem feito, mas temos de tentar porque, no entender desta Direção é isso que o Ginásio precisa neste momento. 

RC > Teme que o baixar da fasquia seja mal recebido pelos sócios?
HN > Acredito que isso possa acontecer, mas foram esses sócios que elegeram esta Direção e são eles que são sempre soberanos e têm a última palavra. Qualquer sócio que considere que não estamos a fazer um bom trabalho, pode chegar junto da Assembleia Geral e pedir a nossa destituição. Não estou agarrado ao poder. Enquanto cá estiver, discutimos e fazemos o que pensamos que é melhor para o clube, mas no dia que nos disserem que estamos a mais nós saímos. Não fazemos como o Bruno de Carvalho [risos]. Se votaram nesta Direção é porque acreditam que conseguimos dar a volta à situação no Ginásio e o nosso objetivo é não defraudar os sócios. Mas não temos nenhuma varinha mágica que mude isto tudo. Vamos tentar fazer o melhor possível.

RC > Também haverá lugar a contenção de despesas. Onde é que o desinvestimento vai incidir no plano desportivo?
HN > A equipa sénior vai ter um orçamento inferior mas não é só. É a todos os níveis e, infelizmente, também na formação. O Ginásio tem de gastar apenas o dinheiro estritamente necessário para funcionar. Tudo o resto é para cortar. Temos de poupar. Além de baixar despesas, gostava de conseguir receitas para ir pagando as despesas correntes e a dívida. Naturalmente isso exige um grande esforço de toda a gente. Mas é isso que temos de fazer. Na formação, o desinvestimento que haverá é ao nível dos treinadores. Porque a formação paga-se a ela própria, as mensalidades tornam as equipas autossuficientes mas não podemos ter dois treinadores, um delegado e massagistas, por exemplo. Vai haver, também, redução de equipas: a equipa de seniores femininos já acabou e não vamos ter condições para formar outra. Depois, teremos também de ajustar algumas das equipas dos escalões mais baixos, porque não faz sentido ter uma equipa, por exemplo, com apenas sete atletas. Vamos ajustar e perceber se faz sentido ter duas equipas de benjamins e traquinas, por exemplo. Tem de ser feito o tal equilíbrio difícil entre as finanças e o plano desportivo que, obviamente, é uma coisa muito ingrata.

“Se votaram nesta Direção é porque acreditam que conseguimos dar a volta à situação no Ginásio e o nosso objetivo é não defraudar os sócios. Mas não temos nenhuma varinha mágica que mude isto tudo. Vamos tentar fazer o melhor possível”

RC > O que levou ao fim da equipa de seniores femininos?
HN > Foram várias coisas, mas a aposta passa muito por manter a equipa júnior, levá-las e acompanhá-las a seu tempo, em vez de injetarmos muito dinheiro na equipa sénior. Seria fácil, como quem diz, chegar a vários clubes da região com equipas femininas, que não são muitas, e tirar três ou quatro jogadoras para reforçar a nossa equipa. Mas isso não traria raiz nenhuma ao projeto. Temos de construir as coisas de baixo. O que se pretende é que o jogador ou a jogadora cheguem aos seniores e tenham capacidades e condições de representar a equipa principal, depois de cinco, seis ou mais anos na formação e que sinta orgulho por estar a jogar pelo Ginásio. O que se passaria com a equipa de seniores femininas era estar a “plantá-las” aqui e dizer-lhes: ‘hoje jogas pelo Ginásio, amanhã jogas noutro clube qualquer’. Isso é para os profissionais. O objetivo é fazer crescer a equipa júnior e, daqui a umas temporadas, quando surgir de novo a oportunidade, criar de novo uma equipa sénior feminina com algumas das atletas que estejam agora nas juniores.

RC > Porquê a escolha em Leandro Santos para treinador principal?
HN > Na nossa opinião, o Leandro Santos fez um trabalho na Benedita que apreciámos e conseguiu ter na equipa principal vários jogadores da formação do clube. Faz muita confusão ter uma equipa de juniores nos campeonatos nacionais, que se manteve, e depois nos seniores não os aproveitarmos. A razão maior é esta. Além disso, é um treinador de Alcobaça, tem experiência e provas dadas. Da mudança de órgãos sociais faz parte, também, a mudança nessa vertente e tentar integrar outras ideias e que o grupo se identifique com o clube. Sem desprimor nenhum pelo Filipe Faria, antes pelo contrário. Fez também um bom trabalho no Ginásio, um trabalho de vários anos, e estamos agradecidos ao treinador.

“Vai ser um mandato difícil mas peço que nos deixem trabalhar”

RC > Que mensagem deixa aos sócios?
HN > Vai ser um mandato difícil mas peço que nos apoiem, que venham ver os jogos, que critiquem de forma construtiva e nos locais certos, sem deitar abaixo, e nos deixem trabalhar. E que tentem utilizar os canais certos do Ginásio para se informarem, porque vamos também tentar aproximar-nos dos sócios e potenciar a comunicação do clube.