Sábado, Outubro 10, 2026
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Cortinado de banho

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Quem não se lembra da cena do Karate Kid em que o protagonista se mascara, no Halloween, de “chuveiro” e manda uma valente mangueirada de água, cabeça abaixo, ao vilão, antes de lhe beijar a namorada dentro do conforto da sua “fantasia”?

Pois aí está uma ideia muito fixe para adicionar às máscaras (cirúrgicas) e ao gel de mãos que agora fazem parte dos conteúdos dos nossos bolsos. Com um cortinado de banho enfiado pela cabeça abaixo, não só estávamos (ainda) mais protegidos do vírus, como ninguém nos veria, ou sequer reconheceria a beber o desconfinado da ordem na esplanada que (tal como o cheiro das descargas no Alcoa) invadiram, entretanto, as ruas de Alcobaça, sem encontrar muita resistência. Não se preocupem: irão ser apuradas as responsabilidades devidas e serão emitidos os necessários pedidos de desculpa.

Voltando aos cortinados: Com este à nossa volta, evitávamos a chatice do comentário da senhora ou do senhor que estando a beber a sua bica sem máscara, se acha no direito de nos reprovar porque nos sentámos com um amigo a beber uma cerveja no seu spot preferido e porque não conseguimos bebê-la através de uma palhinha que saia da máscara KN95 (como quem ainda ninguém se lembrou de inventar isto?).

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Reza a lenda que no tempo da ditadura salazarista, as pessoas mantinham as persianas corridas para baixo, os estores fechados, as portadas cerradas, para que ninguém que ia a passar na rua, ou que os espreitasse do prédio ou casa em frente as visse e lhes “arranjasse problemas”. Era o medo. Foi o medo. Ainda é o medo. Sempre o será. Em cada esquina um amigo? Não me parece. As pessoas andam cá com uma vontade de meter os outros em trabalhos, mesmo que seja por coisas que eles próprias acabaram, agorinha, de fazer. Mas, cortinados e conversas de café à parte, enquanto esperamos pela vacina anti-covid, vamos sonhando com outra que sabemos que nunca será inventada: uma que nos imunize perante o medo de tudo e de todos, perante o inferno que são os outros, as outras e os de quem os apanhar.

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